segunda-feira, 8 de julho de 2013

As obras de arte dos artistas gaienses no exterior (III) : a Avenida dos Aliados

Data: séc. XX


Local: Avenida dos Aliados - Porto


Sinopse: A Avenida dos Aliados e as praças adjacentes, a norte e a sul, fazem parte do conjunto dos imóveis de interesse patrimonial, no Centro Histórico do Porto (anexo VI, nº 28), que foram classificados pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade, com aprovação, por aquela entidade, em 1996.


A configuração atual da principal “sala de visitas” da capital nortenha, a que a operação de intervenção para a requalificação, da autoria dos arquitetos Siza Vieira e Souto Moura, devolveu nova fisionomia, remonta a 1957, ano em que foi inaugurado o edifício dos Paços do Concelho, encontrando-se os restantes edifícios maiores já concluídos. Foi o culminar de um processo iniciado em 1914, com o presidente Elísio de Melo, e aprovado pela Câmara em 1915 que propunha a construção da Avenida, o qual retomava as ideias mestras dum traçado proposto, já em 1889, por Carlos Pezarat.


A execução do projeto foi confiada ao arquiteto inglês Barry Parker que apresentou uma proposta para um centro cívico estruturado na Avenida e nas praças dos topos, e com o enquadramento dos Paços do Concelho, a norte. Apesar de corresponder, na essência, à configuração atual, o projeto de Parker teve algumas alterações sobretudo ao nível da configuração dos edifícios.


Esta alteração urbanística sacrificou o antigo Bairro do Laranjal e alguns arruamentos mais nobres, como a Rua do Laranjal e de D. Pedro IV. O antigo edifício oitocentista dos Paços do Concelho, situado no topo norte da Praça da Liberdade, também foi demolido. Era encimado pela estátua denominada “O Porto”, em granito, da autoria de João Alão, e que após várias mudanças regressou, este ano, à esquina do edifício do Banco de Portugal.


A Avenida das Nações Aliadas cuja designação homenageou a vitória dos “aliados” na Primeira Guerra Mundial é um conjunto de grande valor arquitetónico e urbanístico que conseguiu manter inalterável a sua integridade. Nela imperam edifícios com fachadas harmoniosas e com belas decorações, os quais são encimados com lanternins, coruchéus e cúpulas de belo efeito artístico.


Entre os artistas que trabalharam no conjunto arquitetónico, decorativo e escultórico da referida Avenida e praças contam-se vários artistas da chamada “Escola de Gaia”. Em estudo autónomo publicámos já o contributo dos artistas gaienses no edifício dos Paços do Concelho que encima a Avenida em estudo. Daremos conta, agora, do contributo dos artistas gaienses na parte restante da Avenida dos Aliados e praças.


Os artistas gaienses:


Henrique Moreira: (1890-1979)


Meninos (1931) – trata-se de um trabalho em bronze dourado, de 1931; segundo José Guilherme Abreu é constituído por uma “Taça com vários frutos, com especial incidência para as uvas que o extravasam, em cachos, assente sobre pedestal hexagonal de pedra calcárea, e sustentando aos ombros de três meninos nus de tenra idade, dispostos em círculo, de costas voltadas para o eixo central da peça. Ingenuidade e decorativismo.”


. Juventude (1929) – trata-se de uma fonte, sobressaindo na parte central a estátua, em mármore e motivos decorativos em bronze. É um trabalho de 1929 que teve a colaboração do arquiteto Manuel Marques. O povo, na sua simplicidade e espontaneidade chamou-lhe a menina nua. Segundo José Guilherme Abreu trata-se de uma “Fonte constituída por um esteio prismático cuja base parece flutuar sobre a arca de água, sobrepujado por uma estátua de mármore, que representa uma graciosa mulher nua, sentada, cujos pés repousam sobre uma das quatro carrancas de bronze, que estão colocadas sobre os flancos do esteio central, e de cujas bocas escorre o fio de água que alimenta o reservatório médio e inferior.”


. Águia Imperial (1936) - trata-se de uma escultura de fachada, em bronze, datada de 1936, colocada no antigo Café Imperial, na Praça da Liberdade. Este antigo café possui, no seu interior, belos efeitos decorativos de caráter artístico. Presentemente funciona aí a loja Mac Donalds tendo sido preservados todos os valores artísticos.


