segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Álvaro Cabral - O ator e autor gaiense que compôs a “Samaritana”

            Samaritana – Fado – Canção                     
Partitura da “Samaritana”
Local: Mafamude

Data: 1865-1918

Sinopse: 

Nascido na freguesia gaiense de Mafamude, Álvaro Augusto Cabral da Cunha Godolfim de Maia Figueiredo (1856-1918), artisticamente conhecido como Álvaro Cabral, foi um grande ator que pisou os melhores palcos de Portugal e do Brasil ao serviço de grandes companhias de teatro. Foi também autor de revista, secretário e diretor de cena. O seu nome ficou imortalizado por ter sido o autor e compositor do conhecidíssimo fado-canção, adotado pelo academia coimbrã, intitulado “Samaritana”, de cuja letra aqui reproduzimos as quadras iniciais:

Dos amores do Redentor                                     Samaritana,
Não reza a História Sagrada                                 Plebeia de Sicar,
Mas diz uma lenda encantada                               Alguém espreitando
Que o Bom Jesus sofreu d’amor                           Te viu Jesus beijar

Sofreu consigo e calou                                         De tarde quando
Sua paixão divinal,                                               Foste encontrá-lo só,
Assim como qualquer mortal                                Morto de sede
Que um dia d’amor palpitou                                  Junto à fonte de Jacob.

Vida e obra - Nascimento e criação na Rua da Bandeira (Mafamude)
Nasceu na Rua da Bandeira (freguesia de Mafamude), em 22 de Junho de 1865, filho de Álvaro Caetano Cabral e Maria Carlota Cabral. Os pais, naturais de Lisboa, ter-se-ão fixado em Vila Nova de Gaia pouco antes já que o pai era empregado da então recém-inaugurada linha de caminho-de-ferro. Alguns anos mais tarde devem ter regressado ao sul já que o filho Álvaro Cabral casou aos 21 anos, em Lisboa, na freguesia de Santos O Velho, com D. Margarida Emília de Paiva.

A vida artística
A parte mais conhecida da sua vida diz respeito à sua vida artística. Ter-se-á estreado como ator no teatro da Rua dos Condes, em Lisboa, na noite de 18.03.1890, na revista “Tim-Tim por tim-tim”, de Sousa Bastos. Refira-se que esta revista, da autoria de Sousa Bastos, foi considerada a revista mais popular nos finais do séc. XIX.
No ano seguinte Álvaro Cabral deu entrada no Teatro D. Maria II onde foi incorporado na Companhia da empresa “Rosas & Brasão”. Em 1898 esta empresa foi obrigada, por decisão governamental, a deixar o Teatro D. Maria, tendo sido acolhida no recém-criado Teatro D. Amélia (depois Teatro da República e hoje Teatro Municipal S. Luís), pelo seu criador o empresário Visconde de S. Luís Braga. Álvaro Cabral acompanhou, na mudança, a empresa Rosas & Brandão e permaneceu no novo teatro até 1905, ano em que se transferiu para a companhia do “Teatro da Avenida” onde permaneceu largos anos como ator e secretário da empresa.
Em 1911, na sua edição de 21 de Junho, o jornal “O Século” ao anunciar a realização, no Teatro das Variedades, duma festa em benefício do ator Álvaro Cabral refere que vai ser representada “a chistosa e magnífica revista Pó de Perlimpimpim, que em receitas sucessivas tem feito o maior sucesso de gargalhada e de concorrência” informando ainda que à “ récita assistem todos os intelectuais e artistas da nossa terá, isto é, a camada que mais aprecia o muito valor e talento de Álvaro Cabral.
Participou na revista “O 31”,que estreou em 26.07.1913, sendo um dos atores (entre 8) que representou o papel de 31. A peça esteve em cena durante 4 anos, num total de 2000 representações, feitas em 12 teatros de Lisboa, Porto, Rio de Janeiro, S. Paulo, Santos; Baía e Pernambuco.

