terça-feira, 8 de outubro de 2013

Questões da toponímia gaiense – a Rua Agostinho Albano (na Afurada), o seu patrono e a ligação à casa da Brévia dos frades da Serra do Pilar (parte II)

O Palacete de S. Paio em meados do século XIX – Canidelo

(imagem retirada de http://gisaweb.cm-porto.pt/units-of-description/documents/316098/)


Palacete de S. Paio e Marina do Douro (imagem de António Conde, 2013).

Palacete de S. Paio – pormenor (imagem de António Conde, 2013).

Palacete de S. Paio e Marina do Douro, ao final da tarde (imagem de António Conde, 2013).


2. O Palacete de S. Paio, em Canidelo e a sua relação com a família Silveira


2.1. As descrições do Palacete de S. Paio na literatura – de Silva Pinto a Camilo Castelo Branco
Silva Pinto, na obra “A queimar charutos”, faz uma bela descrição da visita ao seu amigo Agostinho Albano, morador no “castelo mourisco de S. Paio”. O relato refere o diálogo tido com as moçoilas da Afurada nos seguintes termos:

“ - Santas tardes, meu senhor!
Guarde-as Deus, cachopas! Viram para aí o sr. Agostinho?
- Ó Maria! Ó Rosa! Este senhor ‘precura’ o Sr. Agostinho!
Desatam-se num trinado todas. (…). Subitamente debanda a raparigada.
– Lá vem ele! Lá vem o sr. Morgado! Acolá vem o sr. Agostinho!”

Sobre o palacete o mesmo autor refere: “O castelo mourisco embarga-nos com as suas altas paredes enegrecidas a contemplação da cidade”.
Também Camilo Castelo Branco na sua obra “Cavar em ruínas” faz referências ao palacete de S. Paio recomendando a subida “aos adarves da casa meio gótica meio árabe do senhor conselheiro Silveira Pinto”.
Uma outra referência que merece destaque diz respeito a um portal manuelino que pertenceu ao convento franciscano da Conceição, em Matosinhos, e que foi comprada pelo conselheiro Silveira Pinto para o seu palacete de S. Paio, em Canidelo.
Atenda-se ao que diz Camilo: “A porta (…) está hoje na quinta do sr. Conselheiro Antero Albano, em São Paio além Douro, defronte de Sovereiras. Comprou-a por quatro moedas. Vá vossa excelência lá vê-la, se quiser; que o dono da quinta é urbano quanto se espera do mais estremado cortesão”.
Não se iluda porém o leitor, ciente de que vai encontrar, hoje, o dito portal manuelino, nos limites entre Canidelo e a Afurada. Camilo desta vez não estava a efabular; o dito portal esteve, de facto, durante cerca de nove décadas em S. Paio, mas, nos anos 50 do século XX, foi vendido pelas Irmãs Oblatas do Coração de Jesus (atuais detentoras da propriedade do palacete) o qual se pode hoje ver na Quinta da Conceição em Matosinhos (Cf. COSTA,2006, p. 304).

2.2. O Palacete de S. Paio na iconografia artística
O Palacete de S. Paio é tema de uma gravura, abaixo reproduzida, da autoria de Cesário Augusto Pinto. Faz parte do álbum “As Margens do Douro – Álbum das doze Vistas de 1849” e tem a designação de “Casa do Sr. Antero”. A gravura mostra esta casa, ainda com as duas guaritas, e rodeada de arvoredo; ao lado da casa, para poente, é representada a capela de S. Paio e algum casario disperso.

