quinta-feira, 20 de março de 2014

A melhor coleção oitocentista de vistas de Gaia, da autoria de Cesário Augusto Pinto - Parte 2

2. Cesário Augusto Pinto – breve biografia

2.1. Cesário, por ele próprio
Numa carta escrita nas Caldas das Taipas, datada de 23.12.1867, quando dirigia os trabalhos de construção da estrada de Braga a Guimarães e endereçada ao Presidente da Mesa da Irmandade de S. Torcato, Cesário Pinto referiu, a propósito da sua pessoa:
 Eu sou pobre, mas nasci rico, e tive uma educação pouco vulgar, por isso julgo-me com sentimentos muito mais nobres do que aqueles que geralmente se me atribuem; os que me conhecem de há muito, têm-me feito essa justiça”.

2.2. Vida e obra
Cesário Augusto Pinto nasceu em Lisboa, na freguesia de Nossa Senhora dos Mártires, em 6 de Agosto de 1825. Seu pai, Manuel Pinto de Araújo Cardoso de Mendonça, era um fidalgo de antiga linhagem, pertencente à Casa de Vale dos Reis que, entretanto, ficara arruinado. Cedo rumou a Bruxelas onde frequentou o Instituto Gaggia-Vermehr e concluiu o seu curso em 1843.



                                        Cesário, aos 25 anos 
                                Desenho de Guilherme António Correia, 
                                      In“O Tripeiro”, V, XI, p. 167

 Face à insolvência do pai começou cedo a trabalhar, para prover o seu sustento, tendo regido algumas cadeiras, no Instituto onde se formou, de 1843 a 1845. Em 1846 regressou a Portugal onde desenvolveu o melhor da sua atividade artística na arte do desenho. Em 1849, no Porto, serviu como intérprete do rei de Piemonte, Carlos Alberto.
José Craveiro (op. cit. p. 167) recenseou, em 1955, na posse da cunhada de Cesário, de nome D. Estefânia Rodrigues, de Vizela, “uma pasta com cem desenhos, noventa e nove dos quais tratam temas monumentais e paisagísticos portugueses, não assinados, mas sem dúvida nenhuma devidos ao lápis de Cesário A. Pinto e datados de 1846, 1847 e 1848”.
No decorrer do movimento político e social da Regeneração e da política de obras públicas, preconizada pelo ministro Fontes Pereira de Melo, que visava resgatar Portugal do atraso económico e tecnológico, iniciou-se a construção de vias de comunicação e de transporte, não dispondo, porém, o país de técnicos qualificados para o efeito. Cesário Augusto Pinto projetou e dirigiu importantes trabalhos, neste período, que a seguir são elencados.
Em 1855 colaborou com o engenheiro Cousin nos estudos da linha do caminho-de-ferro de Lisboa a Sintra. Em 1856 trabalhou na construção da Vila Estefânia e na construção do caminho da madeira do Pinhal de Leiria.
Em 1860 projetou e dirigiu, ao serviço da Companhia de Viação Portuense, o troço de estrada do Porto a Braga que incluía a construção da ponte pênsil da Trofa. O facto é referido pelo próprio Cesário Pinto que em carta publicada na Revista de Obras Públicas e Minas, para além de assinalar que andou “dezanove anos consecutivos em obras públicas” diz que “o Sr. Lucotte deixou a estrada do Porto a Braga por concluir, desde a Volta da Peça Má até ao alto da Terra Negra, e foi a Companhia de Viação Portuense, ao serviço da qual eu me achava então, que construiu toda esta extensão de estrada”. (op. cit. p. 275)
 Findos estes trabalhos partiu para Angola onde desenvolveu alguns trabalhos de engenharia. Dessa estadia em África deixou-nos o respetivo relato no livro intitulado “Quarenta e cinco dias em Angola”, publicado no Porto em 1862.


Dirigiu os trabalhos de construção de diversas estradas, nomeadamente entre Braga e Guimarães, Fafe e Guimarães, de Gandarela (Celorico de Basto) à Ponte de Cavês (Cabeceiras de Basto) e de Ponte de Lima a Santa Cruz e ao Carregadouro.
Em 1870 serviu como agrimensor e engenheiro municipal na Câmara de Guimarães. Dirigiu também as obras do porto de Viana do castelo e de reparação do convento de S. Domingos daquela cidade.
Foi autor do projeto do edifício das termas de Vizela e administrador das respetivas obras, autoria que lhe valeu, em 1875, um prémio da Associação de Arquitetos Civis. Segundo refere Maria Manuela Cunha (op. cit. pp. 18-19) “No projeto que desenhou para Vizela, publicamente apresentado a 4 de Agosto de 1888, é percetível a influência das suas viagens e visitas a outros centros termais”. De facto, segundo a mesma autora, Cesário visitou estações termais em França, na Alemanha e na Bélgica, havendo similitudes entre as termas de Vizela e as de Luchon, de Le Mont-Dore e de Cauterets. Mais refere que o projeto de Cesário previa ainda a construção de uma casino “completando a trilogia dos espaços termais: ternas, casino e hotel”.
Durante alguns anos dirigiu as obras do santuário de S. Torcato, em Guimarães. Segundo Goulart & Azevedo (op. cit. p. 25) “A direção artística do Templo de S. Torcato, foi acompanhada, gratuita e desinteressadamente por Cesário Augusto Pinto. Desde Janeiro de 1866 até ao ano da sua morte em Julho de 1895”.
O primeiro contributo para o projeto deste santuário deu-o Cesário Pinto em Janeiro de 1866 ao elaborar um parecer sobre a igreja que estava a ser construída, sob risco do arquiteto Luís Inácio de Barros Lima. Aí Cesário teceu duras críticas às soluções propostas para o pórtico, as torres, a transição do cume da nave para o da capela-mor e a elevação posterior. Tal opinião levou à não aprovação deste projeto e à abertura, nesse ano de 1866, de um concurso público para o projeto de um novo santuário. Na sua qualidade de elemento do júri, como delegado da Irmandade de S. Torcato, Cesário acompanhou todo o processo do concurso com deslocações a Lisboa e Porto onde os projetos a concurso, em número de cinco, estiveram expostos. Recaiu a escolha no projeto de Luís Bohnstedt, um arquiteto residente em Gotha e nascido em S. Petersburgo.


