sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O Observatório da Serra do Pilar (I) – antecedentes

Fotografia do fundador e 1º
diretor, Soares Andrea


Os estudos astronómicos e meteorológicos em Portugal

Em Portugal, as primeiras referências a observações meteorológicas surgiram no século XVII, de uma forma isolada e individualizada. De entre os estudiosos de meteorologia destacou-se o médico portuense Dr. José Bento Lopes que no ano de 1792, recolheu dados meteorológicos diários na cidade do Porto.
Na sua maioria, as observações eram feitas por académicos, médicos ou professores de Física, que faziam leituras meteorológicas associadas à Saúde Pública. Na Academia Real da Marinha e Comércio também se faziam observações mas ligadas ao estudo da náutica e da astronomia.

A criação do 1º Observatório do Porto (1853)

No sentido de melhorar as observações que até então se faziam e as instalações onde as mesmas eram efetuadas - na sua maioria careciam de qualidade relativamente às existentes fora do país - foi criada em 1853, na ala Sul do Hospital de Santo António, na antiga sede da Escola Médica, uma estação meteorológica, designada por Observatório da Escola Médica do Porto. Constituiu o “primeiro estabelecimento oficial onde se começaram a fazer observações meteorológicas regulares”, desempenhando um importante papel no ensino das ciências médicas, em especial a disciplina de Higiene.

A criação do Observatório D. Luís (Brito Capelo - 1854)

O objetivo de criar um Instituto meteorológico onde se pudessem fazer seguidas e ininterruptas observações, como já se faziam noutros países cientificamente mais desenvolvidos, foi conseguido em 1854. Em Lisboa, é criado um novo observatório onde estava sediado o Observatório Astronómico da Academia da Marinha, pelo docente de Física, Dr. Guilherme José António Dias Pegado, com o nome de Observatório da Escola Politécnica de Lisboa. Para o auxiliar, constituiu uma equipa de técnicos habilitados, nomeando para o efeito, como seus colaboradores, dois segundos tenentes da armada da Marinha de Guerra, o engenheiro hidrógrafo João Carlos de Brito Capelo e F.M. Gama Lobo. Era uma equipa coesa e dedicada, apoiada financeiramente pela Escola, pelos poderes públicos e com a proteção da família real.
Em 1 de Julho de 1856, Dias Pegado, na qualidade de apadrinhado real, propõe que o referido observatório se designasse Observatório Meteorológico do Infante D. Luís. Mais tarde, a Direção do Observatório é entregue a Brito Capelo, então capitão tenente da armada, por decreto do Governo em 1875. O Observatório da capital tinha como principal serviço dar aviso a pescadores e navegantes por meio de sinais, das probabilidades de mau tempo. Em 1888 começou-se a transmitir sinais de prevenção do tempo a determinados postos espalhados pelo país, perto de baías, que por sua vez transmitiam aos navios que por lá passavam.
Pelo país, a partir de 1876, estabeleceram-se postos meteorológicos, sob orientação e financiamento do Observatório de Lisboa, nomeadamente nas cidades de Beja, Bragança, Campo Maior, Guarda, Lagos, Moncorvo, Porto, Funchal e Montalegre.

Observatório da Serra do Pilar (1885)

Na cidade do Porto é criado um outro posto de observação meteorológico, no monte da Serra do Pilar (outrora denominado de Quebrantões), em Vila Nova de Gaia. Inicialmente tinha a designação de Posto Meteorológico e Magnético do Porto e mais tarde foi intitulado pelo topónimo como Observatório da Serra do Pilar. Este posto meteorológico, com casa adjunta para observação do sol e casa magnética, teve como fundadores o então diretor do Observatório de Lisboa, Brito Capelo e o seu amigo e colega, também ele capitão tenente da armada e engenheiro hidrógrafo, José Maria de Sousa Soares Andrea Ferreira. Foi questionada a pertinência da criação deste observatório quando na cidade já existia um, mas não existe explicação para tal. A dicotomia que prevalecia para defesa da sua tutela, era de um lado, a parte académica, dependente dos serviços técnicos e administrativos dos professores de Física e do outro lado, os oficiais da Armada da Marinha de Guerra que dirigiam os observatórios do país.