2.3. O Palacete de S. Paio – ontem e hoje
2.3.1 Origens
A história da Quinta de S. Paio, onde se integra o atual palacete, remonta à segunda metade do século XVI, quando os frades agostinhos da Serra do Pilar, senhores da dita quinta, aí construíram, em 1568, uma capela, sob a invocação de S. Paio, cuja imagem foi mandada fazer em Coimbra. Em 1627, aqueles frades compraram mais algumas terras destinadas à construção de uma casa de recreação, a qual viria a ser construída ainda durante o século XVII e era designada por Casa Brévia, sendo a casa de verão, ou de férias, dos frades da Serra do Pilar.
Mais tarde a quinta foi arrendada a particulares e em 1767 foi vendida a José Joaquim de Azevedo Ferreira.
De acordo com as Memórias Paroquiais de 1758 havia romagem à capela de S. Paio no dia 26 de Junho e, no domingo seguinte, fazia-se a festa. Na oitava do Espírito Santo festejava-se ali Nossa Senhora da Consolação. Quanto ao lugar de S. Paio é referido que é “lugar aprazível e delicioso pelo Verão onde vem muita gente fazer suas merendas”.
Em 8 de Agosto de 1840 (Costa, 2006, p. 303) foi lavrado o auto de posse da capela e terrenos anexos pertencentes à Brévia, a favor de D. Maria Amália Ermelinda da Silva e Sousa que, de acordo com o registo paroquial de casamento de Antero Albano da Silveira Pinto e D. Francisca de Paula da Silva e Sousa, datado de 09.05.1838, é a sogra de Antero Albano.
As obras de construção do atual palacete devem ter começado pouco depois, já que, perto do final da década, a gravura de Cesário Augusto Pinto mostra a configuração atual da casa, com exceção da guarita situada a poente.
Na comunicação apresentada no congresso “O Porto Romântico”, intitulada “A Família Silveira Pinto e o Palacete de S. Paio”, por Francisco Queirós e João Miranda Lemos, os autores defendem que o “palacete medievalista de S. Paio (…) é uma das realizações mais precoces e mais bem conseguidas do Romantismo em Portugal, ao nível da arquitetura, da implantação paisagística e dos pressupostos teóricos (…). É um dos primeiros edifícios do Porto em que comprovadamente se usou ferro fundido decorativo”.

2.3.2 O palacete na atualidade
De acordo com a descrição do SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitetónico) do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, a designada Casa de Santa Isabel/Brévia dos Frades da Serra do Pilar tem o registo IPA.00005359 (ex-PT011317040021) e trata-se de um monumento de “Arquitetura civil privada, neogótica. Casa romântica na vertente neogótica, de planta em U e três pisos, rematada por merlões. Fenestração de remate em arco quebrado e pequenos óculos à semelhança de rosáceas”.
Sumariamente, e seguindo a referida descrição, a fachada principal, orientada a norte, apresenta três corpos, sendo os laterais dois torreões em cujo entablamento se apoiam merlões. Nos pisos superiores dos torreões podemos ver duas janelas de sacada, com arco quebrado e caixilharias com pequenos vidros. Estas são encimadas por óculos com caixilharias idênticas. O piso intermédio do corpo central apresenta “tem encaixado uma loggia definida por cinco arcos quebrados, o central maior, apoiados em finas colunas sobre plintos e com uma grade de ferro pintada”.

2.3.3 O palacete e a sua utilização atual
Sob as designações de Quinta de S. Paio, Quinta do Antero e Quinta dos Cubos relativamente ao conjunto e de Brévia, Casa do Sr. Antero, Palacete de S. Paio e Casa de Santa Isabel, ou mais popularmente Convento das Freirinhas, relativamente à casa, este belo conjunto chegou à atualidade mantendo uma função de residência e estabelecimento assistencial de apoio à infância.
Assim o conjunto depois de passar por várias famílias, depois de ter sido propriedade dos Silveiras Pinto, foi adquirido nas décadas de 30 e 40 do século XX, pelas Oblatas do Sagrado Coração de Jesus.
Na década de 50 decorreram obras de adaptação do 1º piso e nesse contexto terá sido apeada guarita situada a poente e o portal renascentista que hoje está na Quinta da Conceição. Decorreram obras de substituição da cobertura em 1990 e de construção de instalações sanitárias em 1995. Presentemente também a capela de S. Paio se encontra em obras.
Para além de residência das Oblatas do Sagrado Coração de Jesus o palacete alberga um jardim-de-infância.
Ao presente, com a recente construção da Marina do Douro, junto à margem do Douro, a norte do palacete de S. Paio, a implantação e enquadramento dos edifícios construídos tiveram em linha de conta o referido palacete e foi encontrada uma solução que, quanto a nós, resultou numa mais-valia sob o ponto de vista arquitetónico e paisagístico.

