sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O Observatório da Serra do Pilar (II) – do início do séc. XX à atualidade

  Imagem antiga do Observatório


Planta da Cerca do Observatório
                                                     
  “das informações que ele [Serviço Meteorológico Nacional] fornece beneficiam a agricultura, a indústria, o comércio, a navegação marítima e aérea, os trabalhos hidráulicos, as operações militares, a higiene e o turismo”.  In Decreto nº 35 836, de 29 de Agosto de 1946

Introdução

Como foi referido no módulo anterior, na viragem do século de Oitocentos, o Observatório mantem-se, ainda, sob a gestão efetiva do fundador e primeiro diretor Soares Andrea. Contudo ele é já um diretor agastado pois, para além de nunca ter conseguido que o Observatório fosse apetrechado com as infraestruturas e aparelhagem desejadas, mantem uma pendência com o capitão-de-fragata Ferreira do Amaral, da Escola de Alunos Marinheiros do Porto, de quem se queixa por desconsideração pessoal e indisciplina. A contenda foi dada a conhecer ao diretor do Observatório D. Luís, aos ministros do Reino e da Marinha e ao rei D. Carlos. Por outro lado a Academia Politécnica portuense, a quem nunca terá agradado a criação, no norte, de um observatório dirigido pela oficialidade da Marinha, não se cansou de “representar” (como então se dizia) junto do rei exigindo a anexação do Observatório na Academia portuense.
Foi neste contexto que surgiu a demissão de Soares Andrea, por decreto de 10 de julho de 1900, e a nomeação de um diretor interino, também oficial da Marinha (e amigo pessoal e colaborador do demitido fundador) que, nitidamente, estaria destinado a fazer a transição, a qual foi efetivada em 1901, através da lei do orçamento de Estado.

1. A anexação do Observatório Meteorológico Princesa D. Amélia na Academia Politécnica do Porto (1901)

O termo de entrega e posse das instalações teve lugar em 1 de outubro de 1901 tendo o diretor interino cessante, capitão-tenente Fonseca Sarmento conferido a posse ao diretor interino da Academia Politécnica do Porto. Apesar de a questão da anexação ser uma pretensão antiga da Academia portuense esta só em abril de 1902 nomeou um novo diretor. Coube a escolha na pessoa do Professor Francisco Paula de Azeredo que dirigiu o Observatório até março de 1912.
Na vigência desta direção, uma das mais estáveis, o Observatório foi dotado de um regulamento aprovado pela Academia Politécnica, à luz do seu novo estatuto. Foram também realizadas obras de beneficiação já que os ventos fortes provocavam problemas a nível das coberturas com a consequente deterioração das madeiras, das pinturas e dos instrumentos.
Neste período foi ainda construída a vedação do terreno e instalações, com muro de alvenaria, numa luta que vinha já do tempo do fundador e que sempre teve a oposição dos responsáveis militares. Há que ter em conta que o sítio do Observatório era um local isolado e frequentado, por vezes, por marginais que por atos de vandalismo ou roubo punham em causa a segurança das instalações e do material de observação.
Outra questão resolvida foi a do acesso ao local, problema que durava há cerca de três décadas. Em abril de 1910 ficou pronta a ligação do Observatório à então designada Avenida de Campos Henriques (atual Avenida da República), através da Rua de Rodrigues de Freitas. A obra do arruamento então designada como Ramal do Observatório foi feita de acordo com planta traçada em 27 de setembro de 1897.
Em 1910, na vigência ainda da monarquia, foi solicitado ao ministro das Obras Públicas a instalação de aparelhos sismológicos. (O Tripeiro, V, XV, p. 374). O aparelho sismográfico foi instalado pela firma italiana Francianelli Luigi, em 1912, já sob a direção do professor Sousa Pinto.
Em Março de 1912 o professor Paula de Azeredo pediu a sua exoneração e foi substituído pelo professor Alexandre de Sousa Pinto que exerceu a direção até Março de 1918.

