quinta-feira, 20 de março de 2014

A melhor coleção oitocentista de vistas de Gaia, da autoria de Cesário Augusto Pinto - Parte I

Introdução

A coleção de vistas de Vila Nova de Gaia, que ora se apresenta, insere-se no álbum “As margens do Douro – coleção de doze vistas”, foi desenhada por Cesário Augusto Pinto, em 1848, e foi editada na litografia de Joaquim Vitória Vilanova, com sede na Rua do Campo Pequeno, nº 1849, na cidade do Porto.
Do álbum referido oito imagens dizem respeito a paisagens ribeirinhas de Vila Nova de Gaia, no arco espacial que vai da baía de Sampaio, em Canidelo, até Arnelas, na ex-freguesia de Olival.
Aqui partilhamos as vistas de Vila Nova de Gaia, naquele que é o melhor e mais harmonioso e fidedigno conjunto que conhecemos de imagens antigas gaienses. Paralelamente tentámos traçar uma pequena biografia do autor, de seu nome Cesário Augusto Pinto de Araújo Cardoso de Mendonça, nascido em Lisboa e falecido em Guimarães.

1. As vistas de Vila Nova de Gaia
As oito litografias são apresentadas nas cores negro-cinzento-preto ou em cor sépia e são subordinadas a um título escolhido pelo autor ou editor.
Algumas das vistas, nomeadamente as designadas por “Gaia”, “Vila Nova” e “Arnelas”, ou mesmo a “Serra do Pilar”, são reproduções visuais cheias do maior realismo, mostrando enormes afinidades com a paisagem atual. As restantes, talvez por se tratar de paisagens menos urbanas, salientam os aspetos naturais ou humanos mais significativos dos lugares que lhe servem de tema. No conjunto contemplam paisagens das freguesias ribeirinhas de Canidelo, Afurada, Santa Marinha, Oliveira do Douro, Avintes e Olival, isto no que refere à margem esquerda do rio Douro, que cabe no âmbito do nosso estudo.
A riqueza das imagens merece a sua dissecação o que faremos de seguida numa “visita guiada” feita, contra a corrente, desde a baía de Sampaio, ali junto à Foz,
até Arnelas de Avintes e Olival, aquele portinho tão caraterístico do Rio Douro, lugar que já foi, no passado, marco divisório de uma série de circunscrições administrativas, episcopais e territoriais.

1.1.Sampaio (Casa do Sr. Antero)
A vista diz respeito ao lugar de Sampaio, da freguesia de Canidelo, situado na margem esquerda da Ribeira de Santarém que, grosso modo, divide esta freguesia da ex-freguesia da Afurada. Em lugar central é reproduzida, ao natural, a figura da chamada Brévia dos Frades da Serra do Pilar que já mereceu um estudo pormenorizado neste blogue. A construção atual foi levada a efeito, no início da década de 40 do século XIX, pelo seu proprietário Antero Albano da Silveira Pinto. Ao lado do palacete é representada a ermida de raiz quinhentista de invocação a S. Paio. O resto da paisagem é preenchido pelo rio Douro, a norte, e por um denso arvoredo que enche a encosta de S. Paio.
Na atualidade conserva-se o palacete da chamada “Brévia” e a capela de S. Paio. A sul o espaço está na sua grande parte urbanizado, há já várias décadas. A norte, no espaço em frente à “Brévia”, foi construída recentemente a Marina do Douro.




1.2.Gaia
A vista que tem por título “Gaia” diz respeito ao morro ainda hoje designado por Castelo de Gaia, por ser o lugar do castelo medieval de Gaia que, segundo Fernão Lopes, foi destruído pelas gentes da cidade do Porto. Na atualidade mantêm-se a maior parte das construções, a saber: o Lar Pereira Lima, ao alto que pertence à Misericórdia do Porto, a capela de Nossa Senhora da Bonança (ou do Bom Jesus de Gaia), os armazéns do vinho do Porto, a casa junto às escadas da Rua do Salgado. Na cota baixa, de nascente para poente, ainda existem as paredes e belas janelas dos dois primeiros edifícios e todo o casario ribeirinho do Cais de Gaia que aqui parte com o Cais da Fontinha, bem assim o Oratório e escadas da Boa Passagem. Era aqui que se situava o pelourinho de Vila Nova de Gaia que foi derrubado e semidestruído na cheia de 1909. A poente, na cota média, pode ver-se o edifício da Quinta da Bela Vista onde existia a cerâmica do Vale da Piedade. No rio, no cais da Fontinha, são visíveis diversas embarcações de pequeno porte.