E desta forma, tomando por base um elemento da toponímia afuradense pouco conhecido, aqui evocamos e fizemos luz sobre a figura de Agostinho Albano e de outros elementos da família Silveira Pinto que foram homens notáveis do Porto Oitocentista e que serviram também o concelho gaiense. Paralelamente mostrámos a ligação desta família ao palacete e ao lugar de S. Paio que, embora situado administrativamente já na freguesia de Canidelo, tem uma ligação afetiva mais forte com a vizinha Afurada.


Bibliografia:
. Arquivo Distrital do Porto – Registos Paroquiais/batismo, Porto/ Vitória, 16.03.1819

. Arquivo Distrital do Porto - Registos Paroquiais/batismo, Porto/Vitória, 31.07.1839
. Arquivo Distrital do Porto – Registos Paroquiais/casamento, Porto/Vitória,  09.05.1838
. BRANCO, Camilo Castelo – Cavar em Ruínas, Lisboa, Livrarias de Campos Júnior Editor, 2ª edição, 1866.
. BRUNO, Sampaio – Portuenses Ilustres, Porto, Magalhães & Moniz, 1907.
. COSTA, Francisco Barbosa da – Santo André de Canidelo. Notas monográficas, Vila Nova de Gaia, Junta de Freguesia de Canidelo, 2006.
. COSTA, Francisco Barbosa da – Memórias Paroquiais. Vila Nova de Gaia 1758, Vila Nova de Gaia, Gabinete de História e Arqueologia, 1983.
. COSTA, Joaquim – Aspetos da História Literária do Porto, Nova Monografia do Porto, Porto, Companhia Portuguesa Editora, pp. 197-292.
. JORGE, Ana Maria C.M. – Os participantes do I Congresso católico Português (1871-1872) in Lusitana Sacra, 2ª série, 12 (2000), pp. 377-411.
. MARTINS, Rocha – A Paixão de Camilo (Ana Plácido), Lisboa, Oficinas Gráficas do ABC.
. PEREIRA, Firmino – O Porto D’outros Tempos. Notas Históricas. Memórias. Recordações, Porto, Livraria Chardron, de Lelo & Irmão, 1914.
. PINTO, Silva – A Queimar Cartuchos, Lisboa, Livraria de António Maria Pereira Editor, 1896.
. SILVA, Francisco Ribeiro da – Jornais e Revistas do Porto no tempo de Camilo,  Bibliotheca Portucalenses, II Série, nº 5, Porto, 1990, pp. 49-71.
. SILVA, Inocêncio F. da – Dicionário Bibliográfico Português, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1973, Tomo I e VIII.

Webgrafia:
. http://arquivo.cm-gaia.pt/creators/11820/ - visualizado em 29.07.2013.
. http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4401.pdf – visualizado em 01.10.2013 - VIEIRA, Célia Sousa – A superação do modelo narrativo zoliano: lugares de intersecção e estratégias paródicas.
. http://www.prof2000.pt/users/avcultur/calendaveiro/01jan_17.htm - visualizado em 29.07.2013
.http://www2.fcsh.unl.pt/ceh/pdf/ferramentas/instrumentos_listagens_fundos/bibliografia_documentacao.pdf - visualizado em 15.09.2013.
. http://www.prof2000.pt/users/avcultur/calendaveiro/01jan_17.htm visualizado em 18.09.2013.
.http://www.gov-civil-viana.pt/index.php?option=com_content&task =view&id=9&Itemid=13 visualizado em 21.09.2013.
.http://gisaweb.cm-porto.pt/units-of-description/documents/316098/ - visualizado em 25.09.2013.
.http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5359 visualizado em 03.10.2013.

Remissivas: Toponímia gaiense/Afurada/Gaienses ilustres/ Agostinho Albano da Silveira Pinto/Brévia dos Frades da Serra do Pilar/Casa de Santa Isabel/Canidelo/ Lugar de S. Paio.

Sala de Fundo Local e Regional Dr. Armando de Matos, Setembro de 2013.

