quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O desaparecido aqueduto do mosteiro da Serra do Pilar


Festa de Senhora do Pilar  - o aqueduto da Serra 


Respiro na Praceta Adelino Amaro da Costa, 
ao Agueiro. (foto António Conde)

Quinta do Agueiro - Interior do Respiro - Mina (foto António Conde) 


Estrutura de antigo arco de Aqueduto (foto António Conde) 

Local: Mafamude e Santa Marinha

Data: séculos XVII-XX

Sinopse: Da arcaria do antigo aqueduto que abastecia a água ao mosteiro da Serra do Pilar já não existem vestígios na atualidade. De facto este aqueduto, de que se conhecem imagens dos inícios do séc. XX, não resistiu à degradação que ameaçou a estabilidade de alguns dos seus arcos, nem à pressão urbana de crescimento do Bairro da Serra do Pilar e, paulatinamente, foi sendo derrubado. Contudo existem ainda vestígios da zona de mina do aqueduto, os quais constam de estruturas piramidais em pedra e tijolo – conhecidos por óculos ou respiros - provavelmente conhecidos pelo público que, no entanto, desconhecerá a sua ligação funcional ao aqueduto. E foi exatamente o lado funcional que terá salvo da destruição estas estruturas, algumas delas com a inscrição “Património do Estado”, já que a estrutura ainda cumpre a sua missão de abastecer de água uma parte do equipamento militar da Serra do Pilar.

A construção do aqueduto da Serra do Pilar
O mosteiro da Serra do Pilar, cuja fundação remonta ao ano de 1527, no reinado de D. João III, situa-se nos lugares antigamente chamados Monte de Quebrantões ou da Meijoeira, uma eminência rochosa onde não seria fácil encontrar água em quantidade suficiente e que corresse pela lei da gravidade. A solução foi encontrada, logo no ano seguinte, nas proximidades da igreja de Mafamude, no manancial do Agueiro.
Assim, em 20 de Fevereiro de 1538, resolveu-se a questão de propriedade do chão em que assentaria o mosteiro tendo sido adquirido, por escambo, o casal de Cimiel e as pesqueiras da Ponta dos Guindães, no Douro. Cerca de 3 meses volvidos, Frei Brás de Braga, o religioso incumbido da construção do mosteiro, foi ao monte da Meijoeira acompanhado de Diogo de Castilho e João de Ruão e, segundo as suas palavras “se traçou o mosteiro e se abriram os alicerces em a igreja e o claustro, e à tarde veio o Bispo” e se lançou a primeira pedra.
Por instrumento de escambo, de 23 de Maio de 1538, celebrado entre o dito Frei Brás de Braga e Diogo Leite, senhor de Gaia pequena e da Casa de Campo Belo, o segundo outorgante em cumprimento de uma provisão régia cedeu ao dito clérigo “a água dos seus casais do Agueiro, e casal de Trancoso, e do casal que traz Gonçalo Rodrigues, que todos estão sitos na freguesia de Mafamude do Julgado de Gaia, os quais pertencem a sua terra de Gaia, pequena, e que ele Diogo Leite por fazer serviço ao dito Senhor, e por a dita água vir para o mosteiro que o dito Senhor manda ora fazer ao dito Padre Frei Brás no monte e outeiro da Meijoeira”.

O traçado do aqueduto e os vestígios existentes
Como foi referido o aqueduto tinha o seu manancial no lugar do Agueiro. Existem ainda na Quinta do Marques do Agueiro três respiros em terreno agrícola e um, de maior grandiosidade, no jardim da Praceta Adelino Amaro da Costa. A mina depois de receber água destes pontos atravessa a rua D. Pedro V e recebe água de outros pontos situados no lugar de Trancoso, junto ao Colégio de Gaia. Entre a Rua D. Pedro V e a via de cintura existem dois respiros, nas traseiras dos prédios, que foram preservados aquando das obras de construção daquela via.
De seguida a mina atravessa a Avenida da República em direção à Travessa Particular Honório Costa onde ainda existe um respiro, de grandes dimensões que foi louvavelmente integrado em condomínio de prédio. Daí o aqueduto seguia até ao sítio da atual praceta 25 de Abril onde existiu um pequeno outeiro chamado das Pedras de Pé de Azeite onde, antes da construção da praceta, existia a casa da família Cal Brandão. A partir daí o aqueduto seguia à superfície e em arcadas pela rua 14 de Outubro, passava junto à Fonte do Casal (que abastecia) e depois pela atual Alameda da Serra do Pilar, onde faz a separação entre as freguesias de Santa Marinha e Oliveira do Douro. A entrada no atual Quartel da Serra dava-se junto ao portão nascente. A meio da Alameda da Serra do Pilar ainda existe, integrado numa habitação, parte dum arco do aqueduto, cuja imagem aqui se reproduz. Ao longo do percurso há ainda algumas estruturas de apoio à mina que ainda abastecem o quartel, porém de construção atual e de reduzido valor arquitetónico.

A ruína do aqueduto
Nos finais do séc. XIX era visível o estado de degradação de alguns arcos do aqueduto, havendo reclamações de particulares para que os mesmos fossem apeados considerando-se que, para além da segurança, eram um entrave ao progresso. O jornal “A Luz do Operário”, de 3 de Junho de 1926 dá-nos conta da preocupação dos moradores, temendo pela sua segurança e alertando para a necessidade de por fim a tal “pesadelo”. Foram os últimos arcos a ser derrubados.
Curiosamente o Estado que nada fez pela preservação deste monumento, em 20.08.1946, pelo Decreto-Lei nº 35.817 procedeu à classificação como imóvel de interesse público do “troço existente do aqueduto da Serra do Pilar (lugar do Sardão, freguesia de Oliveira do Douro)". Tratou-se de classificar um monumento já inexistente e confundi-lo como parte de um outro que nada tem de comum. Esta incongruência ainda hoje se mantém na página eletrónica do IGESPAR onde o aqueduto dos Arcos do Sardão é referido como “troço existente do aqueduto da Serra do Pilar”.
Quisemos aqui evocar este monumento hoje desaparecido cuja memória perdura nas imagens que ficaram e nos vestígios de que aqui damos conta que faziam parte da mesma estrutura.

Remissivas: Aqueduto da Serra do Pilar/Mosteiro da Serra do Pilar/Agueiro (lugar)/ Trancoso (lugar)/ Mafamude (freguesia).


Glossário:
Escambo – contrato em que as partes se obrigam entre si não ao pagamento em moeda (forma mais habitual na sociedade moderna) mas à troca direta de bens ou serviços. No caso presente tratou-se de um troca, ou permuta, entre o Mosteiro e Colegiada de Cedofeita, proprietária do Campo do Cimiel (chão do futuro mosteiro) e o mosteiro de Grijó, proprietário da Quinta do Vale e de um casal que andava junto na freguesia de Arcozelo. 

Bibliografia:
. GUIMARÃES; Gonçalves - Serra do Pilar. Património Cultural da Humanidade, Vila Nova de Gaia, Fundação Salvador Caetano, 1999.
. O Mosteiro de Nossa Senhora do Pilar. Para além da Serra. Vila Nova de Gaia, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 2009.
.Diário do Governo, I Série, de 20.08.1946.

Webgrafia
http://www.igespar.pt/en/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/73476/



Texto de António Conde


Sala de Fundo Local e Regional Armando de Matos, BPMVNG
Fevereiro 2012