1.3. Vila Nova
A vista que tem por título “Vila Nova” diz respeito à zona clássica do Centro Histórico de Gaia, junto ao chamado Cais de Gaia. À cota baixa, de nascente para poente, pode ver-se o casario que rodeia a capela de Nossa Senhora da Piedade da Areia, a qual mantém a mesma configuração. A casa de esquina que atualmente serve de Posto de Turismo, ainda não existia, pois foi reconstruída a seguir à cheia de 1909. Segue-se o edifício neopalaciano da empresa Sandeman, construído sob risco do cônsul John Withehead e a entrada na Rua Direita, no chamado lugar da Volta.
O resto dos edifícios, a poente, mantém praticamente inalterada a sua fisionomia. Não é visível a torre da igreja de Santa Marinha, a qual data do início do século XX. À cota média são visíveis vários armazéns de vinho do Porto e a zona de encosta do lugar da Fervença. À cota alta, os morros do Choupelo (Pinhal de D. Leonor) e das Devesas, eram ainda lugares de floresta e quintas (da Boavista, da Fonte Santa, das Devesas, do Estado, etc.). Esta zona conheceu mudanças significativas, década e meia mais tarde, com a construção da linha de caminho-de-ferro que ligou Vila Nova de Gaia a Lisboa e que foi inaugurada, na sua totalidade, em 1864.
A chamada zona da Praia, hoje designada de Cais de Gaia, era uma zona de apoio ao cais de embarque, sendo ocupada pelas empresas de Vinho do Porto e pela construção naval. No local são visíveis “pilhas” de madeira e, no rio Douro, barcaças de transporte de vinho e madeiras e barcos valboeiros, com toldos de proteção, destinados ao transporte de passageiros. Curiosamente não parece visível, à cota média, o chamado Solar do Choupelo, provavelmente encoberto pelos armazéns.


1.4. Serra do Pilar
A vista que tem por título “Serra do Pilar” apresenta, em primeiro plano, a “Ponte D. Maria II”, mais conhecida por Ponte Pênsil. Na margem direita, a nascente, é visível o edifício do Seminário, hoje chamado Colégio dos Órfãos. Na margem esquerda a Ponte Pênsil assentava no sítio do Penedo, hoje miradouro e local que serviu de apoio à balança de pesagem de veículos. Desembocava no lugar então chamado de Guindais (Sul) e Senhor do Além, de onde partia a estrada para  Quebrantões. Por esta altura começou a ser construída a Estrada Real (depois Rua General Torres), que seguia para o Sul do País, passando pela Bandeira, Santo Ovídio, etc. A meia altura da encosta da escarpa havia já algumas construções. O acesso à Serra do Pilar, cujo mosteiro figura em lugar altaneiro, ainda com os estragos do período da guerra civil, era feito pela Calçada da Serra a qual ia entroncar com a Rua do Pilar. Não existia ainda o edifício que albergou o conhecido “Casino da Ponte” e armazéns contíguos, os quais são posteriores à construção da Ponte D. Luís que lhe forneceu os acessos. Também não existia a atual capela do Senhor do Além, cuja construção data de 1877.


1.5 Seminário
A vista com o título “Seminário” apresenta na margem direita do rio Douro o chamado Seminário, em estado ainda de aparente ruína e os mirantes da Quinta da China. Ao fundo vê-se o pano da muralha fernandina do Porto.
Na margem esquerda apresenta, à cota alta, o antigo aqueduto que, vindo do lugar do Agueiro, fornecia de água o mosteiro da Serra do Pilar e o alto do velho monte da Meijoeira, ou de S. Nicolau, onde mais tarde seria construído o Observatório Meteorológico.
À cota baixa temos o pequeno porto de Quebrantões Sul onde se parece divisar a Casa do Registo, que era um espécie de posto de alfândega, e o chamado Areinho de Oliveira do Douro. Neste são visíveis um pescador, um lavadeira com a trouxa da roupa á cabeça e um carro de bois e boieiro carregando uma pipa. No rio Douro são visíveis alguns barcos, um deles de vela içada.
 Curioso é o facto de não aparecer retratada a Quinta de S. Salvador, de traçado setecentista. Foi na encosta do Monte de S. Nicolau que, em 1877, foi inaugurada a Ponte D. Maria Pia. Várias indústrias, ligadas à produção de papel e uma fábrica de sulfureto, foram aqui fundadas após a ligação ferroviária. Esta fábrica de sulfureto, conhecida por “Fábrica do Pestana”, foi mais tarde vendida à CUF (Companhia União Fabril) e deixou de laborar já na fase final do século passado.
 Na margem direita foi mais tarde construída uma unidade da fábrica de Loiça de Massarelos, cujas chaminés ainda existem.
Na atualidade a paisagem contempla também a nova Ponte ferroviária de S. João, a Ponte do Infante, mais para poente, alguma urbanização na encosta de Quebrantões e, na margem esquerda, foi construída uma estrada marginal que ocupou terrenos da Quinta da China. O porto de Quebrantões é hoje um lugar de ancoragem de grandes barcos ligados ao turismo.
Refira-se que o lugar de Quebrantões foi desde a Antiguidade um lugar de passagem do Rio Douro e aí entroncava a estrada romana que, vinda de Santo Ovídio, passava ao castro de Mafamude.
Foi também aqui que, em 11 de Maio de 1809, o exército francês, liderado por Soult, passou o rio Douro em direção ao Porto.




