sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Manuel Marques: o arquitecto do Porto (1890-1956) - Evocação do 125.º aniversário do nascimento

Manuel Marques

Casa onde nasceu Manuel Marques - Rua Nova, Avintes, Gaia

Manuel Marques recebe Prémio Soares dos Reis, 1914

Restaurante “O Escondidinho” - Rua Passos Manuel, Porto

Moradia de Adélia Mendes de Sousa - Rua do Nevala, Porto, 1937

Devantur da Confeitaria do Bolhão - Rua Formosa, Porto

Pedestal do M.M.G.G. – Praça Carlos Alberto, Porto

Fonte Luminosa - Av. Montevideu, Porto  

Na senda de outras evocações de autores e artistas gaienses que a Biblioteca Municipal de Gaia decidiu homenagear, de há um ano a esta parte, ocorre agora lembrar o arquiteto Manuel Marques. Todos os evocados têm em comum o facto de a sua vida e  obra serem praticamente ignorados do grande público, apesar das carreiras de sucesso que tiveram ou da obra notável que produziram. Não raras vezes conhecem-se algumas obras mas desconhece-se que o seu autor é uma figura aqui nascida ou que aqui viveu e trabalhou.
Trata-se de grandes figuras, caídas no olvido, que ajudaram a construir a identidade gaiense e cuja memória urge resgatar.

É o caso do arquiteto Manuel Marques aqui nascido, há 125 anos, em Avintes, numa família de artistas da arte de trabalhar a talha. O pai, Adolfo Marques, foi o entalhador do Rei; o irmão, homónimo do pai, foi o entalhador que criou os conhecidos “bonecos  de pau”.
Ingressou Manuel Marques na Escola de Belas Artes do Porto e aí se formou em 1913, ganhando, no ano seguinte, o Prémio Soares dos Reis.
Fez o seu tirocínio no ateliê de Marques da Silva, seu mestre na academia portuense.
Já casado e pai de um filho de poucos meses, partiu para Paris, como bolseiro, para estudar arquitetura, tendo-se diplomado em 1930, título só conseguido, à data, por um número ínfimo de portugueses.
Foi professor da Academia Portuense de Belas Artes, membro da Comissão de Estética da Câmara Municipal de Porto e autor de grandes projetos na área do urbanismo que marcaram a paisagem e a arquitetura da urbe portuense.
Como profissional liberal, a título pessoal ou em coautoria, foi autor de cerca de centena e meio de projetos de arquitetura designadamente moradias unifamiliares da burguesia portuense, moradias várias da classe média, unidades industriais, unidades de saúde, prédios de rendimento, mobiliário e decoração, estabelecimentos comerciais nomeadamente devantures, pedestais para monumentos, etc.
A sua imagem de marca é a Farmácia Vitália, os Armazéns Cunha (aos Leões), a Fonte Luminosa da Avenida Montevideu, o pedestal da Menina Nua, etc. É-lhe também atribuída a Barbearia Tinoco ou a Pastelaria do Bolhão, no Porto.
José Augusto França, grande historiador e crítico de arte, escreveu que Manuel Marques “foi o mais notável arquiteto e decorador de gosto ‘Arts déco’, do Porto”.
Apesar de possuidor de um currículo invejável era um homem discreto e introspetivo na forma de viver recolhendo-se quando podia na sua casa de Avintes a que chamava “O meu refúgio” tornando-se “mais lavrador que arquitecto, tal a maneira como tem tratada esta sua propriedade” segundo nos conta o escultor Pereira da Silva, seu conterrâneo, que com ele privou nos últimos tempos da sua vida.
É a vida e obra desta personalidade gaiense que vos convidamos a conhecer, através da exposição que a Biblioteca Municipal de Gaia aqui apresenta em sua homenagem.


CRONOLOGIA DA VIDA E OBRA
(1890.12.25; 1956.10.11)