Ficha Técnica:
Coordenação do blogue – Cristina Margaride
Criação do formato e edição do blogue – Isabel Santos
Investigação e autoria do estudo - António Conde
Fotografia – António Conde



Questões da toponímia gaiense – a Rua Agostinho Albano (na Afurada), o seu patrono e a ligação à casa da Brévia dos frades da Serra do Pilar (parte I)

Placa toponímica – Rua de Agostinho Albano – Afurada (imagem de António Conde, 2013)


Mapa com localização da Rua Agostinho Albano (fonte: Google Earth, adaptado)




Conselheiro Agostinho Albano da Silveira Pinto (fonte: BNP)

Dr. Albano Antero da Silveira Pinto, dono do

palacete de S. Paio (fonte: BNP)


Assento de batismo de Agostinho Albano, neto
(Fonte: ADP/registos Paroquiais/baptismo/freguesia de Vitória, ano de 1839)

Assinatura de Agostinho Albano, avô (retirada de uma das suas obras)

Rua Agostinho Albano, junto ao Centro Cívico (imagem de António Conde, 2013)
Data: Sécs. XIX/XX
Sinopse: A rua de Agostinho Albano localiza-se no núcleo piscatório da Afurada. Tem início na marginal rua da Praia e termina no renovado Largo do Padre Joaquim de Araújo, a praça pública onde se situam, entre outros, os edifícios da Junta de Freguesia, a escola, a biblioteca, o futuro mercado e o busto de homenagem ao Padre Joaquim de Araújo.
Esta rua é paralela às ruas 27 de Fevereiro (que evoca a tragédia de 1897 que enlutou as gentes da Afurada e outras comunidades de pescadores da região do Porto) e à Rua de Vasco da Gama (o grande descobridor português). A exemplo das ruas circundantes a Rua de Agostinho Albano assume uma função essencialmente residencial, com casas na sua maioria de R/C e andar, sendo muitas delas cobertas de azulejos nas suas fachadas.
Numa comunidade virada para as artes do mar e, por isso mesmo, profundamente religiosa, são comuns na maioria das fachadas os painéis de azulejos com santos protetores, havendo, entre os mais antigos, alguns exemplares das fábricas gaienses do Cavaco e do Carvalhinho com reconhecido valor artístico.
É sabido que a toponímia afuradense acolheu antigos microtopóminos e designações de pessoas ou factos que têm a ver com a história daquela comunidade ou das lides marítimas.
Por nos parecer que o nome deste patrono nada ter a ver com as gentes da Afurada, e ser praticamente desconhecido das gentes locais com quem conversámos, resolvemos aprofundar a investigação sobre a figura de Agostinho Albano e tentar encontrar um elo de ligação da sua pessoa com a freguesia da Afurada, o que, efetivamente, se concretizou.
É o resultado desta investigação que aqui queremos partilhar dando a conhecer os traços biográficos desta personalidade do mundo da comunicação social e da literatura novecentistas, bem assim o percurso dos seus ascendentes, também eles nomes grados da política nacional e local, das artes militares, das ciências e das letras.
Outrossim dá-se a conhecer a ligação desta família Silveira Pinto à casa que foi durante séculos a chamada Brévia dos frades do convento de Santo Agostinho da Serra da Pilar, tão bem retratada pela pena do conhecido desenhador Cesário Augusto Pinto, ou pela pena dos escritores Camilo Castelo Branco ou Silva Pinto, sendo estes amigos pessoais de Agostinho Albano.

1. AGOSTINHO ALBANO – VIDA E OBRA
Agostinho Albano da Silveira Pinto, de seu nome completo, era filho primogénito do Dr. Antero Albano da Silveira Pinto e de D. Francisca de Paula da Silva e Sousa, moradores na Rua das Taipas, da cidade do Porto. Nasceu no dia 30.07.1839 e foi batizado em 10.08.1839 na igreja de S. Bento da Vitória. Eram seus avós paternos o Conselheiro Agostinho Albano da Silveira Pinto e D. Maria da Piedade Albano (da Rua do Almada) e maternos João José Teixeira de Sousa e D. Maria Albana da Silva e Sousa (da Travessa do Almada).