Índio do Café Guarany (1933)– trata-se de um baixo-relevo, em mármore, representando um índio. Foi inaugurado em 1933 no interior daquele café.


Cariátides do Edifício do Jornal “O Comércio do Porto”, 1928-29.– O edifício de O Comércio do Porto é da autoria do arquiteto Rogério de Azevedo. De acordo com o jornal O Comércio do Porto, de 01.06.1930 (p. 1), citado por ABREU (2010), “as oito estátuas que assentam sobre a cornija, são modeladas pelo talentoso escultor Henrique Moreira, representando as oito províncias de Portugal: Minho, Douro, Trás-os-Montes, Beira Alta, Beira Baixa, Estremadura, Alentejo e Algarve, com os brasões das suas capitais”.


De acordo com José Guilherme Abreu as esculturas “esculpidas em pose solene e hierática constituem elementos de belo desenho art-déco e representam o momento em que Henrique Moreira se afasta de forma mais lúcida e consistente da estética naturalista, guiado por um projeto arquitetónico que já determinava o local, o modo de integração e o partido estético das referidas estátuas”.


Esculturas da Filial do Banco de Portugal


No átrio existem frisos decorativos, em bronze, da autoria de Henrique Moreira.


José Fernandes de Sousa Caldas (1894-1965)


Esculturas da Filial do Banco de Portugal


O projeto de arquitetura do edifício é da autoria de José Teixeira Lopes e de Ventura Terra e data de 1918. A primeira pedra foi lançada em 1922.


Segundo ABREU (1996, p. 71) trata-se de “Dois grupos escultóricos semelhantes, simetricamente dispostos nos flancos do torreão central do edifício, sendo cada um deles formado por uma figura feminina trajando uma longa túnica e uma junto aos seus pés duas crianças nuas sentadas sobre a cumeeira. Nas suas mãos, ambas as figuras femininas empunham ramos de flores e grinaldas, com que parecem querer coroar essas mesmas crianças. Forte influência neoclássica nas vestes e no desenho dos rostos e das cabeças, numa alusão à simbologia do trabalho”.


Edifício da Companhia A Nacional


O primeiro projeto do edifício de A Nacional foi encomendado ao arquiteto António de Oliveira Ferreira. Era um edifício em estilo neo-manuelino. O segundo projeto, o que foi concretizado, foi confiado ao arquiteto Marques da Silva.


As esculturas que encimam o torreão são da autoria do escultor Sousa Caldas.


Busto do Dr. Fernando Brederote (1928)


De acordo com António Cardoso, em 26 de Agosto de 1928, numa cerimónia de homenagem ao Dr. Fernando Brederote, foi descerrado um busto em sua homenagem, da autoria de Sousa Caldas. Este homem da República, com fortes ligações ao mutualismo fez um rasgado elogio ao arquiteto Marques da Silva e ao escultor Sousa Caldas que, pelo seu talento, “concebeu e com a sua competência, zelo e honestidade executou (aquele) edifício. (Jornal O Comércio do Porto, 28 de Agosto de 1928)”.


Manuel Marques, arquiteto (1890-1956)


Juventude – Manuel Marques colaborou com Henrique Moreira na construção deste belo conjunto.


Farmácia Vitália – A remodelação do R/C da parte poente do edifício das Cardosas, onde veio a ser fundada esta farmácia, é um trabalho da sua autoria, datado de 1936.


Francisco de Oliveira Ferreira, arquiteto (1883-1957)


Oliveira Ferreira projetou o edifício do Club os Fenianos (1919) e a Clínica do Dr. Alberto Gonçalves. Foi ainda autor do projeto da edifício da Companhia de Seguros A Nacional (1918), em estilo neo-manuelino; contudo este projeto, segundo António Cardoso, foi substituído por um novo projeto do arquiteto Marques da Silva.


José Teixeira Lopes, arquiteto (1872-1919)- filial do Banco de Portugal


Juntamente com Ventura Terra, José Teixeira Lopes foi autor do projeto do edifício da filial do Banco de Portugal cuja primeira pedra foi lançada em 1922.