2. Da mudança de designação no período republicano ao encerramento provisório (1913-1920)

Em Janeiro de 1913 o Observatório Meteorológico Princesa D. Amélia, ganhou nova denominação, mais consentânea com o novo regime, passando a designar-se por Observatório Meteorológico da Serra do Pilar.
Entretanto, ao longo do tempo, foi cumprindo, sem alterações significativas, o calendário de observações meteorológicas, transmitindo ao Observatório Central os dados a que estava obrigado.
Em Maio de 1913 foi firmado um acordo com a estação dos CTT da Praça da Batalha em que o Observatório da Serra do Pilar passou a dispor de uma linha telefónica direta para enviar à estação da Ajuda, em Lisboa, os dados meteorológicos. (O Tripeiro, VI, III, p. 156). Por essa mesma linha, que funcionava em sinal aberto duas vezes por semana, em determinada hora previamente combinada, era recebido do Observatório da Tapada da Ajuda a chamada hora legal. Refira-se que anteriormente, em Vila Nova de Gaia, a hora legal era calculada por meio da observação das estrelas e essa prática passou a ser considerada pouco fiável. Por essa mesma linha, que funcionava em sinal aberto duas vezes por semana, a determinada hora, era recebido do Observatório da Tapada da Ajuda a chamada hora legal, já que em Vila Nova de Gaia ela era anteriormente feita por meio da observação das estrelas e essa prática passou a ser considerada pouco fiável. Este serviço era de toda a conveniência para os relojoeiros, marinha mercante, repartições públicas e particulares e viação terrestre que recorriam ao Observatório da Serra do Pilar para regulação de relógios e cronómetros.
Em 21 de Maio de 1914 ocorreu um eclipse parcial do sol, seguido por milhares de pessoas na região portuense e o fenómeno foi seguido no Observatório da Serra do Pilar por vários cientistas.
Em 1918 o diretor, professor Sousa Pinto, pediu licença sem vencimento e foi substituído interinamente pelo professor Aarão de Lacerda. A sua direção durou até 1920, ano em que pediu escusa do lugar; teriam pesado nesta decisão graves problemas de indisciplina, por parte de alguns colaboradores menores do Observatório.
O professor Aarão de Lacerda foi substituído interinamente pelo professor Álvaro Machado que iniciou funções a tentar resolver a pendência existente entre o pessoal menor. Este problema causou um enorme mau estar contribuindo para o pedido de demissão de dois observadores técnico-científicos ficando somente um observador ajudante que, com redobrado esforço, manteve o registo das observações nas condições anteriormente fixadas.
Esta direção interina durou escassos 5 meses já que, por ordem ministerial, o Observatório foi encerrado em 1 de Setembro de 1920.

3. A degradação das instalações e a ideia de retirar o Observatório do território gaiense. (1921-1922)

O encerramento do Observatório terá sido uma decisão política, fruto do ambiente de desordem que nele se criou e da situação de instabilidade que o país viveu. Porém o desinvestimento a nível de instalações e equipamentos era já uma realidade, sobretudo durante o período das direções interinas.
O encerramento das instalações durante o período de 18 meses levou à degradação das mesmas, nomeadamente a nível dos telhados o que provocou avarias na aparelhagem afeta às observações meteorológicas. Houve também assaltos com vandalismos e furtos nas instalações.
Entretanto a Direção do Observatório e o Conselho da Faculdade de Ciências reclamaram da decisão de encerramento por um simples incidente disciplinar, o que, segundo eles, colocaria em causa todo um trabalho ininterrupto de três décadas de medições. As longas insistências surtiram o seu efeito e em 20 de Fevereiro de 1922 o Observatório foi reaberto.
Face à necessidade de obras foi feita uma avaliação do seu montante, a submeter à aprovação superior. Entretanto começou a questionar-se, de novo, a localização do Observatório apontando-se limitações e deficiências que aconselhariam a escolha de outro local e a não realização das obras de beneficiação. Nesse sentido o Conselho da Faculdade de Ciências, instado a pronunciar-se, propôs que fossem encetadas diligências com a autarquia portuense, na procura de um terreno para a edificação do novo observatório e que as instalações e terreno da Serra do Pilar fossem alienados e o produto da transação fosse aplicado na construção do novo observatório. Embora o terreno fosse conseguido, o projeto foi inviabilizado já que o Ministério da Guerra não autorizou a alienação a particulares do terreno e instalações da Serra do Pilar em virtude de o terreno ter sido cedido para um fim exclusivo e estar sob reserva militar. Ainda foi pensada a hipótese de ser para ali transferida a Escola de Desenho e Cerâmica de Vila Nova de Gaia criada na década de 60 do séc. XIX nas instalações da Fábrica de Cerâmica das Devesas e a funcionar, nesta fase, em instalações degradadas; contudo também esta hipótese saiu gorada já que o responsável por essas diligências e diretor interino do Observatório, Professor Álvaro Machado, foi destituído do seu lugar tendo sido substituído pelo engenheiro e tenente-coronel de cavalaria João Rodrigues Ascensão.

4. O abandono da ideia de deslocalização e o investimento no Observatório da Serra do Pilar (1922-1926)

O insucesso da tentativa de deslocalização ditou como melhor solução a beneficiação das instalações do observatório gaiense. Na sua direção, que durou até Fevereiro de 1926, o Engº Ascensão, mandou proceder a obras de reparação dos edifícios e da cerca cuja ruína permitia o acesso de estranhos. Deu também especial atenção à casa do guarda, que adaptou a residência do diretor, e à mata da cerca onde procedeu à plantação de mais de um centenar de árvores sendo boa parte delas árvores de fruto. Tratou ainda da regularização e pavimentação dos arruamentos, da colocação de placa identificativa no portão da entrada, do arranjo da canalização da água cedida pelo quartel (da nascente do Agueiro) e da iluminação pública da entrada. Ao contrário do habitual defendia que o diretor e o guarda deviam ter residência obrigatória no observatório. Quanto ao resto o observatório foi cumprindo a sua principal missão no que se refere a observações e registos meteorológicos sempre com as habituais carências de aparelhagem.

Sala de Fundo Local, Novembro 2012