sexta-feira, 7 de junho de 2013

As obras de arte dos artistas gaienses no exterior (II): os Paços do Concelho do Porto

Edifício dos Paços do Concelho do Porto (foto de António Conde, 2013)

As doze cariátides da autoria de Henrique Moreira e Sousa Caldas

(Foto de António Conde, 2013)


Pormenor das cariátides junto ao torreão (Foto de António Conde, 2013)

A Indústria, de Henrique Moreira

(retirado da página do facebook do escultor Henrique Moreira)


Busto de Francisco de Almada (cemitério do Prado do Repouso) que serviu

de modelo à réplica de mármore do edifício dos Paços do Concelho

(foto de António Conde, 2013)


As tapeçarias de Guilherme Camarinha, na Sala de Sessões (in http://portoarc.blogspot.pt)
Data: séc. XX

Local: Avenida dos Aliados - Porto

Sinopse: O edifício dos Paços do Concelho do Porto situa-se no topo norte da Avenida dos Aliados e foi inaugurado no dia 24 de junho de 1957, dia de S. João e feriado municipal do Porto.

A ideia da construção do edifício partiu da primeira vereação republicana presidida por Elísio de Melo e o projeto foi encomendado ao arquiteto Correia da Silva. O projeto segue, em linhas gerais, o modelo de alguns palácios municipais da Flandres e norte de França.

Em 1916, pela Lei nº 507, de 11 de Abril, o respetivo município foi autorizado a “contrair um empréstimo de 3.000.000$, consignados à execução do projecto de novos arruamentos, ao prolongamento, conclusão e alargamento das vias públicas existentes, e à construção de um edifício para os Paços do Concelho daquela cidade”. Estava em causa a execução do projeto de Barry Parker, no que concerne à atual Avenida dos Aliados (e respetivas praças, a norte e a sul), nos terrenos do antigo Campo das Hortas e da Fonte da Arca.

A construção dos Paços do Concelho durou cerca de quatro décadas e o projeto inicial foi revisto pelo arquiteto Carlos Ramos que assumiu a responsabilidade de todas as alterações. Assim o torreão, atualmente com cerca de 70 metros, ficou mais baixo 6 metros que o previsto, a escadaria de acesso foi substituída por uma rampa de lado a lado e as quatro estátuas que estavam previstas para o frontispício foram anuladas e os locais de inserção foram tapados.

O remate do edifício é coroado por balaústres e doze urnas e apoia-se em doze cariátides* de feição helénica. O torreão, cuja escadaria é composta por 257 degraus, ostenta um relógio e é rematado por uma estrutura metálica esverdeada.
Os Paços do Concelho do Porto encerram, quer no seu exterior, quer no seu interior, contribuições artísticas de grandes nomes das artes nacionais. A exemplo de outras grandes obras da capital nortenha estão representados vários artistas da chamada “Escola de Gaia” de cujos nomes e obras daremos conta, de seguida. Saliente-se, ainda, os contributos de Dórdio Gomes e Gustavo Bastos, entre outros. Do primeiro registe-se os frescos “D. Afonso Henriques”, “Infante D. Henrique”, “Camilo Castelo Branco” e “Martinho Alho” e do segundo as figuras “A Honra” e “A Concórdia”, duas estátuas em mármore de Carrara.


A arte dos artistas gaienses

No interior do edifício:

Soares dos Reis

Busto de Francisco de Almada – No patamar do andar nobre existe uma cópia, em mármore, do busto esculpido por Soares dos Reis que se encontra no cemitério do Prado de Repouso. Insere-se num conjunto formado pela escadaria de acesso aos salões nobres, revestida a mármore preto.

Guilherme Camarinha

Segundo o historiador Hélder Pacheco “O Porto deve-lhe os inexcedíveis painéis alegóricos dos Paços do Concelho. Encomendados à Manufactura Portalegrense em 1955 para as paredes da Sala de Sessões, constituem momentos evocativos e deslumbrantes da estética colocada ao serviço da imagem da identidade portuense”. (PACHECO, 2008, p. 100)

Tapeçaria “Hino em Louvor, Honra e Glória da Cidade do Porto” (1958) – tecida a lã, sobre algodão, evoca os episódios mais notórios da cidade do Porto, nomeadamente a tomada da Cidade do Porto por Vímara Peres e o Cerco do Porto.

Tapeçaria “A faina do Douro” (1962) – tecida a lã, sobre algodão, evoca a ligação da cidade do Porto e região ao comércio de Vinho do Porto.

