quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Gaia: imagens com história (VII) - A Quinta do Vale da Glória na encosta da Serra do Pilar


Imagem da Casa da Quinta da Glória ou Vale da Glória, no monte de 
Quebrantões, junto à ponte D. Maria Pia (Arquivo de Imagens de António Conde)


Aspecto actual, Bairro da Serra do Pilar e Ponte de S. João (foto António Conde)

Outra perspectiva da Quinta da Glória (foto António Conde)

Data: finais do séc. XIX.

Descrição: A imagem, onde se destaca a ponte D. Maria Pia, apresenta em primeiro plano a casa da Quinta da Glória, sobranceira ao rio Douro, na escarpa nascente da Serra do Pilar. Do lado norte é visível o monte do Seminário onde se situa o Colégio dos Órfãos do Porto, a cargo da congregação Salesiana. Na extremidade da ponte e no plano inferior é visível o túnel ferroviário que liga as estações de Campanhã e S. Bento. A ponte D. Maria Pia, construída pela empresa de Gustave Eiffel, foi inaugurada pelo rei D. Luís e pela rainha D. Maria Pia, sua patrona, a 4 de Novembro de 1876 e serviu, durante 114 anos, até ser substituída, em 1991, pela ponte de S. João. Em 1982, pelo Decreto nº 28/82, foi classificada como monumento nacional.
Na quinta do Vale da Glória, com velha casa apalaçada em degradação, existiu a chamada Fonte da Gruta onde era extraída uma água puríssima que chegou a ser comercializada há décadas. Insere-se numa zona de vistas aprazíveis, mas algo degradada, que está a ser sujeita a operações de reconversão urbanística e recuperação ambiental e paisagística, no âmbito do projeto municipal “Encostas do Douro”.
No que toca à componente humana da imagem ressaltam as figuras de mulheres e crianças em trajes típicos da época.

Remissivas: Quintas de Vila Nova de Gaia/ Oliveira do Douro (freguesia) / Ponte ferroviária de Maria Pia/ Lugar de Quebrantões/ Serra do Pilar.

Bibliografia:
.  ALMEIDA, Luís Gomes Alves de - Notas monográficas sobre a freguesia de Santa Eulália de Oliveira do Douro, Vila Nova de Gaia, Junta de Freguesia de Oliveira do Douro, 1985.
. O Porto e os seus fotógrafos. Porto, Porto Editora, 2001.

 Sala de Fundo Local, Fevereiro de 2012

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O desaparecido aqueduto do mosteiro da Serra do Pilar


Festa de Senhora do Pilar  - o aqueduto da Serra 


Respiro na Praceta Adelino Amaro da Costa, 
ao Agueiro. (foto António Conde)

Quinta do Agueiro - Interior do Respiro - Mina (foto António Conde) 


Estrutura de antigo arco de Aqueduto (foto António Conde) 

Local: Mafamude e Santa Marinha

Data: séculos XVII-XX

Sinopse: Da arcaria do antigo aqueduto que abastecia a água ao mosteiro da Serra do Pilar já não existem vestígios na atualidade. De facto este aqueduto, de que se conhecem imagens dos inícios do séc. XX, não resistiu à degradação que ameaçou a estabilidade de alguns dos seus arcos, nem à pressão urbana de crescimento do Bairro da Serra do Pilar e, paulatinamente, foi sendo derrubado. Contudo existem ainda vestígios da zona de mina do aqueduto, os quais constam de estruturas piramidais em pedra e tijolo – conhecidos por óculos ou respiros - provavelmente conhecidos pelo público que, no entanto, desconhecerá a sua ligação funcional ao aqueduto. E foi exatamente o lado funcional que terá salvo da destruição estas estruturas, algumas delas com a inscrição “Património do Estado”, já que a estrutura ainda cumpre a sua missão de abastecer de água uma parte do equipamento militar da Serra do Pilar.

