segunda-feira, 18 de março de 2013

Questões da toponímia Gaiense - Rua Raimundo de Carvalho: a rua e o patrono

"31 de Janeiro", número único Comemorativo da Revolta do Porto


Placa toponímica (foto António Conde)
 Data: 1891-1910

Sinopse: Trata-se de uma rua localizada na parte central da freguesia de Mafamude, bem perto da igreja de S. Cristóvão de Mafamude. Tem início na Avenida da República, junto ao sítio do Pinheiro Manso, e daí parte para nascente, na direção do lugar da lugar da Lavandeira, da freguesia de Oliveira do Douro, indo entroncar na rotunda da Avenida D. João II.

A rua
A atribuição do nome de Raimundo de Carvalho a este arruamento remonta ao período que se seguiu à implantação da República. Como adiante se verá trata-se de um republicano de longa data, com participação na Revolta do 31 de Janeiro de 1891, subsequente à célebre questão do Ultimatum. No período final da monarquia foram bastantes os centros republicanos criados na área do nosso concelho, uns mais participativas do que outros, os quais ganharam grande vigor após a implantação da República. Um 1910 foi criado, em Mafamude, um centro republicano que tomou como patrono Raimundo de Carvalho. Sob a denominação de Centro Democrático de Instrução e Recreio Raimundo de Carvalho, assumia-se como defensor da educação cívica e propaganda política e teve estatutos aprovados em 1910 conforme consta do Arquivo do Governo Civil do Porto (Maço 189, nº 79).
Foi precisamente no período revolucionário que se seguiu à implantação da República, à renovação da governação municipal e às alterações da toponímia das principais artérias da Vila com nomes de figuras republicanas, que o Centro Democrático Raimundo Carvalho oficiou à Câmara no sentido se ser atribuído o nome do seu patrono à rua que correspondia ao troço inicial da antiga estrada da Bandeira a Lobão. Esta rua tinha início no Largo do Torrão ou de D. Pedro V (atual Jardim Soares dos Reis), onde em 1904 tinha sido inaugurado o monumento a Soares dos Reis, e partia para nascente em direção a Oliveira do Douro. Inicialmente correspondia ao troço da atual Rua D. Pedro V e rua Raimundo de Carvalho. A alteração toponímia foi aprovada na reunião de 27 de Outubro de 1910.

A figura de Raimundo de Carvalho
Augusto Raimundo de Carvalho, ou Raimundo de Carvalho como é popularmente conhecido na toponímia gaiense é uma personalidade muito pouco conhecida. Em termos documentais não há referências à sua participação cívica ou política para além da participação na revolta do 31 de Janeiro de 1891.
Trata-se, efetivamente, de um militar que com a patente de 1º sargento fazia parte, em 1891, do Regimento de Infantaria nº 10, aquartelado na cidade do Porto junto à Torre da Marca. Nessa qualidade participou na insubordinação dos sargentos e soldados que, sob o comando do capitão Leitão e do tenente Coelho, marchou em direção do Campo de Santo Ovídio (atual Praça da República) onde se encontrava o quartel-general, e depressa se reuniu aos insurretos. Refira-se que, de igual modo, pelas 2 horas e 30 minutos da manhã do dia 31 de Janeiro, o Regimento de Caçadores nº 9, do Porto, saiu insubordinado para a rua, às ordens dos sargentos (tendo a partir da cadeia da Relação obtido o apoio do alferes Malheiro que assumiu o comando) desceu a rua dos Clérigos, subiu a rua do Almada e dirigiu-se ao Campo de Santo Ovídio. Também o Regimento de Infantaria nº 18 se insubordinou e logrou juntar-se aos restantes, quando a porta que dá para o largo da Lapa foi arrombada. Entretanto a Guarda Municipal, fiel ao regime, dirigiu-se para o Campo de Santo Ovídio vigiando os insubordinados e impedindo os populares de se juntarem aos insurretos. Os restos dos pormenores são por demais conhecidos: os insubordinados formados seguiram pela Rua do Almada em direção ao edifício da Câmara do Porto onde após, um compasso de espera, um conjunto de revolucionários assoma à varanda da municipalidade e aí colocou uma bandeira republicana e fez uma proclamação aos militares e aos populares presentes. Participavam neste ato o Dr. Alves da Veiga, o ator Verdial, Santos Cardoso, Felizardo de Lima e outros populares tendo sido dado a conhecer a lista dos republicanos que compunham um governo provisório de caráter republicano.
A insubordinação acabou algumas horas mais tarde, quer pela falta de concertação com outras forças republicanas de outras regiões do País, quer pela ação da polícia municipal auxiliada pelo quartel da Serra do Pilar que perseguiu os revoltosos através da Rua 31 de Janeiro e provocou algumas dezenas de mortos e muitos feridos. Os revoltosos foram perseguidos e presos e, nos meses subsequentes, foram julgados em três conselhos de guerra que funcionaram a bordo do vapor “Moçambique”, da corveta “Bartolomeu Dias” e do transporte “Índia”, os quais estavam fundeados no porto de Leixões. A grande maioria dos implicados foram condenados a penas de prisão maior ou degredo.
No caso presente o 1º sargento Augusto Raimundo de Carvalho foi condenado na pena de prisão maior celular por quatro anos ou, em alternativo, na de 7 anos de degredo, o qual era cumprido nas possessões ultramarinas de África.

Remissivas: Toponímia gaiense/Mafamude/Raimundo de Carvalho/ Centro Democrático de Instrução e Recreio Raimundo de Carvalho/Revolta de 31 de Janeiro de 1891/Primeira República em Vila Nova de Gaia

Bibliografia:
. Arquivo Municipal de Sofia Melo Breyner – Livro de atas nº 18.
. COSTA, Francisco Barbosa da – Instituições do Distrito do Porto, Porto. Governo Civil do Porto, 2005, p. 787.*
.CHAGAS, João; COELHO, Tenente – História da Revolta do Porto: depoimento de dois “cúmplices”, Lisboa, Assírio & Alvim, 1978.
. GUIMARÃES, Gonçalves – Republicanos, monárquicos e outros: as vereações gaienses durante a 1ª República, Vila Nova de Gaia Confraria Queirosiana, 2010, p. 45.*
. Jornal os Carvalhos – ano de 1891.*
. Jornal “O Grilo de Gaia” – ano de 1891. *


*Do fundo bibliográfico da BPMVNG




Sala de Fundo Local, Março de 2013.