1. 1 Antecedentes familiares
Era oriundo de uma família de renome no Porto de Oitocentos, onde se destacaram os seguintes elementos:

1.1.a) Conselheiro Agostinho Albano da Silveira Pinto (1785-1862).
Seu avô paterno e homónimo Agostinho Albano da Silveira Pinto, nasceu no Porto em 1785. Era filho do Dr. José Xavier da Silveira Pinto e de D. Maria Perpétua, sendo o pai bacharel em Medicina.
Foi bacharel em Filosofia, na Universidade de Coimbra (em 1804), licenciado e doutor em Filosofia em 1805 e 1806, bacharel em Medicina em 1813 e formatura no mesmo curso, na Universidade de Coimbra, em 1814.
Durante as invasões francesas foi ajudante do Batalhão Académico. Mais tarde, no período do Cerco do Porto, que opôs liberais e absolutistas, esteve na frente de batalha, nomeadamente como médico quando deflagrou no Porto, em plena guerra civil, a epidemia de cólera morbus.
Estabeleceu-se no Porto onde exerceu clínica médica, foi lente de francês na Academia de Marinha e Comércio do Porto e diretor da Escola Médico-Cirúrgica. Foi ainda deputado às Cortes, membro do Tribunal do Tesouro Público, vice-presidente do Tribunal de Contas, secretário e ministro de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar. Em 1845 foi agraciado pela rainha D. Maria II com a comenda da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa; pertenceu também ao “Conselho de Sua Majestade Fidelíssima a rainha D. Maria II” e foi comendador da Ordem de Cristo. Foi sócio efetivo da Associação Marítima e Colonial de Lisboa, onde foi subsecretário, e pertenceu a outras agremiações culturais de âmbito nacional e internacional. Foi ainda membro da Maçonaria.
Foi um intelectual multifacetado tendo publicado diversos estudos em áreas tão diversas como a farmacopeia, a economia, a política, a linguística, etc. Foi um defensor da região duriense e da causa do Vinho do Porto tendo feito, em 1841, na Câmara dos Deputados, um discurso intitulado “Questão dos Vinhos do Alto Douro”, o qual se encontra publicado.
Entre outros títulos que publicou, destacam-se:
  • . Código Farmacêutico Lusitano, ou Tratado de Farmacopeia;
  • . Farmacografia do Código Farmacêutico Lusitano;
  • . Dívida pública portuguesa: sua história, progresso e estado atual (coordenador);
  • . Elementos de gramática francesa;
  • . Discursos do senhor deputado Agostinho Albano da Silveira Pinto sobre o contrato para a conversão da dívida estrangeira, celebrado pelo Governo com a Sociedade Folgosa.
  • Exame crítico das causas próximas da atual situação financeira;
  • Revista de farmácia e ciências acessórias do Porto;
  • . A crise financeira de 1841;
  • . Noções sobre a cólera-morbus indiana extraídas principalmente da obra do James
  • Kennedy e de outros;
  • . Ode ao corpo militar de lentes e doutores voluntários;
  • . Discurso relativo à memória do sócio honorário o Conselheiro de Estado, e ex-
  • Ministro da Guerra, e do Reino, Agostinho José Freire.
Deixou ainda manuscrita uma obra em dois volumes intitulada “História Financeira de Portugal desde o tempo do Conde D. Henrique até o nosso”.
O Conselheiro Agostinho Albano da Silveira Pinto faleceu em Águas Santas (Maia) em 18.10.1852.

