terça-feira, 24 de abril de 2012

Fundição de bronze: um património artístico gaiense (IV) – Fundições artísticas na atualidade (IV): a Fundição Bernardino Leite


         “Os Perseguidos”,  do escultor Anjos Teixeira (Almada)
- um trabalho da Fundição  Bernardino Inácio (1979).


“Homem do Leme”, do escultor Américo Gomes  (Foz, Porto)
 -um trabalho da Fundição Bernardino Inácio (1937).

Anúncio publicitário da Fundição Bernardino Inácio

Local: Gulpilhares

Data: sécs. XX/XXI

Sinopse: Na sequência do tema encetado cabe-nos hoje fazer um historial desta oficina de fundição que foi herdeira da tradição das primeiras oficinas de bronze artístico gaiense. Nascida em 1933 em Gulpilhares ainda labora hoje nas mãos da terceira geração da família.

A fundação
A firma que hoje adota a denominação social de “Bernardino – Fundição d’Arte Ldª”  foi fundada em 1933 por Bernardino Inácio Leite. O seu fundador fez o tirocínio na Fundição Sá Lemos de onde saiu para se estabelecer em Gulpilhares.
Trata-se da mais antiga oficina de fundição de arte em Portugal tendo ao longo de mais de três quartos de século produzido autênticas obras de arte espalhadas pelos vários continentes. Com a Fundição Bernardino trabalharam, entre outros, escultores como Leopoldo de Almeida, Henrique Moreira, Barata Feyo, Irene Vilar, Martins Correia, Gustavo Bastos, Paulo Neves e Gil Teixeira Lopes.
A gerência atual está nas mãos de Carlos Bernardino, neto do fundador, o qual conviveu desde tenra idade com o ambiente artístico e o quotidiano da oficina. A empresa faz a preparação de moldes em gesso e aplica na fundição as técnicas de areia e cera perdida. O espaço da oficina mantém ainda parte da sua ambiência fundacional, nomeadamente o chão em terra batida, por questões de operacionalidade.
Embora sejam conhecidos os nomes dos escultores que têm trabalhado com esta fundição, acima descritos, são (infelizmente) desconhecidos os registos dos monumentos que nela foram passados ao bronze. Tal dever-se-á ao facto de a empresa não “assinar” as suas obras, o que dificulta o trabalho do historiador de arte, ou as fichas técnicas das obras de arte não terem dado, durante muito tempo, reconhecida importância ao fundidor.

Duas obras de referência:
      Homem do Leme
Esta escultura, imortalizada na canção dos “Xutos e Pontapés”, encontra-se no jardim da Avenida de Montevidéu, freguesia de Nevogilde, na cidade do Porto. É um trabalho da autoria de Américo Gomes (1880-1964), escultor portuense que foi discípulo do escultor gaiense de arte sacra José Fernandes Caldas. O “Homem do Leme” é datado de 1934 e o respetivo original, em gesso, foi apresentado na  Exposição Colonial do Porto desse ano; presentemente encontra-se exposto no Museu Marítimo de Ílhavo. A propósito desta escultura e do seu autor o Mestre Teixeira Lopes escreveu: “O Homem do Leme tem caráter; O seu autor possui talento incontestável”.
De acordo com Rogério Ribeiro a escultura em gesso corria risco de se perder, após a exposição e, em boa hora, uma comissão de grandes nomes da cultura do Porto angariou os fundos para que se perpetuasse no bronze. Segundo o mesmo autor “O gesso em que fora executada a figura do mareante foi passado ao bronze na oficina de Bernardino Inácio, sem dúvida uma das mais conceituadas oficinas de fundição artística do tempo. Estava-se já no ano de 1937”.
Os Perseguidos
A obra que apresentamos, do escultor Anjos Teixeira (1908-1997), intitula-se “Os Perseguidos” e foi inaugurada em 24 de Junho de 1979, na Praça do Movimento das Forças Armadas (antiga Praça da Renovação), na cidade de Almada. Numa homenagem do Povo de Almada é dedicada “Aos que deram a liberdade e até a própria vida pela liberdade dos outros”. O grupo escultórico apresenta numa linguagem naturalista os corpos nus de um homem e uma mulher, lado a lado, em posição de agachamento e mostrando uma expressão de apreensão. O bronze tem a altura de 2 metros e foi fundido na Fundição de Bronzes Artísticos Bernardino Inácio Leite.
Aqui fazemos a evocação de uma das mais importantes oficinas de fundição de arte com sede no nosso concelho.

Remissivas: A arte em Vila Nova de Gaia/Fundições de arte/Fundição Bernardino Inácio Leite.


Bibliografia:
. PEDROSA, David - A arte de fundir em bronze: glória de Vila Nova de Gaia que tende a desaparecer, In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. - Vol. 1, n.º 10 (Maio, 1981), pp. 24-29.
 . RIBEIRO, ROGÉRIO - O Homem do Leme, in O Tripeiro, 7ª Série, Ano XII, Nº   6, (Junho 1993), pp. 162-168.
. SANTOS; Agostinho - Do Bronze se faz arte. In Jornal de Notícias, de 2008.11. 08.

Webgrafia:
  http://almadaflores.blogs.sapo.pt/2012/03/.
                     Sala de Fundo Local, Abril de 2012