Tapeçaria “S. João no Porto” (1962) – tecida a lã, sobre algodão, evoca a festa maior da cidade do Porto e região.

Henrique Moreira

. “Indústria” – estátua em mármore representando uma mulher do povo com xaile sobre o ombro e uma roda dentada – encontra-se no acesso à escadaria principal dos Passos Perdidos.

. “Arte” – estátua em mármore representando uma mulher do povo de dorso nu e cabeça ligeiramente levantada – encontra-se no acesso à escadaria principal dos Passos Perdidos.

No exterior do edifício:

O entablamento do topo do edifício, constituído por urnas e balaústres, apoia-se em doze cariátides da autoria de Sousa Caldas e de Henrique Moreira com temáticas ligadas às artes e aos ofícios.

Henrique Moreira

No lado direito da fachada encontram-se seis figuras femininas deste escultor, subordinadas às seguintes motivos:

. As Ciências

. A Arquitetura

. A Escultura

. A Pintura

. A Música

. A Literatura

Sousa Caldas

No lado esquerdo da fachada encontram-se seis figuras femininas deste escultor, subordinadas aos seguintes motivos:

. A Navegação

. A Pesca

. A Agricultura

. A Viticultura

. A Construção Civil

. A Indústria

Do projeto inicial constavam ainda quatro esculturas, a colocar no frontispício, representando a Terra, o Mar, a Vinha e o Trabalho, da autoria de Sousa Caldas. Como não foram contempladas nas alterações propostas pelo arquiteto Carlos Ramos, os respetivos nichos foram tapados.

***

Quisemos aqui dar a conhecer e evocar mais um importante contributo para as artes nacionais, por parte da “Escola de Gaia”.

Glossário:

* Cariátides: Em termos artísticos o termo designa uma figura humana feminina que sustenta uma cornija ou arquitrave. O termo é já empregue por Vitrúvio na 1º livro de Arquitetura. O emprego de cariátides remonta à antiga Grécia; assim no templo de Erectéion, construído na Acrópole ateniense, pelo arquiteto Mnesikles, existe o Pórtico das Cariátides com 6 figuras femininas no lugar das colunas.

O termo, segundo a lenda, designa as raparigas da ilha grega de Cária, cujos habitantes terão apoiado os persas na guerra entre a Grécia e a Pérsia. Considerados como traidores pelos gregos foram condenadas as habitantes a suportar simbolicamente o peso dos telhados das casas.

Contudo o tom sereno que ostentam em todas as representações artísticas não parece consubstanciar a essência do castigo, outrossim faz lembrar a imagem das mulheres do povo que, em tempos ainda relativamente recentes, carregavam à cabeça os cântaros e os cestos.

Remissivas: Escola de Gaia/Soares dos Reis/Guilherme Camarinha/ Sousa Caldas/ Henrique Moreira/Artistas de Gaia

Bibliografia:

. ABREU, José Guilherme Ribeiro Pinto de – A Escultura no Espaço Público do Porto no Século XX. Inventário, História e Perspetivas de Interpretação (e-polis, nº 3), 2005, Barcelona, Publicacions de la Universitat de Barcelona – Centre de Recerca Polis.
. Diário do Governo, I Série, 11 de Abril de 1916.**
. Guilherme Camarinha 1912-1994 – Catálogo da Exposição Museu Nacional Soares dos Reis, Lisboa, Instituto Português de Museus, 2002. **
. O Tripeiro 7ª Série, Ano XXXII, nº 4, Abril 2013, pp. 110-111. **
. PACHECO; Hélder – Porto. Cultura em Movimento. Painéis temáticos das retaguardas dos autocarros da STCP (1998-2002), Porto, STCP e Afrontamento, 2008.**
. Porto a Património Mundial – Processo de candidatura da Cidade do Porto à classificação pela Unesco como Património Cultural da Humanidade – 1993, Porto, Câmara Municipal do Porto, 1993. **

Webgrafia:

. http://colimao.blogspot.pt/2006/03/as-caritides.html
. https://www.facebook.com/EscultorHenriqueMoreira#!/EscultorHenriqueMoreira - visualizado em 2013.05.31
. http://portoarc.blogspot.pt/2013/03/pracas-da-cordoaria-e-nova-das-hortas-iv.html
. http://visitavirtual.cm-porto.pt/vvfp.php - visualizado em 2013. 06.31

** do acervo da BMPVNG

Sala de Fundo Local, Maio de 2013