Empresas de Fundição


Empresa de Fundição José de Castro Guedes – Almeida Garret – a estátua de Almeida Garrett, é da autoria do escultor Barata Feyo e foi inaugurada em 11.11.1954, no centenário da morte do escritor. A fundição, em bronze, foi feita em Vila Nova de Gaia, na oficina de José de Castro Guedes.


Empresa de Fundição Sá Lemos – Meninos (de Henrique Moreira)


Trata-se de um trabalho executado por esta empresa de fundição gaiense, em 1931.


Atelier de Guilherme Camarinha (1912-1994) no edifício de “O Comércio do Porto”. O seu atelier, de acordo com Hélder Pacheco, situava-se “no edifício de O Comércio do Porto (onde teria como vizinho Mestre Dórdio Gomes), sairia uma das mais efetivas transformações operadas nas grandes artes dos murais e tapeçarias com que enriqueceu espaços públicos no país e no estrangeiro”.


Aqui pretendemos dar a conhecer e evocar o valioso contributo dos artistas da chamada Escola de Gaia, nos caminhos da escultura e da arquitetura, patentes na principal avenida da cidade do Porto.


Remissivas: Arte e arquitetura na Avenida dos Aliados/A Escola de Gaia/ Henrique Moreira/ José Fernandes de Sousa Caldas/Manuel Marques/ Francisco de Oliveira Ferreira/Guilherme Camarinha/ Fundição Sá Lemos/ Fundição José de Castro Guedes


Bibliografia:


. Francisco D’Oliveira Ferreira. O Arquiteto de Gaia, Vila Nova de Gaia, Município de Vila Nova de Gaia – Pelouro da Cultura Património e Turismo, 2008.


. Leão, Manuel – A arte em Vila Nova de Gaia, Vila Nova de Gaia, Fundação Manuel Leão, 2005.


. PACHECO; Hélder – Porto. Cultura em Movimento. Painéis temáticos das retaguardas dos autocarros da STCP (1998-2002), Porto, STCP e Afrontamento, 2008.


. Porto a Património Mundial - Processo de candidatura da Cidade do Porto à classificação pela Unesco como Património Cultural da Humanidade, Porto, Câmara Municipal do Porto, 1993.


Webgrafia:


.http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=20305.


. ABREU, José Guilherme Ribeiro Pinto de – A Escultura no Espaço Público do Porto no séc. XX. Inventário, História e Perspetivas de Interpretação (Dissertação de mestrado em História de Arte, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1996 – 2 Vols. [Disponível em: http://repositorio-aberto.up.pt – visualizado em 15.06.2013].


. ABREU, José Guilherme – Os caminhos da escultura pública no Porto – Parte II, Boletim da Associação Cultural Amigos do Porto, 3ª série, nº 28, 2010, pp. 85-135.


[Disponível em: http://repositorio-aberto.up.pt – visualizado em 15.06.2013].


. CARDOSO, António – O Arquiteto José Marques da Silva e a Arquitetura do Norte do País na primeira metade do séc. XX, 3 vols., Porto, 1992.


[Disponível em: http://repositorio-aberto.up.pt – visualizado em 15.06.2013].


Sala de Fundo Local, Junho de 2013.


Edifício de O Comércio do Porto – Arqtº Rogério de Azevedo e escultor

Henrique Moreira (imagem de António Conde, 2013)


Edifício de O Comércio do Porto – as Cariátides do escultor Henrique Moreira

(imagem de António Conde, 2013)





Edifício da Companhia A Nacional – arqtº Marques da Silva

e escultor Sousa Caldas (imagem de António Conde, 2013)



Edifício da Companhia A Nacional – esculturas de Sousa Caldas

(imagem de António Conde, 2013)





Juventude (Arqtº Manuel Marques e escultor Henrique Moreira)

(imagem de António Conde, 2013)



Filial do Banco de Portugal (Arqtºs. Ventura Terra, J. Teixeira Lopes)

(imagem de António Conde, 2013)



Filial do Banco de Portugal (Escultores Fernandes Caldas e Henrique Moreira)

(imagem de António Conde, 2013)



Águia Imperial (Escultor Henrique Moreira)

(imagem de António Conde, 2013)



Meninos (escultor Henrique Moreira)

(imagem de António Conde, 2013)