1.1.b) Doutor Antero Albano da Silveira Pinto
Era filho do anterior e de D. Maria da Piedade e nasceu na Rua do Almada, na cidade do Porto, aos 17.03.1819. Em 09.05.1838, casou na igreja de S. Bento da Vitória (Porto) com D. Francisca de Paula da Silva e Sousa, filha legítima de João José Teixeira de Sousa e de D. Maria Amália Ermelinda da Silva e Sousa, da cidade do Porto.
Foi uma personagem multifacetada tendo desempenhado os seguintes cargos:
  • . Chefe de Repartição da Secretaria do Ministério das Obras Públicas;
  • . Perito Paleógrafo habilitado pela Academia Politécnica do Porto;
  • . Fundador e primeiro redator do “Jornal do Comércio” e do “Florilégio Católico”;
  • . Editor e proprietário de obras e compêndios escolares para o ensino primário e secundário.
  • . Condecorado com o foro de Moço Fidalgo;
  • . Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, na 16ª Comissão Administrativa Municipal, que funcionou de 9 de Novembro de 1847 a 31 de Dezembro de 1849, e na 17ª Câmara eleita para o biénio de 1850-51 e que funcionou de 2 de Janeiro de 1850 a 24 de Agosto de 1851.
  • . Foi governador civil do distrito de Aveiro de 1851 a 1857 e nessa qualidade foi responsável pela criação do Liceu de Aveiro e construção de um edifício de raiz para o mesmo, pela elaboração do “Regulamento para a Administração dos Expostos do Distrito de Aveiro” e pela remoção dos entulhos e a trasladação das ossadas da igreja do Espírito Santo (há muito demolido). Em 1855 envolveu-se em polémicas com o jornal “O Campeão do Vouga existindo na Biblioteca Nacional uma publicação que aborda esta questão, sob o título “Transumpto fiel do estado das querellas intentadas pelo Governador Civil do districto d'Aveiro Anthero Albano da Silveira Pinto contra o jornal O Campeão do Vouga”, editada em Aveiro em 1855.
  • . Foi ainda governador civil do distrito de Viana do Castelo, por escasso tempo, em 1851.
  • Publicou, entre outras, as seguintes obras:
  1. . Documentos Inéditos pertencentes à História da Marinha Portuguesa e de suas descobertas e conquistas no ultramar (1844);
  2. . Memórias da Ásia ou Apontamentos para a História dos descobrimentos, navegações e feitos dos portugueses (1844);
  3. . Resenha das famílias titulares e grandes de Portugal (1877);
  4. . Tratado sobre a precedência do reino de Portugal ao reino de Nápoles, composto por Frei Bernardo de Braga; copiado de um manuscrito autêntico existente na Torre do Tombo por Albano Antero da Silveira Pinto (1843).
Como ficou referido o Doutor Antero Albano da Silveira Pinto teve uma ligação profunda ao concelho de Vila Nova de Gaia, já que foi presidente do município gaiense em dois mandatos. Para além deste facto registe-se a sua ligação como proprietário e residente num palacete ainda existente, nos limites das freguesias de Afurada e Canidelo, mas pertencente a esta última. Este facto será analisado, com mais pormenor, mais adiante.
De Antero Albano da Silveira Pinto sabemos ainda ter-lhe sido concedida, em 1861, a concessão provisória de uma mina de chumbo, sita na Várzea de Trevões, no concelho de S. João da Pesqueira.

1.2.Agostinho Albano e a sua obra
Segundo Joaquim Costa, Agostinho Albano seguiu a tradição intelectual da família e essa tradição “aliada a uma dedicada vocação, lançou-o na carreira literária, evidenciando-se sobretudo como jornalista brilhante e duma rara vivacidade”.
Com efeito foi nas áreas do jornalismo e da literatura que Agostinho Albano se notabilizou e foi nessas áreas que conviveu com homens ilustres do Porto do seu tempo, entre escritores, poetas, jornalistas ou políticos.

1.2.1 Agostinho Albano boémio
É conhecido o seu ar boémio e Alberto Pimentel, na obra “O Porto de Outros Tempos” refere-o como frequentador da taberna típica do João do Buraco, localizada na então Feira do Pão (hoje Praça Guilherme Gomes Fernandes) “onde se saboreavam magníficos petiscos e se bebia a excelente pinga do Douro, Amarante e Basto” e onde se comia a famoso bacalhau assado e o caldo verde. Pimentel diz que ali paravam os maiores intelectuais portuenses da época.

1.2.2 Agostinho Albano, amigo de Camilo Castelo Branco
São conhecidas as relações de amizade entre Camilo Castelo Branco e Agostinho Albano não faltando na obra de Camilo referências quer ao Agostinho Albano (neto), quer ao Agostinho Albano (avô) e referências aos seus estudos farmacológicos. No que se refere ao neto, Camilo dedica-lhe ou refere-o em lugar de destaque em algumas obras (por exemplo em “Óbulo às crianças”). Na obra “Cavar em ruínas” faz referência ao palacete de S. Paio, em Canidelo, que era propriedade de Antero Albano, pai de Agostinho Albano.
Rocha Martins, na obra “A Paixão de Camilo (Ana Plácido)”, ao descrever a fase do processo judicial que opunha o “brasileiro” Pinheiro Alves a Camilo e Ana Plácido, presos na Cadeia da Relação do Porto, faz referência a algumas testemunhas de defesa dizendo que “pelo abono do réu aparecia o neto duma celebridade como o avô chamado Agostinho Albano da Silveira Pinto. Era escritor e jornalista e defendia com amor o seu amigo”.

