terça-feira, 8 de outubro de 2013

Questões da toponímia gaiense – a Rua Agostinho Albano (na Afurada), o seu patrono e a ligação à casa da Brévia dos frades da Serra do Pilar (parte II)

O Palacete de S. Paio em meados do século XIX – Canidelo

(imagem retirada de http://gisaweb.cm-porto.pt/units-of-description/documents/316098/)


Palacete de S. Paio e Marina do Douro (imagem de António Conde, 2013).

Palacete de S. Paio – pormenor (imagem de António Conde, 2013).

Palacete de S. Paio e Marina do Douro, ao final da tarde (imagem de António Conde, 2013).


2. O Palacete de S. Paio, em Canidelo e a sua relação com a família Silveira


2.1. As descrições do Palacete de S. Paio na literatura – de Silva Pinto a Camilo Castelo Branco
Silva Pinto, na obra “A queimar charutos”, faz uma bela descrição da visita ao seu amigo Agostinho Albano, morador no “castelo mourisco de S. Paio”. O relato refere o diálogo tido com as moçoilas da Afurada nos seguintes termos:

“ - Santas tardes, meu senhor!
Guarde-as Deus, cachopas! Viram para aí o sr. Agostinho?
- Ó Maria! Ó Rosa! Este senhor ‘precura’ o Sr. Agostinho!
Desatam-se num trinado todas. (…). Subitamente debanda a raparigada.
– Lá vem ele! Lá vem o sr. Morgado! Acolá vem o sr. Agostinho!”

Sobre o palacete o mesmo autor refere: “O castelo mourisco embarga-nos com as suas altas paredes enegrecidas a contemplação da cidade”.
Também Camilo Castelo Branco na sua obra “Cavar em ruínas” faz referências ao palacete de S. Paio recomendando a subida “aos adarves da casa meio gótica meio árabe do senhor conselheiro Silveira Pinto”.
Uma outra referência que merece destaque diz respeito a um portal manuelino que pertenceu ao convento franciscano da Conceição, em Matosinhos, e que foi comprada pelo conselheiro Silveira Pinto para o seu palacete de S. Paio, em Canidelo.
Atenda-se ao que diz Camilo: “A porta (…) está hoje na quinta do sr. Conselheiro Antero Albano, em São Paio além Douro, defronte de Sovereiras. Comprou-a por quatro moedas. Vá vossa excelência lá vê-la, se quiser; que o dono da quinta é urbano quanto se espera do mais estremado cortesão”.
Não se iluda porém o leitor, ciente de que vai encontrar, hoje, o dito portal manuelino, nos limites entre Canidelo e a Afurada. Camilo desta vez não estava a efabular; o dito portal esteve, de facto, durante cerca de nove décadas em S. Paio, mas, nos anos 50 do século XX, foi vendido pelas Irmãs Oblatas do Coração de Jesus (atuais detentoras da propriedade do palacete) o qual se pode hoje ver na Quinta da Conceição em Matosinhos (Cf. COSTA,2006, p. 304).

2.2. O Palacete de S. Paio na iconografia artística
O Palacete de S. Paio é tema de uma gravura, abaixo reproduzida, da autoria de Cesário Augusto Pinto. Faz parte do álbum “As Margens do Douro – Álbum das doze Vistas de 1849” e tem a designação de “Casa do Sr. Antero”. A gravura mostra esta casa, ainda com as duas guaritas, e rodeada de arvoredo; ao lado da casa, para poente, é representada a capela de S. Paio e algum casario disperso.