Uma vida devotada ao teatro
Foi também ator e diretor em várias companhias de teatro em digressão pelo Porto e outras cidades de província, como era, aliás, muito usual na época.
Como autor escreveu a peça “Peço a Palavra”, escrita em colaboração com João Bastos e estreada em 1911; segundo Luís Francisco Rebelo nesta peça o “prólogo, localizado no céu, é pretexto para um comentário jocoso à mudança de regime”. Trata-se de uma revista em 2 atos e 6 quadros, musicada por Tomás Del- Negro, a qual hoje faz parte do acervo documental do Arquivo Distrital do Porto.
Em colaboração com Penha Coutinho escreveu também a peça “Santo António de Lisboa”, musicada também por Tomás Del-Negro, conservando a fonoteca da Câmara Municipal de Lisboa o respetivo registo áudio, a saber:  Couplets do fura-fura (revista "Festas a Stº António em Lisboa") / [intérp.] Olívia;  Mangerico e cravo de papel (revista "Festas a Stº António em Lisboa") / [intérp.] Olívia; Alcachofra (revista "Festas de Stº António em Lisboa") / [intérp.] Marina Mota.
Foi ainda autor de duas comédias, num ato, intituladas “Uma teima” e “O Pai da Criança”, escritas em 1890 e 1911, respetivamente. Nas palavras de Sousa Bastos, Álvaro Cabral foi um escritor “gracioso, correto e cheio de verve”.

O fado-canção “Samaritana”
A “Samaritana” é hoje um dos ex-libris do fado coimbrão; provavelmente Álvaro Cabral, autor da letra e da música, estaria longe de pensar que a canção que compôs viria a ser adotada pela academia coimbrã e ganharia tanta popularidade. A composição poética original foi reduzida pelo cantor e narra o episódio bíblico da mulher samaritana a quem Jesus pediu água para beber, junto ao chamado poço de Jacob. A composição terá sido feita em 1914 e a grande referência é a interpretação de Edmundo Bettencourt, um poeta e cantor que renovou a canção de Coimbra e pertenceu ao grupo da “Presença”, do qual saiu em rutura juntamente com o escritor Miguel Torga. Esta versão foi gravada em 1928, no Porto, e tinha acompanhamento instrumental, entre outros, de Artur Paredes (pai do célebre Carlos Paredes). À data existiam já três versões deste fado-canção, a última das quais (e única datada) é de 1922, o que marca a enorme recetividade da “Samaritana”. Ao longo de quase um século de existência esta canção emblemática da academia coimbrã foi interpretada por vários cantores ligados àquela academia e, mais recentemente, por um cantor do chamado fado de Lisboa.
   
O lugar da memória
Esta multifacetada figura das artes da representação faleceu prematuramente no Porto, no hospital do Bonfim, no dia 18 de Março de 1918. Foi atingido pela tristemente célebre pneumónica quando se achava na capital nortenha, em pleno labor, como primeiro ator e diretor de cena da companhia de Luís Ruas que trabalhava no Teatro Nacional de S. João representando a revista “Papagaio Real”. Fora dos palcos Álvaro Cabral era conhecido por ser um homem de bom trato, alegre cavaqueador e grande boémio.
Foi esta personalidade do mundo da cultura, nascida em terras gaienses e cidadão do mundo, cuja figura, por permanecer ignorada do grande público, aqui pretendemos dar a conhecer e evocar.

Remissivas: Personalidades gaienses/ Mafamude/autores gaienses/Teatro.

Bibliografia:

. Arquivo Distrital do Porto, Registos Paroquiais: Batismos/Mafamude: 1864.
. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. V, Lisboa, Editorial Enciclopédia, p. 301. *
. Ilustração Popular, 1914-1916. *
. Ilustração Portuguesa, nº 664 de 11.11.1918.
. Jornal “A Risota”, Ano I, nº 10, de 3 de Maio de 1908.
. Jornal “O Século”, n.º 10605, de 21 de Junho de 1911, p.3.
. O Tripeiro VI, VIII, 1918, p. 320 *
. REBELO, Luís Francisco - 100 anos de teatro português (1880-1990), Porto, Brasília Editora, 1984, p. 54.*
. RODRIGUES, Pedro Alexandre Caldeira: Ernesto Rodrigues, um homem do Teatro na I República, Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2007 (Dissertação de mestrado em História e Cultura Europeia Contemporâneas).
* Pertença do acervo bibliográfico da BPMVNG

Webgrafia: (visualizada em 20.08.2012)

 Sala de Fundo Local, Agosto de 2012