1.2.3. Agostinho Albano jornalista
Segundo Joaquim Costa, Agostinho Albano foi colaborar em vários jornais, nomeadamente “O Nacional”, a “Gazeta dos Teatros”, o “Jornal do Porto”, o “Jornal do Norte”.
Contudo foi no jornal o “Diário da Tarde”, de efémera vida, que Agostinho Albano mais se celebrizou pelas lutas aí travadas com conhecidas personalidades do meio católico portuense da época.
Silva Pinto, ao referir-se ao amigo e camarada de trabalho, na obra “A Queimar Cartuchos”, julga-o insubstituível no lugar vazio que deixou e louva a força da sua ironia, dizendo: “Nunca foi um polemista, por horror às personalidades. (…) A sua original pena insubstituível não se convertia em sabre, nem em bandarilha de fogo (…) Só uma vez o vi em plena cólera: quando se sentiu agravado em seus brios de jornalista, pela paixão violenta de antigos companheiros convertidos em inimigos. Desagravou-se nobremente e saiu do jornalismo diário. Saiu para sempre”.

1.2.3.1 Agostinho Albano e o Diário da Tarde
Foi no seguimento das “Conferências do Casino” e do seu ideal anti clericalista que se fortificou o catolicismo conservador na cidade do Porto, em volta da organização do primeiro Congresso Católico, entre os finais de 1871 e início de 1872 e sob a direção de fervorosos católicos como o Conde de Samodães e Roberto Woodhouse. A Associação Católica que daí nasceu criou o jornal “A Palavra” destinado a fortalecer a fé dos seus membros, repudiar calúnias e desmascarar outras doutrinas. No primeiro número de “A Palavra”, de 1 de Agosto de 1872, o Conde de Samodães, que Carlos Bastos apelida de “campeão do catolicismo e do conservantismo”, apontava as baterias para o “Diário da Tarde”, dirigido por Agostinho Albano, considerando este diário um “jornal ímpio e altamente irreligioso” e considerando que os seus redatores não queriam informar nem esclarecer mas simplesmente “ganharem torpemente dinheiro, caluniando, mentindo, fazendo insinuações malévolas, procurando manchar, sem provar, as reputações de caracteres respeitabilíssimos”. A resposta foi-lhe dada por Agostinho Albano no “Diário da Tarde”.
Agostinho Albano, bem como Urbano Loureiro, Guilherme Braga, Borges de Avelar e outros representavam essa corrente liberal e anti-clericalista. Magalhães Lima, na obra “Episódios da Minha Vida” dirá: “O Diário da Tarde, em que eu colaborava, foi o órgão destemido deste movimento. Este jornal tinha uma feição combativa e, por isso mesmo, uma larga tiragem absorvida na maior parte pelas classes populares. O diário era sobretudo anti-clerical”.

1.2.4. Agostinho Albano escritor
Sampaio Bruno, na obra “Portuenses Ilustres” fala-nos de Agostinho Albano como o homem que “como seu avô chamado Agostinho Albano (…) se celebrou no mundo literário escrevendo romances (Amor e palavras), traduzindo dramas (Os Apóstolos do Mal, de Faniot cujo último acto refez) e publicando livros dum humorismo elegante, onde reviveu a sucinta louçania de Léo Lespès (Timothée Trimm), como o volume gracioso Antes de soprar à Luz”.
Para além destes destacam-se ainda outros títulos da sua autoria, nomeadamente “O Pai Paulino”, “No leito da Morte”, “Os pomos de Eva”, “Amor e palavras”, “Antes de soprar a luz”, “A tosquia de um bugio”, para falar dos mais conhecidos.
Célia Sousa Vieira, no estudo “A superação do modelo narrativo zoliano: lugares de intersecção e estratégias paródicas” considera, em relação à obra literária de Agostinho Albano, que as suas “narrativas se distinguem pela adopção da metalinguagem da ficção como ponto de partida para a sátira a processos romanescos em voga”. Isto tomando como exemplo as obras “Júlia em Prospecto” (Romance publicado em “A Folha Nova”, 1882), “Um Pobre Homem. História d’uma História” (publicada em “A Folha Nova”, 1885) ou “Um Caçador Nocturno” (publicado em “A Folha Nova”, 1882).

(Continua)

Nota: A bibliografia respeitante a este estudo encontra-se na Parte II do mesmo.