A construção do aqueduto da Serra do Pilar
O mosteiro da Serra do Pilar, cuja fundação remonta ao ano de 1527, no reinado de D. João III, situa-se nos lugares antigamente chamados Monte de Quebrantões ou da Meijoeira, uma eminência rochosa onde não seria fácil encontrar água em quantidade suficiente e que corresse pela lei da gravidade. A solução foi encontrada, logo no ano seguinte, nas proximidades da igreja de Mafamude, no manancial do Agueiro.
Assim, em 20 de Fevereiro de 1538, resolveu-se a questão de propriedade do chão em que assentaria o mosteiro tendo sido adquirido, por escambo, o casal de Cimiel e as pesqueiras da Ponta dos Guindães, no Douro. Cerca de 3 meses volvidos, Frei Brás de Braga, o religioso incumbido da construção do mosteiro, foi ao monte da Meijoeira acompanhado de Diogo de Castilho e João de Ruão e, segundo as suas palavras “se traçou o mosteiro e se abriram os alicerces em a igreja e o claustro, e à tarde veio o Bispo” e se lançou a primeira pedra.
Por instrumento de escambo, de 23 de Maio de 1538, celebrado entre o dito Frei Brás de Braga e Diogo Leite, senhor de Gaia pequena e da Casa de Campo Belo, o segundo outorgante em cumprimento de uma provisão régia cedeu ao dito clérigo “a água dos seus casais do Agueiro, e casal de Trancoso, e do casal que traz Gonçalo Rodrigues, que todos estão sitos na freguesia de Mafamude do Julgado de Gaia, os quais pertencem a sua terra de Gaia, pequena, e que ele Diogo Leite por fazer serviço ao dito Senhor, e por a dita água vir para o mosteiro que o dito Senhor manda ora fazer ao dito Padre Frei Brás no monte e outeiro da Meijoeira”.

O traçado do aqueduto e os vestígios existentes
Como foi referido o aqueduto tinha o seu manancial no lugar do Agueiro. Existem ainda na Quinta do Marques do Agueiro três respiros em terreno agrícola e um, de maior grandiosidade, no jardim da Praceta Adelino Amaro da Costa. A mina depois de receber água destes pontos atravessa a rua D. Pedro V e recebe água de outros pontos situados no lugar de Trancoso, junto ao Colégio de Gaia. Entre a Rua D. Pedro V e a via de cintura existem dois respiros, nas traseiras dos prédios, que foram preservados aquando das obras de construção daquela via.
De seguida a mina atravessa a Avenida da República em direção à Travessa Particular Honório Costa onde ainda existe um respiro, de grandes dimensões que foi louvavelmente integrado em condomínio de prédio. Daí o aqueduto seguia até ao sítio da atual praceta 25 de Abril onde existiu um pequeno outeiro chamado das Pedras de Pé de Azeite onde, antes da construção da praceta, existia a casa da família Cal Brandão. A partir daí o aqueduto seguia à superfície e em arcadas pela rua 14 de Outubro, passava junto à Fonte do Casal (que abastecia) e depois pela atual Alameda da Serra do Pilar, onde faz a separação entre as freguesias de Santa Marinha e Oliveira do Douro. A entrada no atual Quartel da Serra dava-se junto ao portão nascente. A meio da Alameda da Serra do Pilar ainda existe, integrado numa habitação, parte dum arco do aqueduto, cuja imagem aqui se reproduz. Ao longo do percurso há ainda algumas estruturas de apoio à mina que ainda abastecem o quartel, porém de construção atual e de reduzido valor arquitetónico.