O primeiro diretor, Engº Soares Andrea e locais para implantação do observatório:

José Maria Soares Andrea Ferreira, amigo e colega de Dias Pegado é convidado a dirigir o Observatório em questão e foi destacado para o Porto. A sua incumbência inicial foi a de avaliar as diferentes condições físicas do terreno concedido pelo Ministério da Guerra, no lugar da Serra do Pilar, próximo ao Mosteiro. Desta avaliação constava analisar a altitude, exposição a ventos, colocação de aparelhos de medição e as condições de construção do próprio edifico. Perto do mesmo, encontrava-se a laborar a Fabrica de Sulfureto de Carbono, que além da poluição e maus cheiros que provocava, danificava a vegetação em redor e os fumos afetariam definitivamente os trabalhos científicos que se propunham fazer. Desagradado, Soares Andrea procura a todo o custo outros locais para a construção deste observatório, de preferência num local alto, limpo e com as condições que segundo ele seriam as ideais para um Observatório Meteorológico. Percorreu inúmeros lugares junto da cidade do Porto e em Gaia, em particular o lugar do alto do antigo Castelo de Gaia, cujo proprietário era um particular que lhe exigiu um avultado valor do qual não dispunha assim como outro terreno no Monte de Santo Ovídio Velho, mas que não o satisfez plenamente. Sem opções válidas, na sua maioria por razões financeiras ou logísticas, voltou novamente para o lugar da Serra do Pilar e as obras de construção tiveram início em 1883.
Era necessário guardar um certo espaço em volta do edifício e a cedência de uma porção de água do Aqueduto da Serra. Em 17 de Julho de 1885, na Direção das Obras Públicas do Distrito do Porto, é lavrado o auto de entrega do Posto Meteorológico e Magnético da Cidade do Porto, no lugar da Serra do Pilar e entregue ao seu diretor, Eng.º Soares Andrea, publicado em portaria de 9 de Junho de 1885.
O ano de 1885 é considerado a data de fundação do Posto Meteorológico da Serra do Pilar o qual mais tarde teve a designação de Observatório Meteorológico Princesa D. Amélia até 1913, data que marcou nova alteração de nome, como Observatório Meteorológico da Serra do Pilar.
As primeiras dificuldades com que Soares Andrea se confrontou foi com a falta de apoio financeiro do Observatório Central para apetrecharem de equipamentos de leitura o novo observatório. Tentou obter gratuitamente uma pêndula e uma luneta meridiana, pedida à Câmara Municipal do Porto e Associação Comercial do Porto em 1883. Estes aparelhos permitir-lhe-iam fazer as observações das estrelas e regular a pêndula para poder dar informações certas da hora local a quem lhe solicitasse. Estes materiais eram fundamentais para o bom desempenho do observatório no entanto sem os mesmos, o seu trabalho estaria comprometido. O papel de fornecer a hora oficial era assumido até então pelo Real Observatório Astronómico de Lisboa e cuja responsabilidade este não pretendia abdicar. Soares Andrea foi orientado a que se cingisse criar uma estação cronométrica destinada à regulação dos cronómetros dos navios aportados na cidade do Porto, e que deviam ser regulados pela hora legal nacional. O diretor do observatório via-se desanimado com as faltas de equipamentos, de recursos humanos e com o problema da fábrica de sulfureto de carbono. Apesar dos seus insistentes pedidos para a sua desativação, que no seu entender fora ilegalmente construída numa zona residencial, todas as suas diligências foram infrutíferas, o que o levou a tomar medidas drásticas - em certas épocas do ano ou dias retirava os funcionários a fim de evitar a inalação dos vapores.
Em quinze anos de dedicação na Direção do Observatório Meteorológico da Serra do Pilar, Soares Andrea conseguiu organizar um serviço meteorológico minimamente equipado e apoiado por um quadro habilitado de recursos humanos, resultado de uma eterna luta para responder ao rigor que ao próprio se impunha àqueles a quem prestava este serviço publico.
Desde junho de 1886 que se começaram a publicar Boletins Meteorológicos e os primeiros registos impressos são as Observações Diretas e Gráficos de Registo que datam de 27 de outubro de 1887. As observações eram feitas quatro vezes ao dia, às 9:00 h, meio-dia, 15 horas e 21 horas, através do barómetro, termómetro (…); vento (rumo e velocidade); nuvens (configuração e quantidade) ”. Registavam-se também a leitura “dos termómetros de relva e sol; evaporímetro (evaporação); udómetro (humidade); ozono; força do vento; trovoada; relâmpagos; neve, geada, saraiva, gelo, orvalho; coroa solar; halo solar; arco-íris (…) e estado geral do tempo”. As observações diárias eram transmitidas ao Observatório do Infante D. Luís, às 9:20h da manhã, pelo telégrafo e as outras horas do dia em folhas mensais impressas.
Em Outubro de 1898, Soares Andrea apresenta queixa do conselheiro F.J.B. Ferreira do Amaral, capitão da fragata e Diretor da Escola de Alunos Marinheiros do Porto, ao Diretor do Observatório Infante D. Luís, aos ministros da Marinha, Reino e Rei da desconsideração pessoal, indisciplina, injustiça e abuso de autoridade praticados pelo mesmo. Em 27 de Julho de 1900, o capitão-tenente António da Fonseca Sarmento apresenta-se como diretor interino, com um ofício do Diretor Geral da Instrução Pública, surpreendendo Soares Andrea, sem saber que se encontrava demitido por decreto, desde o dia 19 desse mês, ditando-se, por infelicidade do destino, o seu falecimento no ano seguinte, em 1901.

Sala de Fundo Local, Novembro 2012