quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os homens que construíram a Real Tipografia e Litografia Lusitana: Apolino da Costa Reis e Comendador Inácio de Sousa


Edifício onde funcionou a Real Litografia e Tipografia Lusitana  sito à Rua Elias Garcia 
(imagem de António Conde)


Litografia Portuguesa – fundada por João Inácio de Sousa e Sebastião Sousa Sanhudo

Um trabalho da Litografia Lusitana

Calendário da Litografia Lusitana comemorativo do 125º aniversário

Local: Lugar do Torne (Rua Elias Garcia)

Data: séc. XX (1ª metade)

Sinopse: A Real Tipografia e Litografia Lusitana, de que nos ocupámos anteriormente, foi uma das pioneiras na arte da litografia em Portugal. Foi fundada no Porto, em 1865, pela mão de Apolino da Costa Reis e cedo ganhou o título de Real. Nos finais do século inaugurou instalações construídas de raiz em Vila Nova de Gaia, no polo industrial da Serra do Pila e tornou-se numa das empresas mais conceituadas no ramo.
 Alguns anos após a morte do fundador a “Lusitana” foi adquirida pelo comendador Inácio de Sousa, grande industrial das artes gráficas com ligações à Litografia Nacional. Este industrial das artes gráficas e proprietário da Quinta de Soime reformulou  a “Lusitana” e, mais tarde, preparou o seu regresso à cidade do Porto, com instalações de raiz na Rua de Meneses Russell, num processo de fusão das suas empresas gráficas. As suas instalações, ainda que desativadas, lá permanecem ainda na zona da Boavista.
Vamos agora conhecer um pouco da história de vida dos obreiros da “Lusitana”.

Apolino da Costa Reis
É pouco conhecida a história de vida de Apolino da Costa Reis anteriormente à fundação da sua empresa de litografia na década de sessenta de Oitocentos. Provavelmente terá feito o seu tirocínio na litografia, arte que tinha ensaiado havia poucas décadas o seu percurso, dentro das artes gráficas, ganhando uma enorme popularidade pelas novas soluções apresentadas. Certo é que a “Lusitana” foi fundada e cresceu sob o signo da alta qualidade técnica, do conhecimento dos potenciais clientes eleitos entre as melhores casas exportadoras de vinho do Porto e da vasta gama de produtos que a arte da litografia lhes poderia oferecer. Neste particular sempre Apolino da Costa Reis soube vencer a concorrência estrangeira através da inovação e da procura de novas técnicas.
Provavelmente Apolino da Costa Reis teria alguma simpatia pelos ideais republicanos já que foi o fundador do jornal do “Comércio Português”, o qual terá tido a primeira sede nas instalações da “Lusitana”, ao palácio da Bolsa e que pouco antes do Ultimato terá mudado de gerência e de instalações e assumido a nova designação de “A República”. Terá sido aquele jornal o primeiro a anunciar em placards, à porta da redação, as grandes notícias, como foi o caso da morte de Camilo ocorrido em 1 de Junho de 1890.
Ao fim de três décadas de atividade o proprietário da “Lusitana” mandou construir novas instalações de raiz que incluíam parte habitacional, na então chamada Rua do Dr. Avides, na zona industrial da Serra do Pilar. Pouco depois criaria aí uma secção de metalografia num processo inovador de impressão de rótulos em folha-de-flandres para latas de conserva. Paralelamente à sua atividade de industrial gráfico exerceu funções associativas como presidente da Assembleia Geral da Assembleia da Serra do Pilar. Foi também associado da União dos Industriais do Norte.
Em 1908, pouco antes da receção ao rei D. Manuel II, nas oficinas da “Lusitana”, Apolino da Costa Reis foi homenageado pelo seu pessoal que, em dia de aniversário, ocorrido em 8 de Abril, inaugurou na oficina o seu retrato.
Apolino da Costa Reis faleceu em 10 de Setembro de 1912. A “Lusitana” continuaria nas mãos de familiares sendo, em 1941, vendida ao Comendador Inácio de Sousa, industrial que lhe iria imprimir uma profunda renovação e uma nova dinâmica.