A ruína do aqueduto
Nos finais do séc. XIX era visível o estado de degradação de alguns arcos do aqueduto, havendo reclamações de particulares para que os mesmos fossem apeados considerando-se que, para além da segurança, eram um entrave ao progresso. O jornal “A Luz do Operário”, de 3 de Junho de 1926 dá-nos conta da preocupação dos moradores, temendo pela sua segurança e alertando para a necessidade de por fim a tal “pesadelo”. Foram os últimos arcos a ser derrubados.
Curiosamente o Estado que nada fez pela preservação deste monumento, em 20.08.1946, pelo Decreto-Lei nº 35.817 procedeu à classificação como imóvel de interesse público do “troço existente do aqueduto da Serra do Pilar (lugar do Sardão, freguesia de Oliveira do Douro)". Tratou-se de classificar um monumento já inexistente e confundi-lo como parte de um outro que nada tem de comum. Esta incongruência ainda hoje se mantém na página eletrónica do IGESPAR onde o aqueduto dos Arcos do Sardão é referido como “troço existente do aqueduto da Serra do Pilar”.
Quisemos aqui evocar este monumento hoje desaparecido cuja memória perdura nas imagens que ficaram e nos vestígios de que aqui damos conta que faziam parte da mesma estrutura.

Remissivas: Aqueduto da Serra do Pilar/Mosteiro da Serra do Pilar/Agueiro (lugar)/ Trancoso (lugar)/ Mafamude (freguesia).


Glossário:
Escambo – contrato em que as partes se obrigam entre si não ao pagamento em moeda (forma mais habitual na sociedade moderna) mas à troca direta de bens ou serviços. No caso presente tratou-se de um troca, ou permuta, entre o Mosteiro e Colegiada de Cedofeita, proprietária do Campo do Cimiel (chão do futuro mosteiro) e o mosteiro de Grijó, proprietário da Quinta do Vale e de um casal que andava junto na freguesia de Arcozelo. 

Bibliografia:
. GUIMARÃES; Gonçalves - Serra do Pilar. Património Cultural da Humanidade, Vila Nova de Gaia, Fundação Salvador Caetano, 1999.
. O Mosteiro de Nossa Senhora do Pilar. Para além da Serra. Vila Nova de Gaia, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 2009.
.Diário do Governo, I Série, de 20.08.1946.

Webgrafia
http://www.igespar.pt/en/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimovel/detail/73476/



Texto de António Conde


Sala de Fundo Local e Regional Armando de Matos, BPMVNG
Fevereiro 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Real Tipografia e Litografia Lusitana – a “rainha” das artes gráficas em Vila Nova de Gaia


A Real Tipografia e Litografia Lusitana na época da fundação. (B.A.C.A.G., VI, 41, p. 41)


Imagem atual das antigas instalações da “Lusitânia”. (fot. António Conde)

Um trabalho da Litografia Lusitana, de 1910 

                     Um dos selos executados pela “Lusitana” em 1925

Local: Lugar do Torne (Rua Elias Garcia)

Data: séc. XX (1ª metade)

Sinopse: Existiu esta importante casa de artes gráficas na antiga zona industrial da Serra do Pilar, no ângulo das Ruas Elias Garcia (antiga Rua do Dr. Avides) e Afonso de Albuquerque, em instalações construídas de raiz, no início do séc. XX, por Apolino da Costa Reis. O edifício original ainda existe em razoável estado de conservação apesar de algumas alterações funcionais.