2.3. O Palacete de S. Paio – ontem e hoje
2.3.1 Origens
A história da Quinta de S. Paio, onde se integra o atual palacete, remonta à segunda metade do século XVI, quando os frades agostinhos da Serra do Pilar, senhores da dita quinta, aí construíram, em 1568, uma capela, sob a invocação de S. Paio, cuja imagem foi mandada fazer em Coimbra. Em 1627, aqueles frades compraram mais algumas terras destinadas à construção de uma casa de recreação, a qual viria a ser construída ainda durante o século XVII e era designada por Casa Brévia, sendo a casa de verão, ou de férias, dos frades da Serra do Pilar.
Mais tarde a quinta foi arrendada a particulares e em 1767 foi vendida a José Joaquim de Azevedo Ferreira.
De acordo com as Memórias Paroquiais de 1758 havia romagem à capela de S. Paio no dia 26 de Junho e, no domingo seguinte, fazia-se a festa. Na oitava do Espírito Santo festejava-se ali Nossa Senhora da Consolação. Quanto ao lugar de S. Paio é referido que é “lugar aprazível e delicioso pelo Verão onde vem muita gente fazer suas merendas”.
Em 8 de Agosto de 1840 (Costa, 2006, p. 303) foi lavrado o auto de posse da capela e terrenos anexos pertencentes à Brévia, a favor de D. Maria Amália Ermelinda da Silva e Sousa que, de acordo com o registo paroquial de casamento de Antero Albano da Silveira Pinto e D. Francisca de Paula da Silva e Sousa, datado de 09.05.1838, é a sogra de Antero Albano.
As obras de construção do atual palacete devem ter começado pouco depois, já que, perto do final da década, a gravura de Cesário Augusto Pinto mostra a configuração atual da casa, com exceção da guarita situada a poente.
Na comunicação apresentada no congresso “O Porto Romântico”, intitulada “A Família Silveira Pinto e o Palacete de S. Paio”, por Francisco Queirós e João Miranda Lemos, os autores defendem que o “palacete medievalista de S. Paio (…) é uma das realizações mais precoces e mais bem conseguidas do Romantismo em Portugal, ao nível da arquitetura, da implantação paisagística e dos pressupostos teóricos (…). É um dos primeiros edifícios do Porto em que comprovadamente se usou ferro fundido decorativo”.

2.3.2 O palacete na atualidade
De acordo com a descrição do SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitetónico) do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, a designada Casa de Santa Isabel/Brévia dos Frades da Serra do Pilar tem o registo IPA.00005359 (ex-PT011317040021) e trata-se de um monumento de “Arquitetura civil privada, neogótica. Casa romântica na vertente neogótica, de planta em U e três pisos, rematada por merlões. Fenestração de remate em arco quebrado e pequenos óculos à semelhança de rosáceas”.
Sumariamente, e seguindo a referida descrição, a fachada principal, orientada a norte, apresenta três corpos, sendo os laterais dois torreões em cujo entablamento se apoiam merlões. Nos pisos superiores dos torreões podemos ver duas janelas de sacada, com arco quebrado e caixilharias com pequenos vidros. Estas são encimadas por óculos com caixilharias idênticas. O piso intermédio do corpo central apresenta “tem encaixado uma loggia definida por cinco arcos quebrados, o central maior, apoiados em finas colunas sobre plintos e com uma grade de ferro pintada”.

2.3.3 O palacete e a sua utilização atual
Sob as designações de Quinta de S. Paio, Quinta do Antero e Quinta dos Cubos relativamente ao conjunto e de Brévia, Casa do Sr. Antero, Palacete de S. Paio e Casa de Santa Isabel, ou mais popularmente Convento das Freirinhas, relativamente à casa, este belo conjunto chegou à atualidade mantendo uma função de residência e estabelecimento assistencial de apoio à infância.
Assim o conjunto depois de passar por várias famílias, depois de ter sido propriedade dos Silveiras Pinto, foi adquirido nas décadas de 30 e 40 do século XX, pelas Oblatas do Sagrado Coração de Jesus.
Na década de 50 decorreram obras de adaptação do 1º piso e nesse contexto terá sido apeada guarita situada a poente e o portal renascentista que hoje está na Quinta da Conceição. Decorreram obras de substituição da cobertura em 1990 e de construção de instalações sanitárias em 1995. Presentemente também a capela de S. Paio se encontra em obras.
Para além de residência das Oblatas do Sagrado Coração de Jesus o palacete alberga um jardim-de-infância.
Ao presente, com a recente construção da Marina do Douro, junto à margem do Douro, a norte do palacete de S. Paio, a implantação e enquadramento dos edifícios construídos tiveram em linha de conta o referido palacete e foi encontrada uma solução que, quanto a nós, resultou numa mais-valia sob o ponto de vista arquitetónico e paisagístico.

