sexta-feira, 2 de março de 2012

Fundição de bronze: um património artístico gaiense (I) - Uma obra de fundição gaiense em terras de Santa Cruz: a estátua equestre de D. João VI no Rio de Janeiro

Estátua equestre de D. João VI na Praça XV do Rio de Janeiro

Estátua equestre de D. João VI. O pormenor da coroa real

Estátua equestre de D. João VI – réplica existente na cidade do Porto 
(anterior à alteração do pedestal)

Estátua equestre de D. João VI no Porto – Praça Gonçalves Zarco

Local: Rua Conselheiro Veloso da Cruz (Santa Marinha)

Data: séc. XX (1965)

Sinopse: A estátua equestre de D. João VI, que a imagem documenta, ergue-se, altiva, na Praça Quinze da cidade do Rio de Janeiro (o antigo Largo do Paço ou Rocio do Carmo), num local conquistado ao mar onde se situava a estação das barcas e, em 7 de Março de 1808, desembarcou a família real portuguesa para fugir à invasão das tropas napoleónicas. O monumento, da autoria do escultor Barata Feyo e do arquiteto Carlos Ramos, foi oferecido pelo governo português à cidade do Rio de Janeiro, por ocasião do IV Centenário da Fundação daquela cidade. Foi inaugurado no dia 10 de Junho de 1965, dia de Camões e (à época) “Dia da Raça” (hoje dia de Camões e das Comunidades Portuguesas) e destinou-se a comemorar o ato fundacional da cidade, as boas relações luso-brasileiras e um percurso comum da história dos dois países aqui personificado na pessoa do rei D. João VI.
 A fundição da obra escultórica foi executada em Vila Nova de Gaia, por artífices da Oficina José de Castro Guedes (antiga Fundição de Arte da Empresa Teixeira Lopes), sita à Rua Conselheiro Veloso da Cruz.

Uma réplica da estátua na cidade do Porto. 
Existe uma réplica desta estátua na cidade do Porto, na Praça Gonçalves Zarco, com o monarca estrategicamente voltado para o oceano. Francisco Sá Lopes reconhece similitudes, no discurso escultórico, com a estátua de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade, da cidade do Porto. Considerou, de igual modo, uma motivação política do governo salazarista na encomenda da estátua onde se pode encontrar uma “iconografia baseada no tema ‘Fé e Império’ expresso no globo encimado por uma cruz que o rei estatuado ostenta na mão direita, símbolo da confusão entre poder político e religião que então se cultivava, na época do estatuado e na época da encomenda da estátua”.

A estátua de D. João VI no Rio de Janeiro
A estátua equestre da cidade do Rio de Janeiro está colocada num lugar central da cidade, não muito longe da estátua de Tiradentes, o herói nacional brasileiro que esteve preso justamente na antiga cadeia que havia nesta praça colonial. O seu discurso escultórico segue o estilo tradicional das estátuas equestres representando D. João VI montado sobre num cavalo lusitano, em apoio trípode, segurando na mão direita um globo encimado pela cruz e as rédeas à mão esquerda. A escultura em bronze, com as dimensões de 5,2 x 2,25 x 6,00 m, apoia-se em pedestal de granito, com uma altura de 2,30m, tendo na parte frontal a coroa real e os dizeres “D. João VI”.  O historiador brasileiro N. Carvalho refere que por devoção a Nossa Senhora da Conceição os monarcas portugueses, após a Restauração, deixaram de usar a coroa real e o escultor registou simbolicamente este gesto de humildade na figura do globo encimado pela cruz que o estatuado segura na mão direita. Daí que a coroa real ganhou autonomia no pedestal e completa a leitura do registo escultórico. Aquele autor refere ainda que na fundição foi reutilizado bronze de antigos canhões históricos, facto que não é consensual e que abaixo abordaremos. Refira-se que a ideia de construção de uma estátua a D. João VI para a cidade do Rio de Janeiro data de 1811. A estátua que chegou a ser encomendada ao escultor Joaquim Machado de Castro (e da qual existe desenho e processo na Torre do Tombo/Academia Nacional de Belas Artes) seria do tipo pedestre, com inauguração prevista para a data da sua aclamação como rei; contudo, não chegou a concretizar-se.

A fundição da estátua vista por um jornal gaiense
Sob o título “A estátua equestre de D. João VI para o Brasil é obra da indústria de Vila Nova de Gaia” publicou o jornal “O Gaiense”, de 1 de Março de 1965, circunstanciada notícia. É referido que a Oficina de José de Castro Guedes, encarregada da execução da estátua de Barata Feyo, foi visitada, no dia 17 de Fevereiro de 1965, pelo Chefe do Estado-Maior do Exército; recebido pelo sócio Vicente Nogueira Guedes o General Câmara Pina pôde inteirar-se do andamento dos trabalhos. 
Em relação à estátua é descrito que “só de bronze serão utilizadas na sua fundição quatro toneladas e meia que o Exército fornece das peças antigas, aplicado o trabalho de 20 operários, leva dois meses e meio a ficar pronta e medirá seis metros e meio de altura”. Porventura estará aqui a resposta à dúvida que tanto intrigou os historiadores sobre a origem do bronze reutilizado e do facto de ser ou não de canhões históricos.
Refira-se que esta estátua, fundida em Vila Nova de Gaia, foi transportada a bordo do vapor “Paraguai Star” e chegou ao Rio de Janeiro no dia 30 de Maio de 1965.
Aqui evocamos o labor artístico dos artífices gaienses de fundição e uma das fundições de arte mais prestigiadas, com vasta obra espalhada por vários continentes, que aqui trataremos, com particular detalhe, em próximos estudos.

Remissivas: A arte em Vila Nova de Gaia/Fundições de arte/Firma José de Castro Guedes.

Bibliografia:
. CARVALHO, N. - Praça XV e arredores. Uma história em cinco séculos, Rio de Janeiro, Arte & História – Livros e Edições Ldª, 2000.
. COLCHETE Filho - Praça XV – projetos do espaço público. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.
 . Jornal “O Gaiense” de 1 de Março de 1965.
. PEDROSA, David - A arte de fundir em bronze: glória de Vila Nova de Gaia que tende a desaparecer, In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. - Vol. 1, n.º 10 (Maio, 1981), pp. 24-29.
. PT/ANBA/ANBA/F/001/00001.  

Webgrafia:
. http://cavalonet.com/pt/noticias/noticias2.php?id=750  [consultado em 2012.02.20] Texto de Francisco Sá Lopes.
                       Sala de Fundo Local, Fevereiro de 2012