A fundação da “Lusitana” no Porto
A Litografia Lusitana foi fundada no Porto em 1865 na antiga Rua D. Fernando, nas traseiras do Palácio da Bolsa. A sua oferta de trabalho dirigiu-se para as empresas de vinho do Porto muitas das quais tinham a sua sede na zona ribeirinha do Porto. Vivia-se um período áureo de exportação de vinhos do Porto para o mercado brasileiro pelo que as respetivas empresas encomendavam às litografias grande quantidade de rótulos, de brindes publicitários, de bilhetes-postais, livros, etc. Entre os grandes clientes da “Lusitana” estava a Real Companhia Vinícola (que encomendava mais de 200 mil rótulos por mês), a Casa Ramos Pinto, a Constantino, a Rocha Leão, etc.
As litografias portuguesas sofriam uma forte concorrência da indústria litográfica alemã, quer a nível de preços, quer a nível de qualidade. Contudo a Litografia Lusitana conseguiu afirmar-se num mercado tão competitivo.
Em 1877 foi agraciada com o título de Real, por decreto de 14 de Novembro, passando a designar-se Real Tipografia e Litografia Lusitana.
Participou em grandes feiras e certames tendo sido medalhada com prata na Exposição Vitícola do Palácio de Cristal em 1880, com diploma de assistência na Exposição Industrial Portuense do Palácio de Cristal de 1891-1892 e com medalha de ouro na Exposição Industrial de Vila Nova de Gaia de 1894. No estrangeiro participou na Exposição de Paris e na Exposição de S. Luís nos Estados Unidos onde recebeu uma medalha de ouro.
A “Lusitana” nas palavras do seu fundador
Num folheto de propaganda que fez circular publicamente assim se referia Apolino da Costa Reis à “Lusitana”:
 “Este estabelecimento, primitivamente fundado na Cidade do Porto em 1865 e actualmente instalado em Vila Nova de Gaia, rua do Dr. Avides 125 a 129, em amplos edifícios expressamente construídos, correspondendo à melhor higiene e gosando de abundante luz natural, está em condições de executar todos os trabalhos das indústrias graphicas, para o que dispõe de excellente material moderno, proveniente da Allemanha, França e Itália.
Apromptam-se cartazes e reclames commerciaes em branco e a cores, em alto relevo, em photogravura ou chromo, representando costumes e paisagens nacionais que, em pittoresco e beleza, são de encanto superior aos estrangeiros, devendo os clientes fazer as encomendas com antecipação de alguns mezes, para sua perfeita e cabal conclusão. (…)
O proprietário director do estabelecimento, acompanhando a evolução de todas as artes graphicas no estrangeiro, não hesitou em o dotar com todos os processos mais aperfeiçoados, para que os trabalhos justifiquem a aceitação que o illustrado público lhes dispensa e os os jurys dos certames industriais, lhes téem, sem favor e honrosamente, reconhecido”.

A mudança para Vila Nova de Gaia
Em 1877 a Litografia Lusitana foi transferida para Vila Nova de Gaia funcionando em instalações provisórias, provavelmente, na zona da Serra do Pilar. Estão documentados no Arquivo Municipal de Gaia dois processos de construção de prédio para instalação de litografia datados de 1899 (Procº nº 525/1899) e 1905 (Procº nº 108/1905) o que prova que a construção e conclusão do vasto edifício que incluía parte habitacional foram demoradas.
Em 1900 a Lusitana criou uma secção de metalografia, num processo inédito no norte do País, de impressão em folha-de-flandres para latas de conserva.
Em 26 de Novembro de 1908 recebeu nas suas instalações a visita do rei D. Manuel II tendo sido criado uma pagela comemorativa da visita em moldura de estilo Arte Nova em que aparece a fotografia de D. Manuel II sobrepujada pela coroa real (Guimarães, 200, p. 70) e com os dizeres: “Salvé D. Manuel II. Homenagem da Real Typo-Lytographia Lusitana”.

