segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Real Tipografia e Litografia Lusitana – a “rainha” das artes gráficas em Vila Nova de Gaia


A Real Tipografia e Litografia Lusitana na época da fundação. (B.A.C.A.G., VI, 41, p. 41)


Imagem atual das antigas instalações da “Lusitânia”. (fot. António Conde)

Um trabalho da Litografia Lusitana, de 1910 

                     Um dos selos executados pela “Lusitana” em 1925

Local: Lugar do Torne (Rua Elias Garcia)

Data: séc. XX (1ª metade)

Sinopse: Existiu esta importante casa de artes gráficas na antiga zona industrial da Serra do Pilar, no ângulo das Ruas Elias Garcia (antiga Rua do Dr. Avides) e Afonso de Albuquerque, em instalações construídas de raiz, no início do séc. XX, por Apolino da Costa Reis. O edifício original ainda existe em razoável estado de conservação apesar de algumas alterações funcionais.

A fundação da “Lusitana” no Porto
A Litografia Lusitana foi fundada no Porto em 1865 na antiga Rua D. Fernando, nas traseiras do Palácio da Bolsa. A sua oferta de trabalho dirigiu-se para as empresas de vinho do Porto muitas das quais tinham a sua sede na zona ribeirinha do Porto. Vivia-se um período áureo de exportação de vinhos do Porto para o mercado brasileiro pelo que as respetivas empresas encomendavam às litografias grande quantidade de rótulos, de brindes publicitários, de bilhetes-postais, livros, etc. Entre os grandes clientes da “Lusitana” estava a Real Companhia Vinícola (que encomendava mais de 200 mil rótulos por mês), a Casa Ramos Pinto, a Constantino, a Rocha Leão, etc.
As litografias portuguesas sofriam uma forte concorrência da indústria litográfica alemã, quer a nível de preços, quer a nível de qualidade. Contudo a Litografia Lusitana conseguiu afirmar-se num mercado tão competitivo.
Em 1877 foi agraciada com o título de Real, por decreto de 14 de Novembro, passando a designar-se Real Tipografia e Litografia Lusitana.
Participou em grandes feiras e certames tendo sido medalhada com prata na Exposição Vitícola do Palácio de Cristal em 1880, com diploma de assistência na Exposição Industrial Portuense do Palácio de Cristal de 1891-1892 e com medalha de ouro na Exposição Industrial de Vila Nova de Gaia de 1894. No estrangeiro participou na Exposição de Paris e na Exposição de S. Luís nos Estados Unidos onde recebeu uma medalha de ouro.
A “Lusitana” nas palavras do seu fundador
Num folheto de propaganda que fez circular publicamente assim se referia Apolino da Costa Reis à “Lusitana”:
 “Este estabelecimento, primitivamente fundado na Cidade do Porto em 1865 e actualmente instalado em Vila Nova de Gaia, rua do Dr. Avides 125 a 129, em amplos edifícios expressamente construídos, correspondendo à melhor higiene e gosando de abundante luz natural, está em condições de executar todos os trabalhos das indústrias graphicas, para o que dispõe de excellente material moderno, proveniente da Allemanha, França e Itália.
Apromptam-se cartazes e reclames commerciaes em branco e a cores, em alto relevo, em photogravura ou chromo, representando costumes e paisagens nacionais que, em pittoresco e beleza, são de encanto superior aos estrangeiros, devendo os clientes fazer as encomendas com antecipação de alguns mezes, para sua perfeita e cabal conclusão. (…)
O proprietário director do estabelecimento, acompanhando a evolução de todas as artes graphicas no estrangeiro, não hesitou em o dotar com todos os processos mais aperfeiçoados, para que os trabalhos justifiquem a aceitação que o illustrado público lhes dispensa e os os jurys dos certames industriais, lhes téem, sem favor e honrosamente, reconhecido”.

A mudança para Vila Nova de Gaia
Em 1877 a Litografia Lusitana foi transferida para Vila Nova de Gaia funcionando em instalações provisórias, provavelmente, na zona da Serra do Pilar. Estão documentados no Arquivo Municipal de Gaia dois processos de construção de prédio para instalação de litografia datados de 1899 (Procº nº 525/1899) e 1905 (Procº nº 108/1905) o que prova que a construção e conclusão do vasto edifício que incluía parte habitacional foram demoradas.
Em 1900 a Lusitana criou uma secção de metalografia, num processo inédito no norte do País, de impressão em folha-de-flandres para latas de conserva.
Em 26 de Novembro de 1908 recebeu nas suas instalações a visita do rei D. Manuel II tendo sido criado uma pagela comemorativa da visita em moldura de estilo Arte Nova em que aparece a fotografia de D. Manuel II sobrepujada pela coroa real (Guimarães, 200, p. 70) e com os dizeres: “Salvé D. Manuel II. Homenagem da Real Typo-Lytographia Lusitana”.