1890.12.25 – Nasce na Rua Nova em Avintes, filho de Adolfo Marques, entalhador, e de Esperança Francisca, de alcunha “A Rendeira”.
1891.03.23 – Foi batizado na igreja de S. Pedro de Avintes
1898-1902 – Frequenta a Escola Central, em Avintes
1902 – Conclui a Instrução Primária
1902 – Matriculou-se na Academia Portuense de Belas Artes
1908.11.30 – Morte inesperada do pai, Adolfo Marques, aos 47 anos
1913.10.07 – Conclui do curso de Arquitectura na Escola de Belas Artes do Porto
1913 a 1918 – Trabalha na oficina da Família, como entalhador  e no atelier de Marques da Silva
1914 – Recebe o Prémio Soares dos Reis, conferido pela Escola de Belas Artes do Porto.
1916.05 – Foi contemplado por despacho ministerial com a  concessão da pensão de Estado para pensionista de Arquitetura em Paris.
1916.10.11 – Casa no Porto com Belmira Gomes Ribeiro
1917.01.11 – Nasce o seu primeiro filho Corintho Marques Ribeiro
1917.02 – Continua o impasse em relação à sua saída para Paris devido à burocracia no desbloqueio do pagamento do subsídio de viagem.
1917.05.26 – Parte para Paris para continuação dos seus estudos.
1917.07 – Mantém residência num ateliê na Cité Falguière 14, onde estiveram Modigliani, Diogo de Macedo, António de Azevedo, etc.
. Recebe, com atraso, a primeira pensão, vivendo com sérias dificuldades de dinheiro emprestado.
1918 – Conseguiu admissão à Escola de Artes Decorativas. Faz estágio no ateliê de Godeiroy e Freinet.
1918.02 – Participou nos concursos de admissão na secção de Arquitetura.
1920.07.12 – Admitido como aluno bolseiro na Escola de Belas Artes de Paris (à 6ª tentativa)
1924.03.24 – Foi admitido no ateliê de Pontremoli.
1925.01 – O Conselho Escolar da Escola de Belas Artes do Porto propõe a sua recondução como professor interino da 2ª cadeira (Desenho de ornato, modelação e estilização)
1925 – Em Paris, onde permanece, visita a Exposição Internacional das Artes Decorativas e Industriais, onde colheu enormes ensinamentos (a nível de valores formais e lexicais) para a sua formação artística no domínio da art déco.
1925.08 – Termina o seu pensionato em Paris
1925.10 – É aprovado no concurso para professor da 2ª cadeira.
1926, fevereiro – Exposição de Esculturas de Henrique Moreira e de desenhos de Manuel Marques, no Salão Silva Porto, no Porto.
1927 - Docente na Escola de Belas Artes do Porto, na cadeira de Ornato (2ª cadeira)
1927 – Monta ateliê na Rua de Miguel Bombarda, no Porto
1927 – Desenha móveis e decorações Art Déco para os Armazéns Nascimento
1928 – É da sua autoria um Plano de Embelezamento da Foz do Douro.
1928 – É autor de um projecto de edifício para a Escola de Belas Artes do Porto, o qual, por falta de verbas, não passou dos alicerces.
1928 – Nomeado para a Comissão encarregada de dirigir e administrar a obra de construção do edifício da Escola de Belas Artes do Porto, no quarteirão da Biblioteca Municipal.
1928.01.27 – Inauguração do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, na Praça Carlos Alberto, no Porto, com padrão e pedestal da autoria de Manuel Marques e esculturas de Henrique Moreira.
1928.08 – Parte para Paris para realizar provas de habilitação ao diploma de Arquiteto, na Escola de Belas Artes de Paris.
1929 – Projecta o mobiliário e arranjos interiores e devanture da Barbearia Tinoco, na Rua de Sá da Bandeira, no Porto. (projeto atribuído)
1929.12.01 – Inauguração da “Menina Nua”, na Avenida dos Aliados, com escultura de Henrique Moreira e pedestal da autoria do arquiteto Manuel Marques.
1930 – Obtém o diploma de Arquiteto pelo Governo Francês na 146ª Promoção de 12 de novembro, tornando-se membro da Societé des Architectes Diplomés par le Gouvernement, título atribuído (até então) somente a José Luís Monteiro, Ventura Terra e Marques da Silva.
1930 – É vogal da Comissão de Estética da Câmara Municipal do Porto
1930 – É autor de um Plano de Urbanização para a cidade do Porto (em colaboração com Amoroso Lopes), exposto na I exposição dos Arquitectos do Norte de Portugal
1930-32 – Projeto da loja de João Luís Ferreira, em Barcelos (pormenores da loja, balcões, vitrinas, mobiliário).
1930-1932 – Projeto das Casas dos Magistrados de Vieira do Minho e de delimitação do Campo da Feira.
De 1930 a 1956 – atividade de projetista em regime liberal
1931 – Inauguração da Fonte de Montevideu, na Rotunda do Castelo do Queijo e hoje no jardim da Avenida de Montevideu.
1931. Participou com diversos trabalhos, em coautoria com Amoroso Lopes, na I Exposição de Arquitectura Portuguesa, realizada no Palácio da Bolsa e inaugurada en 21.03.1921.
1931.03.21 - Na I Exposição da Arquitetura Portuguesa apresenta, juntamente com o Arquiteto Amoroso Lopes, um projecto da estação da Trindade.
1932 – Projeto da Farmácia Vitália com Amoroso Lopes, uma obra marcadamente modernista.
1932 – 1933 – Projeto da habitação de Gomes Neto Júnior em Matosinhos.
1933 – Projeto da obra de Adelino Quintas, em Barcelos.
1933 – Projeto de melhoramentos do Monte da Franqueira (Barcelos) em colaboração com o Arquiteto Amoroso Lopes.
1934 -– Projeto de pavilhão para ampliação de instalações, projeto de cavaletes de modelação  - Escola de Belas-Artes.
1934 – Realização do pedestal “art-déco” para o monumento a Camilo, com busto de Henrique Moreira inaugurado anteriormente com pedestal provisório em granito.
1935 – Desenha móveis e decoraçõs para o Café Imperial (Avenida dos Aliados)
1935.01.05 – Autor do Projeto de Aformoseamento do Passeio das Virtudes (em coautoria com o Arquiteto Amoroso Lopes.
1936.08.06 – Integra a Comissão de Estudo para a Conclusão do Monumento das Guerras Peninsulares, à Rotunda da Boavista, no Porto.
1937 – Integra a Comissão Municipal de Arte e Arqueologia, juntamente com os arquitetos António Correia da Silva e Rogério de Azevedo.
1938.01.27 – Inauguração do monumento “ Homem do Leme”, na Foz do Douro, com escultura de Américo Gomes, e desenho do pedestal e outros trabalhos da autoria de Manuel Marques.
1939 – Professor de “Arquitectura” e “Modelação em Barro” na Escola de Belas Artes do Porto, substituindo na cadeira de Arquitetura o Arquiteto Marques da Silva.
1943 – Residia na Rua dos Mártires da Liberdade, nº 120, no Porto
1944 – Integra o júri do Concurso do projeto para a construção da Igreja de Santo António das Antas, juntamente com Arménio Losa e outros.
1947 – Por sugestão do pintor Joaquim Lopes, diretor da Escola de Belas Artes do Porto regeu temporariamente a cadeira de Escultura naquela escola.
1953 – Integra a Comissão Organizadora da Exposição de Homenagem ao Arquiteto José Marques da Silva.
1954 – Passa o seu tempo livre na sua casa de Avintes (Rua do Meu Refúgio), com jardins e logradouros decorados pelo seu bom gosto artístico e dedicado aos pequenos trabalhos agrícolas e de jardinagem.
1953 – Mostra de obras decorativas feitas na habitação de sua propriedade, sita na Rua do Meu Refúgio, na Exposição Conjunto de algumas obras do Mestre e alguns dos seus discípulos, promovida pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, com a colaboração da Sociedade Nacional de Belas Artes e Sindicato Nacional dos Arquitetos.
1956 – Aposentação como professor da Escola Superior de Belas Artes do Porto
11.10.1956 – Faleceu em Paranhos (Porto)