A “Lusitana” depois da morte do fundador
Parece que a “Lusitana” não se ressentiu da morte do fundador ocorrida em 1912. Com efeito os padrões de qualidade e as inovações continuaram a ser um atributo das décadas seguintes. Na década de vinte, mais concretamente em 1925, a empresa, devido à alta qualidade dos seus trabalhos foi escolhida para imprimir os primeiros selos postais. Refira-se que foi a primeira empresa particular portuguesa a receber tal convite, já que, até aí, em Portugal, só a Casa da Moeda havia impresso selos postais. Tal escolha ter-se-á devido à alta qualidade técnica patenteada em trabalhos do género, nomeadamente as vinhetas comemorativas do primeiro centenário da Faculdade de Medicina do Porto ocorrido em 1925.
Uma coisa convém esclarecer: efetivamente já no ano de 1919 a Litografia Nacional tinha imprimido 4 selos de 2,5 réis, 5 réis, 10 réis e 35 réis, com os dizeres e as armas do Reino de Portugal, encomendados por Paiva Couceiro, chefe da Junta Governativa do Reino, no contexto da chamada Monarquia do Norte. Porém o regime foi deposto ao fim de alguns dias e estes selos nunca chegaram a circular, sendo apenas impressos e picotados. Estes selos chegaram aos colecionadores pela simples razão de a oficina da empresa, sita à então Rua de Malmerendas, ter sido assaltada e os selos foram lançados das janelas do Governo Civil ao povo que rejubilava pelo fim do regime. Daí o poder afirmar-se que os primeiros selos a ser impressos por uma empresa particular em Portugal (e que efetivamente circularam) foram os da Litografia Lusitana.

Os selos executados pela “Lusitana”  
À “Lusitana” foram encomendadas, em 1925, duas emissões de selos, Padrões da Grande Guerra, desenhados por Armando Gonçalves. Uma delas representando o “Esforço da Raça”, com data de 8 de Abril de 1925, era de selos de 10 centavos, com as cores rosa, verde, castanho e azul e circulou em 8 e 9 de Abril de 1925 e de 9 a 15 de Dezembro de 1928. Foi utilizado no correio ordinário desde 4 de Janeiro de 1934 a 1 de Outubro de 1945. A outra era de selos de 20 centavos de cor amarelo-laranja. (Cf. Notícias de Gaia de 01.07.1965, pp. 1 e 3).

As edições Apolino e Pátria
Datam da década de trinta estas edições ligadas à Tipografia Lusitana, com obras de Vasco Valente, Luís Chaves, Cláudio Basto, Fidelino de Figueiredo; Guilherme Filgueiras, Luís de Pina, Pedro Vitorino, etc., da coleção Estudos Nacionais, publicadas sob a égide do Instituto de Coimbra.

A segunda fundação e a saída de Vila Nova de Gaia
Em 1941 a Litografia Lusitana foi comprada pelo Comendador Inácio Alberto de Sousa, proprietário da Quinta de Soeime e grande industrial gráfico com ligações à Litografia Nacional. A Lusitana, que acusaria alguma decadência, sofreu melhorias a nível de instalações e modernização no equipamento e na formação do pessoal recuperando prestígio. Contudo o empreendedorismo do novo proprietário e o profundo conhecimento do mercado apontava para a necessidade de novas e modernas instalações compatíveis com os novos tempos.
Assim, em 1947, a Litografia Lusitana, fechou em definitivo as suas instalações em Vila Nova de Gaia, e reinstalou-se no Porto em instalações de raiz construídas na Rua Particular Meneses Russell, à Boavista, para trabalhos de litografia, litografia, fotolitografia e impressão em folha-de-flandres. Tal facto permitiu que a Litografia Nacional, do mesmo proprietário, se especializasse na impressão de selos postais, com coleções que ganharam fama em Portugal e no estrangeiro.
Aqui evocámos esta importante empresa que durante sete décadas trabalhou no nosso concelho e se notabilizou no domínio das artes gráficas.

Remissivas: Litografia Lusitana /Apolino da Costa Reis /Comendador Inácio Alberto de Sousa /Artes Gráficas em Vila Nova de Gaia.