Comendador Inácio Alberto de Sousa
Inácio Alberto de Sousa, nascido em 1874, era filho de João Inácio da Cunha e Sousa e de Rosário do Carmo Ribeiro. Seu pai, originário de Ponte de Lima, era um conhecido industrial de litografia da cidade do Porto, como sócio capitalista da Litografia Portuguesa. Inácio Alberto era sobrinho do célebre Sebastião Sanhudo, caricaturista e pioneiro da banda desenhada em Portugal, fundador do “Sorvete” e da Litografia Portuguesa que abriu portas na portuense Rua de Santa Catarina, em 1877. Era também conhecida pela litografia do Sanhudo.
Em 1894 Inácio Alberto de Sousa e o pai fundaram no Porto a Litografia Nacional.
Criado num ambiente empresarial e artístico de grande qualidade, Inácio Alberto de Sousa, recebeu de seu pai a Litografia Nacional modernizou-a e adaptou-a a um mercado muito concorrencial. Pessoalmente era um homem de grande cultura com profundas convicções políticas de matriz monárquica. É também conhecido o seu contributo, ainda novo, a favor das obras de benemerência, andando vestido disfarçado de dominó azul, pedindo donativos para obras assistenciais. O seu casamento deu-se com uma senhora de sangue nobre, D. Ângela Maria Bandeira Russell. Era um homem de fino trato e conviveu com grandes artistas e intelectuais nomeadamente Roque Gameiro, António Carneiro; Henrique Medina, Eduardo Malta, etc.
Inácio Alberto de Sousa tem profundas ligações à freguesia gaiense de Vilar de Andorinho, onde viveu nas últimas décadas de vida e onde foi um benemérito da freguesia, na fase final da sua vida, tendo dado o seu contributo para a construção da casa paroquial. Esteve na origem da “Assistência aos Pobres” daquela freguesia; esta obra assistencial nasceu no período da Segunda Grande Guerra e destinava-se a dar assistência aos necessitados da freguesia, contribuindo o proprietário da Quinta de Soeime (segundo Costa Gomes, 1993, p. 206) com 500$00 mensais.
É conhecida a sua profunda ligação à Quinta de Soime, de que se tornou proprietário nos anos 20, num período em que a quinta estava em decadência. O comendador fez inúmeros melhoramentos, construiu jardins e reordenou bosques, os quais dotou de estátuas de mármore, de azulejos artísticos, de fontes, ou peças artísticas que foram apeadas de outros lugares e que provavelmente corriam o risco de se degradarem e perderem.
O nome de Inácio Alberto de Sousa está ainda ligado ao ordenamento urbanístico da praia de Miramar e à criação do Parque da Gândara, com criação de zonas de lazer e de recreio, com projetos dos arquiteto António Júlio Teixeira Lopes e conceção de jardins a cargo do floricultor Alfredo Moreira da Silva & Filhos.
Inácio Alberto de Sousa faleceu em 6 de Janeiro de 1948. O seu nome faz parte da toponímia de Vilar de Andorinho, num arruamento que margina a Quinta do Soeime.

Inácio Alberto de Sousa e a Litografia Lusitana
Em 1941 Inácio Alberto de Sousa adquiriu a Litografia Lusitana e aí fez um esforço de renovação de instalações e apetrechamento técnico conseguindo recuperar e elevar o seu padrão de qualidade. Contudo alguns anos mais tarde acabou por construir instalações de raiz na cidade do Porto, na zona da Boavista. Após o seu falecimento passou a gerir os destinos da “Lusitana” o seu filho António Russel de Sousa que foi monárquico e exerceu funções de deputado e de autarca no município portuense tendo falecido em 1969.
Evocamos aqui a figura destes duas grandes e plurifacetadas personalidades que conseguiram elevar a marca Lusitana ao nível das melhores e mais antigas casas de artes gráficas em Portugal.

Remissivas: Litografia Lusitana/Apolino da Costa Reis/Comendador Inácio Alberto de Sousa/Quinta de Soeime/Vilar de Andorinho (freguesia)/Parque da Gândara - Miramar.

Bibliografia:
. ALVES, Jorge Fernandes Alves - Interesses industriais e Clivagens Associativas. A União dos Industriais do Norte (1897-1900), in Revista de História da FLUP.
. GOMES, Joaquim da Costa - Monografia de Vilar de Andorinho, Vilar de Andorinho, Junta de Freguesia de Vilar de Andorinho, 1993.
.GUIMARÃES, Gonçalves; GUIMARÃES, Susana G. - Retratos Reais da Monarquia Constitucional: das Belas Artes à Arte Publicitária, Vila Nova de Gaia, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 2000.
. MARÇAL, Horácio - Os títulos de Real e os fornecedores da Casa Real , in O Tripeiro V, IX,  p.  152.
. MOREIRA, R. - Litografia Lusitana. A Primeira a executar selos postais portugueses, in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. VI, nº 41, pp. 41-42.
. O Tripeiro, V, IX, p. 113; VI, II, p. 286;
. TORRE, António da - Tipo-Litografia Lusitana 1865-1965, in O Tripeiro, VI Série, Vol. V, pp. 122.124.

Webgrafia:
. www.csarmento.uminho.pt/docs/amap/bth/bth1959-1961_08.pdf - Catálogo dos cargos, alcunhas, ofícios, títulos honoríficos, etc. [consultado em 2012.01.25].
. http://www.cm-pontedelima.pt/figura.php?id=11 [consultado em 2012.01.25].
. http://agr986.cne-escutismo.pt/localizacao.htm [consultado em 2012.01.26].
                       Sala de Fundo Local, Janeiro de 2012