sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O Observatório da Serra do Pilar (III) – da “refundação” à atualidade

Planta da estação de sismologia


Zona da Serra do Pilar e de localização do Observatório (Foto de António Conde)


1. A “refundação” do Observatório sob a direção do Prof. Álvaro Machado (1926-1946)

   Por despacho ministerial de 17 de Fevereiro de 1926 o professor Álvaro Machado foi reconduzido na direção interina do Observatório e veio encontrar as instalações e a aparelhagem em estado de degradação. São referidos problemas ao nível dos telhados, terraços, estuques, portas e caixilharias, pinturas interiores e exteriores, soalhos podres, entre outros. Pode parecer um estado recorrente a questão da degradação das instalações, amiúde relatada, mas temos que ter presente que as reparações, devido às dificuldades financeiras e à exiguidade das dotações financeiras, não deixavam de ser pontuais e não passavam de meros remendos num edifício já de si problemático, pela sua localização à cota alta, e sujeito à agressividade dos ventos e dos temporais.
   Constata-se, neste período, a discrepância de verbas atribuídas ao Observatório da Serra do Pilar face aos seus congéneres e o seu diretor Álvaro Machado não se cansou de alertar os ministros da tutela da precaridade das instalações, do reduzido quadro de pessoal, nem sempre preenchido, e da falta de aparelhagem que, muito contra a vontade do diretor, fazia do Observatório Meteorológico da Serra do Pilar pouco mais que um posto meteorológico.
   Esta situação tendeu a alterar-se com a nomeação para ministro da Instrução do prof. Alfredo de Magalhães (22.11.1926 – 18.04.1928) um homem que, na sua qualidade de ex - Reitor da Universidade do Porto, conheceu, no local, o descalabro em que se encontrava o Observatório a nível de instalações e de equipamentos. Esse conhecimento sensibilizou-o para a necessidade de desenvolver o serviço meteorológico nacional assente em observatórios universitários bem equipados e coadjuvados por uma rede de postos meteorológicos espalhados pelo país.
   Assim era necessário equipar o Observatório com o equipamento científico equiparado aos restantes observatórios, de modo a que o serviço meteorológico nacional saísse prestigiado. Tal foi conseguido com o reforço das dotações financeiras e com o sacrifício do pessoal na medida em que o respetivo quadro não foi preenchido na totalidade para poupar verbas.

1.1. Nova legislação que favorece o Observatório

   Pelo decreto nº 13.584 (de 10.05.1927) foi concedida ao Observatório uma dotação extraordinária de 50 contos e pelo decreto nº 13.597 (de 12.05.1927) a dotação ordinária foi equiparada à dos restantes observatórios. Este reforço de verbas permitiu a reparação e limpeza da aparelhagem e a aquisição de novos aparelhos no estrangeiro.
   Quanto às obras de beneficiação dos três edifícios que compunham o Observatório foi solicitado o apoio à Direção dos Edifícios Nacionais do Norte que deu a sua comparticipação através do fornecimento de materiais.

1.2. Os efeitos no Observatório da Revolução de Fevereiro de 1927

   Em Fevereiro de 1927 rebentou no Porto uma revolta contra o governo da ditadura militar e a Serra do Pilar foi palco de operações militares entre os contendedores. O Observatório viu as suas instalações invadidas pelos revoltosos e pelas tropas fiéis ao governo. Os estragos do tiroteio provocados pelas granadas e centenas de balas que foram disparadas contra os edifícios foram de certa monta: paredes e muros destruídos, vidros estilhaçados, azulejos partidos, móveis, instrumentos, etc. As observações tiveram de ser interrompidas de 4 a 8 de Fevereiro de 1927.