Bibliografia:
. ALVES, Jorge Fernandes Alves - Interesses industriais e Clivagens Associativas. A União dos Industriais do Norte (1897-1900), in Revista de História da FLUP.
. GOMES, Joaquim da Costa - Monografia de Vilar de Andorinho, Vilar de Andorinho, Junta de Freguesia de Vilar de Andorinho, 1993.
.GUIMARÃES, Gonçalves; GUIMARÃES, Susana G. - Retratos Reais da Monarquia Constitucional: das Belas Artes à Arte Publicitária, Vila Nova de Gaia, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 2000.
. Jornal “O Gaiense” de 15.06.1965; 01.07.1965;
. MARÇAL, Horácio - Os títulos de Real e os fornecedores da Casa Real , in O Tripeiro V, IX,  p.  152.
. MOREIRA, R. - Litografia Lusitana. A Primeira a executar selos postais portugueses, in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. VI, nº 41, pp. 41-42.
. O Tripeiro, V, IX, p. 113; VI, II, 286;
. TORRE, António da - Tipo-Litografia Lusitana 1865-1965, in O Tripeiro, VI Série, Vol. V, pp. 122.124.
                                       Sala de Fundo Local, Janeiro de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os homens que construíram a Real Tipografia e Litografia Lusitana: Apolino da Costa Reis e Comendador Inácio de Sousa


Edifício onde funcionou a Real Litografia e Tipografia Lusitana  sito à Rua Elias Garcia 
(imagem de António Conde)


Litografia Portuguesa – fundada por João Inácio de Sousa e Sebastião Sousa Sanhudo

Um trabalho da Litografia Lusitana

Calendário da Litografia Lusitana comemorativo do 125º aniversário

Local: Lugar do Torne (Rua Elias Garcia)

Data: séc. XX (1ª metade)

Sinopse: A Real Tipografia e Litografia Lusitana, de que nos ocupámos anteriormente, foi uma das pioneiras na arte da litografia em Portugal. Foi fundada no Porto, em 1865, pela mão de Apolino da Costa Reis e cedo ganhou o título de Real. Nos finais do século inaugurou instalações construídas de raiz em Vila Nova de Gaia, no polo industrial da Serra do Pila e tornou-se numa das empresas mais conceituadas no ramo.
 Alguns anos após a morte do fundador a “Lusitana” foi adquirida pelo comendador Inácio de Sousa, grande industrial das artes gráficas com ligações à Litografia Nacional. Este industrial das artes gráficas e proprietário da Quinta de Soime reformulou  a “Lusitana” e, mais tarde, preparou o seu regresso à cidade do Porto, com instalações de raiz na Rua de Meneses Russell, num processo de fusão das suas empresas gráficas. As suas instalações, ainda que desativadas, lá permanecem ainda na zona da Boavista.
Vamos agora conhecer um pouco da história de vida dos obreiros da “Lusitana”.

Apolino da Costa Reis
É pouco conhecida a história de vida de Apolino da Costa Reis anteriormente à fundação da sua empresa de litografia na década de sessenta de Oitocentos. Provavelmente terá feito o seu tirocínio na litografia, arte que tinha ensaiado havia poucas décadas o seu percurso, dentro das artes gráficas, ganhando uma enorme popularidade pelas novas soluções apresentadas. Certo é que a “Lusitana” foi fundada e cresceu sob o signo da alta qualidade técnica, do conhecimento dos potenciais clientes eleitos entre as melhores casas exportadoras de vinho do Porto e da vasta gama de produtos que a arte da litografia lhes poderia oferecer. Neste particular sempre Apolino da Costa Reis soube vencer a concorrência estrangeira através da inovação e da procura de novas técnicas.
Provavelmente Apolino da Costa Reis teria alguma simpatia pelos ideais republicanos já que foi o fundador do jornal do “Comércio Português”, o qual terá tido a primeira sede nas instalações da “Lusitana”, ao palácio da Bolsa e que pouco antes do Ultimato terá mudado de gerência e de instalações e assumido a nova designação de “A República”. Terá sido aquele jornal o primeiro a anunciar em placards, à porta da redação, as grandes notícias, como foi o caso da morte de Camilo ocorrido em 1 de Junho de 1890.
Ao fim de três décadas de atividade o proprietário da “Lusitana” mandou construir novas instalações de raiz que incluíam parte habitacional, na então chamada Rua do Dr. Avides, na zona industrial da Serra do Pilar. Pouco depois criaria aí uma secção de metalografia num processo inovador de impressão de rótulos em folha-de-flandres para latas de conserva. Paralelamente à sua atividade de industrial gráfico exerceu funções associativas como presidente da Assembleia Geral da Assembleia da Serra do Pilar. Foi também associado da União dos Industriais do Norte.
Em 1908, pouco antes da receção ao rei D. Manuel II, nas oficinas da “Lusitana”, Apolino da Costa Reis foi homenageado pelo seu pessoal que, em dia de aniversário, ocorrido em 8 de Abril, inaugurou na oficina o seu retrato.
Apolino da Costa Reis faleceu em 10 de Setembro de 1912. A “Lusitana” continuaria nas mãos de familiares sendo, em 1941, vendida ao Comendador Inácio de Sousa, industrial que lhe iria imprimir uma profunda renovação e uma nova dinâmica.