A “Lusitana” depois da morte do fundador
Parece que a “Lusitana” não se ressentiu da morte do fundador ocorrida em 1912. Com efeito os padrões de qualidade e as inovações continuaram a ser um atributo das décadas seguintes. Na década de vinte, mais concretamente em 1925, a empresa, devido à alta qualidade dos seus trabalhos foi escolhida para imprimir os primeiros selos postais. Refira-se que foi a primeira empresa particular portuguesa a receber tal convite, já que, até aí, em Portugal, só a Casa da Moeda havia impresso selos postais. Tal escolha ter-se-á devido à alta qualidade técnica patenteada em trabalhos do género, nomeadamente as vinhetas comemorativas do primeiro centenário da Faculdade de Medicina do Porto ocorrido em 1925.
Uma coisa convém esclarecer: efetivamente já no ano de 1919 a Litografia Nacional tinha imprimido 4 selos de 2,5 réis, 5 réis, 10 réis e 35 réis, com os dizeres e as armas do Reino de Portugal, encomendados por Paiva Couceiro, chefe da Junta Governativa do Reino, no contexto da chamada Monarquia do Norte. Porém o regime foi deposto ao fim de alguns dias e estes selos nunca chegaram a circular, sendo apenas impressos e picotados. Estes selos chegaram aos colecionadores pela simples razão de a oficina da empresa, sita à então Rua de Malmerendas, ter sido assaltada e os selos foram lançados das janelas do Governo Civil ao povo que rejubilava pelo fim do regime. Daí o poder afirmar-se que os primeiros selos a ser impressos por uma empresa particular em Portugal (e que efetivamente circularam) foram os da Litografia Lusitana.

Os selos executados pela “Lusitana”  
À “Lusitana” foram encomendadas, em 1925, duas emissões de selos, Padrões da Grande Guerra, desenhados por Armando Gonçalves. Uma delas representando o “Esforço da Raça”, com data de 8 de Abril de 1925, era de selos de 10 centavos, com as cores rosa, verde, castanho e azul e circulou em 8 e 9 de Abril de 1925 e de 9 a 15 de Dezembro de 1928. Foi utilizado no correio ordinário desde 4 de Janeiro de 1934 a 1 de Outubro de 1945. A outra era de selos de 20 centavos de cor amarelo-laranja. (Cf. Notícias de Gaia de 01.07.1965, pp. 1 e 3).

As edições Apolino e Pátria
Datam da década de trinta estas edições ligadas à Tipografia Lusitana, com obras de Vasco Valente, Luís Chaves, Cláudio Basto, Fidelino de Figueiredo; Guilherme Filgueiras, Luís de Pina, Pedro Vitorino, etc., da coleção Estudos Nacionais, publicadas sob a égide do Instituto de Coimbra.

A segunda fundação e a saída de Vila Nova de Gaia
Em 1941 a Litografia Lusitana foi comprada pelo Comendador Inácio Alberto de Sousa, proprietário da Quinta de Soeime e grande industrial gráfico com ligações à Litografia Nacional. A Lusitana, que acusaria alguma decadência, sofreu melhorias a nível de instalações e modernização no equipamento e na formação do pessoal recuperando prestígio. Contudo o empreendedorismo do novo proprietário e o profundo conhecimento do mercado apontava para a necessidade de novas e modernas instalações compatíveis com os novos tempos.
Assim, em 1947, a Litografia Lusitana, fechou em definitivo as suas instalações em Vila Nova de Gaia, e reinstalou-se no Porto em instalações de raiz construídas na Rua Particular Meneses Russell, à Boavista, para trabalhos de litografia, litografia, fotolitografia e impressão em folha-de-flandres. Tal facto permitiu que a Litografia Nacional, do mesmo proprietário, se especializasse na impressão de selos postais, com coleções que ganharam fama em Portugal e no estrangeiro.
Aqui evocámos esta importante empresa que durante sete décadas trabalhou no nosso concelho e se notabilizou no domínio das artes gráficas.

Remissivas: Litografia Lusitana /Apolino da Costa Reis /Comendador Inácio Alberto de Sousa /Artes Gráficas em Vila Nova de Gaia.

Bibliografia:
. ALVES, Jorge Fernandes Alves - Interesses industriais e Clivagens Associativas. A União dos Industriais do Norte (1897-1900), in Revista de História da FLUP.
. GOMES, Joaquim da Costa - Monografia de Vilar de Andorinho, Vilar de Andorinho, Junta de Freguesia de Vilar de Andorinho, 1993.
.GUIMARÃES, Gonçalves; GUIMARÃES, Susana G. - Retratos Reais da Monarquia Constitucional: das Belas Artes à Arte Publicitária, Vila Nova de Gaia, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 2000.
. Jornal “O Gaiense” de 15.06.1965; 01.07.1965;
. MARÇAL, Horácio - Os títulos de Real e os fornecedores da Casa Real , in O Tripeiro V, IX,  p.  152.
. MOREIRA, R. - Litografia Lusitana. A Primeira a executar selos postais portugueses, in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. VI, nº 41, pp. 41-42.
. O Tripeiro, V, IX, p. 113; VI, II, 286;
. TORRE, António da - Tipo-Litografia Lusitana 1865-1965, in O Tripeiro, VI Série, Vol. V, pp. 122.124.
                                       Sala de Fundo Local, Janeiro de 2012