                                 Santuário de S. Torcato – Guimarães 
                                     (imagem de António Conde, 2013)     


Segundo António Cardoso (op. cit. vol. II, pp. 555) “No entendimento de Cesário Pinto, o projecto vencedor não evitaria à Irmandade ‘despesas mal entendidas’ e não era sequer ‘um projecto correcto e de fácil execução”. Refere igualmente que Cesário Pinto “acompanha o projecto, sugerindo a Bohnstedt alterações, soluções de implantação, e dirigirá gratuitamente as obras do Santuário até à sua morte, em 1896”. A direção do projeto será depois confiada ao arquiteto José Marques da Silva, autor de outras obras em Guimarães nomeadamente o Santuário da Penha, a Sociedade Martins Sarmento e o Mercado Municipal.

Cesário Augusto Pinto faleceu em Guimarães, na sua casa sita à Rua de Camões, nº 96, com a idade de 70 anos, tendo sido sepultado no cemitério de S. João das Caldas de Vizela.


                                 Registo paroquial de óbito nº 34 
                 (freguesia de S. Sebastião, Guimarães, ano de 1896)
                     Fonte:  Arquivo Municipal Alfredo Pimenta – Guimarães

Havia casado menos de dois meses antes do seu passamento, em 24.05.1896, com D. Joaquina Amélia Pinto Rodrigues, de 31 anos de idade, natural da freguesia de S. Romão de Arões, concelho de Fafe. Foram testemunhas deste ato o arqueólogo vimaranense Francisco Martins Sarmento, velho amigo e companheiro nas visitas arqueológicas e o Dr. António Leite de Faria, médico, ambos de Guimarães, como consta no registo paroquial de casamento nº 8, da freguesia de S. Sebastião (Guimarães).
A freguesia de São Torcato, em homenagem ao homem que dirigiu de forma desinteressada as obras do Templo que é o seu ex-libris, resolveu atribuir o nome de Cesário Augusto Pinto a um arruamento central da freguesia.
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E aqui fizemos a apresentação desta coleção de vistas de Vila Nova de Gaia, bem assim damos a conhecer, em traços gerais, a biografia deste artista que tão bem soube retratar as paisagens ribeirinhas gaienses.

Remissivas: Vistas de Gaia/Arnelas/Pedra Salgada/Cesário Augusto Pinto/Serra do Pilar/Sampaio 

Bibliografia e fontes
. ALMEIDA, Luís Gomes Alves de - Notas Monográficas sobre a freguesia de Santa Eulália de Oliveira, Vila Nova de Gaia, Junta de Freguesia de Oliveira do Douro, 1985.
. ANDRADE; Monteiro – O Tripeiro, V Série, Ano XI, nº 5.
. Arquivo Municipal Alfredo Pimenta – Registos Paroquiais de casamento/freguesia de S. Sebastião/ano de 1896.
. Arquivo Municipal Alfredo Pimenta – Registos Paroquiais de óbito/freguesia de S. Sebastião/ano de 1896.
. COSTA, Barbosa da; VAZ, José; COSTA, Paulo – De Abientes a Avintes. Notas monográficas, Avintes, Audientis, 2009.
. CRAVEIRO, José – Cesário Augusto Pinto, O Tripeiro, V Série, Ano XI, nº 5, Setembro 1955, pp. 167-170.
. CUNHA, Maria Manuela Ferreira da – Caldas de Vizela, do passado à atualidade: uma proposta de reconversão; Coimbra, Universidade de Coimbra, 2012.
. O Tripeiro, V Série, Ano XI, nº 5 – capas dos fascículos nº 1, 2, 4, 6, 7, 8, 9, 11 e 12.
. Revista de Obras Públicas e Minas, 1871, pp- 274-275.
. VITERBO, Sousa (coorden.) – Dicionário Histórico e Documental dos Arquitetos, Engenheiros e Construtores Portugueses ou a serviço de Portugal, Vol. I – A-G, Lisboa, Imprensa Nacional, 1899.

Webgrafia:
. CARVALHO, António Cardoso Pinheiro de – O Arquiteto José Marques da Silva e a arquitetura no norte do País na primeira metade do séc. XX, 2 vols., Porto, Faculdade de Letras do Porto, 1992.  
. GOULART, Carlos Jorge Melo; MONTEIRO, José Miguel Saldanha – Estudo do Mosteiro de S. Torcato, análise das patologias e funcionamento estrutural, com vista ao seu restauro (Relatório de Projeto Individual), Braga, Universidade do Minho, 1998.
. Margens do Douro: A Pedra Salgada/C.A. Pinto, Porto, 1848 (gravura). Em


Vila Nova de Gaia, Março de 2014.