Bibliografia
. Diário do Governo, II Série, nº 33 de 10.02.1926, pp. 478-481.
. Dicionário de personalidades portuenses do século 20; Porto, Porto Editora/Porto 2001.
. GOMES, J. da Costa – Recordando Adolfo Marques, Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, fasc. nº 6, maio de 1979, pp. 11-15.
. GOMES, J. da Costa – Uma casa de raízes trágico-artísticas, Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, fasc. nº 23, novembro de 1987, pp. 48-52.
. LEÃO, Manuel – A arte em Vila Nova de Gaia, Vila Nova de Gaia, Fundação Manuel Leão, 2005 – cota BPMVNG 86111-G
. Jornal “Luz do Operário” – Vila Nova de Gaia, de 24.02.1935
. PEDREIRINHO, José Manuel – Dicionário dos Arquitetos ativos em Portugal, do século I à atualidade, Porto, Afrontamento, 1994. – cota BPMVNG 56852
. SILVA, Pereira da – Os nossos artistas – Manuel Marques, Caminho Novo, 1955.
. SILVA, Manuel Pereira da – Adolfo Marques, Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, nº 6, maio de 1979, pp. 16-18.
. Uma fotografia histórica, Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, vol. II, fasc.15, p. 3.
. VAZ, José - O entalhador do Rei. Adolfo Marques e a sua dinastia, Caminho Novo – Revista do Clube Recreativo Avintense, nº 30, 2007, pp. 4-9.

Texto de António Conde

Sala de Fundo Local e Regional Armando de Matos, BPMVNG
Janeiro 2016