1.3. O fim das obras de beneficiação

   Completadas as reparações foram também modificadas a canalização da água e de gás acetileno produzido num gasómetro. Refira-se que até 1926 não havia qualquer rede de iluminação no Observatório sendo o trabalho noturno feito à luz de candeeiros a petróleo ou velas. Mais tarde foi feita a instalação elétrica e a autarquia gaiense mandou colocar três lâmpadas acesas toda a noite no sítio da Cerca assumindo o custo dos consumos dado tratar-se de um serviço de utilidade pública e local.
   Após a conclusão das obras e melhoramentos considerou o seu diretor, Professor Álvaro Machado, que o Observatório tinha conseguido reunir as condições que dispunha ao tempo das direções mais estáveis (de 1902 a 1918). Teve então a oportunidade de se virar para o apetrechamento interno, consertando aparelhagem deficiente ou adquirindo exemplares novos e procurando motivar e rentabilizar os recursos humanos existentes. Em Fevereiro de 1927 passou a ser afixado na fachada principal do edifício da Universidade do Porto o boletim diário das observações. Retomou-se a publicação melhorada dum boletim mensal do Observatório cuja edição tinha sido interrompida. Em 1929 com a dotação extraordinária anteriormente concedida foi adquirida no estrangeiro diversa aparelhagem atualizada ao nível dos melhores observatórios.
   A direção do Professor Álvaro Machado, nomeado por despacho ministerial em 1926, aparte o tempo em que interinamente assumiu a direção do Observatório, e que durou até à sua morte em Novembro de 1946, trouxe uma enorme mais-valia e estabilidade para o Observatório da Serra do Pilar. O seu diretor paralelamente à sua atividade académica representou Portugal em missões no estrangeiro onde as questões da meteorologia e do ensino das ciências estiveram presentes.
   Neste período de cerca de duas décadas operaram-se grandes progressos a nível da meteorologia em Portugal. Em 1946, pelo Decreto-lei nº 35850 o Observatório Meteorológico da Universidade do Porto passou a designar-se Instituto Geofísico da Universidade do Porto e é fixado o seu quadro de pessoal de 1 diretor, 3 meteorologistas, 1 observador, 3 ajudantes de meteorologia, 1 aspirante, 1 artífice, 1 guarda e 1 servente.
   No período final da sua direção foi criado o Serviço Meteorológico Nacional ao mesmo tempo que se discutia, de novo, a deslocalização do observatório. Era apologista desta ideia o Professor Doutor Américo Pires de Lima que nas páginas de “O Tripeiro” (V, I, p. 100) defendia a aquisição de uma quinta no Campo Alegre, para instalação do Jardim Botânico, museus e do Observatório Meteorológico que funcionava na Serra do Pilar. Contudo também esta tentativa de deslocalização foi abortada e o observatório lá continuou na Serra do Pilar.
   Ao Professor Álvaro Machado seguiram-se as direções do Professor Doutor Domingos Rosas da Silva, que foi diretor interino de 1946 a 1955, do Professor Doutor Manuel Marques Teixeira que foi diretor de 1955 a 1959 e do Engenheiro Carlos Coutinho Braga que lhe veio a suceder.

2. A instalação de uma estação sismológica ao nível das melhores do mundo (1963)

   No início da década de 60 surgiu a ideia de desenvolver a estação sismológica da Serra do Pilar cuja origem, como foi referido, remonta a 1912. A intenção era elevá-la ao nível das principais estações de sismologia a nível mundial fazendo parte de um conjunto de 125 estações, devidamente normalizadas. Este sonho acabou por concretizar-se em 1963 já que o governo norte-americano e a U. S. Coast and Geodetic Survey ofereceram a estação que foi instalada na Serra do Pilar cujo valor ascendeu, na altura, a 2000 contos.Esta aparelhagem e o programa de estudos a ela associada situava-se ao nível das melhores estações sismológicas mundiais.
   Tratava-se de uma estação subterrânea, com várias salas, onde separadamente foram colocados os sismógrafos, os galvanómetros e os registadores, sendo que os pilares onde estavam os aparelhos estavam cravados em rocha firme e isolados do pavimento.

3. A desativação da estação sismológica e o declínio do Observatório

   Em 1997, Estevão Samagaio, em estudo sobre o Observatório da Serra do Pilar, dava conta de que a estação sismológica, acima referida, tinha sido desativada havia pouco. Dava ainda conta de informes da imprensa diária de que por tal motivo não tinha sido possível fazer o registo do sismo ocorrido no dia 22 de Maio no norte de Portugal.
   De facto começou a constatar-se o desinvestimento no Observatório da Serra do Pilar entretanto caído na inatividade. Isto apesar de algumas obras de remodelação feitas no início da década de noventa e que abrangeram o edifício principal, a casa magnética, a estação de sismologia e a casa do guarda.

4. Um futuro para o Observatório da Serra do Pilar

   Aquele que foi um dos primeiros postos meteorológicos de Portugal vai renascer de novo, em seu lugar altaneiro, fruto de uma parceria celebrada entre o município gaiense e a Universidade do Porto. O projeto de reabilitação prevê a recuperação das instalações, a conversão num museu temático ligado a meteorologia, a reativação da estação meteorológica, a disponibilização de salas de investigação e de leitura e a instalação de um miradouro sobre o rio Douro aproveitando a localização de excelência.
   A cave albergará o sismógrafo e a oficina pedagógica. A nível do r/C haverá espaços expositivos de máquinas, cartografia antiga, sala de leitura e estação meteorológica. O 1º andar será um espaço reservado destinado a serviços administrativos e de direção e salas para investigação.