E desta forma, tomando por base um elemento da toponímia afuradense pouco conhecido, aqui evocamos e fizemos luz sobre a figura de Agostinho Albano e de outros elementos da família Silveira Pinto que foram homens notáveis do Porto Oitocentista e que serviram também o concelho gaiense. Paralelamente mostrámos a ligação desta família ao palacete e ao lugar de S. Paio que, embora situado administrativamente já na freguesia de Canidelo, tem uma ligação afetiva mais forte com a vizinha Afurada.


Bibliografia:
. Arquivo Distrital do Porto – Registos Paroquiais/batismo, Porto/ Vitória, 16.03.1819

. Arquivo Distrital do Porto - Registos Paroquiais/batismo, Porto/Vitória, 31.07.1839
. Arquivo Distrital do Porto – Registos Paroquiais/casamento, Porto/Vitória,  09.05.1838
. BRANCO, Camilo Castelo – Cavar em Ruínas, Lisboa, Livrarias de Campos Júnior Editor, 2ª edição, 1866.
. BRUNO, Sampaio – Portuenses Ilustres, Porto, Magalhães & Moniz, 1907.
. COSTA, Francisco Barbosa da – Santo André de Canidelo. Notas monográficas, Vila Nova de Gaia, Junta de Freguesia de Canidelo, 2006.
. COSTA, Francisco Barbosa da – Memórias Paroquiais. Vila Nova de Gaia 1758, Vila Nova de Gaia, Gabinete de História e Arqueologia, 1983.
. COSTA, Joaquim – Aspetos da História Literária do Porto, Nova Monografia do Porto, Porto, Companhia Portuguesa Editora, pp. 197-292.
. JORGE, Ana Maria C.M. – Os participantes do I Congresso católico Português (1871-1872) in Lusitana Sacra, 2ª série, 12 (2000), pp. 377-411.
. MARTINS, Rocha – A Paixão de Camilo (Ana Plácido), Lisboa, Oficinas Gráficas do ABC.
. PEREIRA, Firmino – O Porto D’outros Tempos. Notas Históricas. Memórias. Recordações, Porto, Livraria Chardron, de Lelo & Irmão, 1914.
. PINTO, Silva – A Queimar Cartuchos, Lisboa, Livraria de António Maria Pereira Editor, 1896.
. SILVA, Francisco Ribeiro da – Jornais e Revistas do Porto no tempo de Camilo,  Bibliotheca Portucalenses, II Série, nº 5, Porto, 1990, pp. 49-71.
. SILVA, Inocêncio F. da – Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1973, Tomo I e VIII.

Webgrafia:
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. http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4401.pdf – visualizado em 01.10.2013 - VIEIRA, Célia Sousa – A superação do modelo narrativo zoliano: lugares de intersecção e estratégias paródicas.
. http://www.prof2000.pt/users/avcultur/calendaveiro/01jan_17.htm - visualizado em 29.07.2013
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.http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5359 visualizado em 03.10.2013.

Remissivas: Toponímia gaiense/Afurada/Gaienses ilustres/ Agostinho Albano da Silveira Pinto/Brévia dos Frades da Serra do Pilar/Casa de Santa Isabel/Canidelo/ Lugar de S. Paio.

Sala de Fundo Local e Regional Dr. Armando de Matos, Setembro de 2013.

Ficha Técnica:
Coordenação do blogue – Cristina Margaride
Criação do formato e edição do blogue – Isabel Santos
Investigação e autoria do estudo - António Conde
Fotografia – António Conde