1.6. Perspetiva do Seminário
A vista “Perspetiva do Seminário” apresenta-nos, na margem direita a Quinta da China, cuja casa não deixa ver o vizinho palácio do Freixo. Na margem esquerda dá-nos uma perspetiva da zona do Areinho, da Zona do Freixo e do cerro que se prolonga até à igreja de Santa Eulália de Oliveira do Douro. Em relação à terra gaiense esta é a vista menos conseguida realçando, tão-somente, o aspeto natural da paisagem. Neste lugar esteve prevista a construção da primeira ponte ferroviária sobre o Rio Douro tendo ainda sido construído o respetivo túnel na Serra do Pilar. Contudo este projeto foi abandonado e foi preferido, por ser mais curto e menos oneroso, o trajeto do Seminário que levou à construção da Ponte D. Maria Pia.
Modernamente, em 1995, foi aí inaugurada a ponte rodoviária do Freixo.


1.7. A Pedra Salgada
A vista sob o título “A Pedra Salgada” apresenta na margem esquerda do Douro o lugar da Pedra Salgada, da freguesia de Oliveira do Douro.  
Nesta vista pode ver-se a Quinta da Torre Bela, com os seus mirantes sobre o rio Douro, a qual parte com a Quinta da Pedra Salgada. Junto à quinta da Torre Bela está representada uma frondosa árvore, a qual se presume ser um freixo que marca, ainda hoje, a toponímia daquele local. Na atualidade esta paisagem da margem esquerda do rio Douro, à exceção da Ponte do Freixo, mantém praticamente os mesmos contornos.
Refira-se que neste local funcionou, no período do “Cerco do Porto”, uma bateria miguelista que tinha por missão bombardear o reduto liberal da Serra do Pilar, os redutos liberais a norte e os barcos liberais que pontualmente sulcavam o rio Douro, neste curto trajeto, junto à escarpa da Serra do Pilar, para abastecimento da fortaleza da Serra.


1.8. Arnelas
A vista designada por “Arnelas” diz respeito a esta povoação ribeirinha da ex-freguesia de Olival e da freguesia de Avintes. A povoação está representada em cascata, atenta a topografia do local e não difere muito da atualidade. À cota alta figura a capela de S. Mateus, o padroeiro do lugar. Abaixo segue-se a povoação propriamente dita, com o casario que acompanha as curvas de nível, servido por ruas em escada. A nascente está representada a casa dos Condes da Feira que foram os senhorios da terra. Na marginal figuram as casas que serviram de armazéns de vinhos da Companhia Velha. A poente está representada a chamada Arnelas de Avintes.
No passado as “duas povoações” eram separadas por um pequeno curso de água, hoje praticamente desaparecido, que definia as fronteiras entre as freguesias de Olival e a de Avintes.
Na parte pertencente à freguesia de Avintes está representada a Quinta do Cadeado (também conhecida como do Sebastião ou do Bento) com capela anexa, de invocação de Nossa Senhora do Bom Sucesso e algum outro casario. Na margem está representado um grande areal. No rio Douro figuram dois barcos rabelos, de vela içada, um descendo o rio, carregado de pipas, e outro subindo.


E assim termina a nossa “digressão” pelos lugares ribeirinhos que serviram de cenário às vistas que Cesário Augusto Pinto retratou há mais de século e meio.
É tempo agora de conhecer o perfil biográfico do artista, esse homem multifacetado que deixou o seu nome ligado a muitos dos projetos que marcaram  a construção do Portugal Contemporâneo, no período que passou à História sob a designação de Fontismo e/ou Regeneração, em que o País iniciou o seu processo de industrialização e de construção de vias de comunicação que lhe permitiram vencer o atraso que nos separava da maior parte dos Estados europeus.

Remissivas: Vistas de Gaia/Arnelas/Pedra Salgada/Cesário Augusto Pinto/Serra do Pilar/Sampaio

(Continua)

Vila Nova de Gaia, Março 2014