5. Conclusão

   - Nascido pelas mãos do poder centralizador da capital e acarinhado por dois grandes nomes da oficialidade da Marinha (Brito Capelo e Soares Andrea), ao arrepio da vontade dos homens da Academia nortenha que já detinham há muito o seu observatório privativo que desejavam melhorado;
   - Construído no lugar tecnicamente possível, mas por muitos reconhecido como indesejável, a pontos de, por várias vezes, o tentaram destituir das suas funções e transferir para novas paragens, porventura tecnicamente piores;
   - O Observatório da Serra do Pilar, qual velho timoneiro que parece vigiar do promontório da Serra o rio e a cidade, resistiu a todas as adversidades e ao longo dos últimos 130 anos prestou à região e ao país enormes serviços já que faz parte da rede meteorológica nacional e mundial (estação 08 546).

   Quem, ao longo dos anos e nomeadamente desde os anos 40 do século passado, com a criação da Emissora Nacional, não ouviu citar a sua designação para transmitir o estado do tempo e as previsões do mesmo de acordo com os dados por ele fornecidos?
   De facto os resultados das suas observações revelaram-se de profundo interesse para o quotidiano das populações; do mesmo modo os dados meteorológicos nele registados e arquivados revestem-se de enorme interesse para os investigação científica, nomeadamente nas áreas da climatologia e da poluição atmosférica.
   Quisemos aqui evocar este importante monumento do património meteorológico nacional confiantes que a musealização, a reativação de alguns serviços e a criação de espaço para a investigação projetem o “velho” Observatório da Serra do Pilar nos caminhos do futuro, no respeito pela identidade desta glória do património gaiense.

Bibliografia comum a I, II e III:

. Arquivo Distrital do Porto - PT/ADPRT/ACD/DRAOTN/01-4/002/0001 - Reclamação dos Diretores dos Observatórios do Infante D. Luís e da Princesa D. Amélia, contra a continuação da fábrica de sulfureto próximo do Observatório da Serra do Pilar. 1863-10-28/1891-12-30


. Arquivo Distrital do Porto - PT/ADPRT/ACD/DRAOTN/01-4/001/0002 - Observatório Meteorológico da Princesa D. Amelia, na Serra do Pilar; 1890-10-21/1892-12-09.


. Arquivo Distrital do Porto - PT/ADPRT/ACD/DRAOTN/01-4/001/0001 - Observatório Meteorológico da Serra do Pilar; 1888-05-30/1891-08-12.


. CARDOSO, Artur Lopes - O Observatório da Serra do Pilar. Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. 2, nº 14 (Maio, 1983), p. 27-31.


. Diário do Governo – I Série; 18.12.1923; 10.05.1927; 12.05.1927; 20.12.1930; 29.08.1946. 06.09.1946; 27.12.1946.


. LANHOSO, Adriano Coutinho - Observatório da Serra do Pilar. O Tripeiro, Ano 5, série 6, n.º 8 (Ag. 1965), p. 225-230: il.; nº 9 (Ag., 1965), p. 281-283.


. MACHADO, Álvaro R. – Observatório da Serra do Pilar. Breves notas históricas. Estado atual. Desenvolvimento. Porto, Publicações do Observatório da Serra do Pilar anexo à Faculdade de Ciências do Porto, 1929.


. No Observatório da Serra do Pilar foi instalada uma estação sismológica oferecida pelo governo americano no valor de 2000 contos. O Comércio de Gaia. Ano 33, nº 1637 (1 Abr. 1963), pp. 1, 3.


. O Tripeiro, V, I, p. 100; VI, III, p. 156; V, XV, p. 374.


.Observatório da Serra do Pilar convertido em museu. Jornal de Notícias, 23.06.2010.


. SAMAGAIO, Estevão - O antigo Observatório Meteorológico Princesa Dona Amélia. Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. 7, n.º 44 (Dez., 1997), p. 30-32.

Webgrafia

. http://adp.pt


. http://centenario.up.pt/ver_espaco.php?id_espaco=2


. http://dererummundi.blogspot.pt/2010/01/as-primeiras-observacoes-meteorologicas.html


. http://www.fc.up.pt/fcup/contents/php/transform.php?opt=estdependentes&id=5



Sala de Fundo Local, Outubro de 2012