Comendador Inácio Alberto de Sousa
Inácio Alberto de Sousa, nascido em 1874, era filho de João Inácio da Cunha e Sousa e de Rosário do Carmo Ribeiro. Seu pai, originário de Ponte de Lima, era um conhecido industrial de litografia da cidade do Porto, como sócio capitalista da Litografia Portuguesa. Inácio Alberto era sobrinho do célebre Sebastião Sanhudo, caricaturista e pioneiro da banda desenhada em Portugal, fundador do “Sorvete” e da Litografia Portuguesa que abriu portas na portuense Rua de Santa Catarina, em 1877. Era também conhecida pela litografia do Sanhudo.
Em 1894 Inácio Alberto de Sousa e o pai fundaram no Porto a Litografia Nacional.
Criado num ambiente empresarial e artístico de grande qualidade, Inácio Alberto de Sousa, recebeu de seu pai a Litografia Nacional modernizou-a e adaptou-a a um mercado muito concorrencial. Pessoalmente era um homem de grande cultura com profundas convicções políticas de matriz monárquica. É também conhecido o seu contributo, ainda novo, a favor das obras de benemerência, andando vestido disfarçado de dominó azul, pedindo donativos para obras assistenciais. O seu casamento deu-se com uma senhora de sangue nobre, D. Ângela Maria Bandeira Russell. Era um homem de fino trato e conviveu com grandes artistas e intelectuais nomeadamente Roque Gameiro, António Carneiro; Henrique Medina, Eduardo Malta, etc.
Inácio Alberto de Sousa tem profundas ligações à freguesia gaiense de Vilar de Andorinho, onde viveu nas últimas décadas de vida e onde foi um benemérito da freguesia, na fase final da sua vida, tendo dado o seu contributo para a construção da casa paroquial. Esteve na origem da “Assistência aos Pobres” daquela freguesia; esta obra assistencial nasceu no período da Segunda Grande Guerra e destinava-se a dar assistência aos necessitados da freguesia, contribuindo o proprietário da Quinta de Soeime (segundo Costa Gomes, 1993, p. 206) com 500$00 mensais.
É conhecida a sua profunda ligação à Quinta de Soime, de que se tornou proprietário nos anos 20, num período em que a quinta estava em decadência. O comendador fez inúmeros melhoramentos, construiu jardins e reordenou bosques, os quais dotou de estátuas de mármore, de azulejos artísticos, de fontes, ou peças artísticas que foram apeadas de outros lugares e que provavelmente corriam o risco de se degradarem e perderem.
O nome de Inácio Alberto de Sousa está ainda ligado ao ordenamento urbanístico da praia de Miramar e à criação do Parque da Gândara, com criação de zonas de lazer e de recreio, com projetos dos arquiteto António Júlio Teixeira Lopes e conceção de jardins a cargo do floricultor Alfredo Moreira da Silva & Filhos.
Inácio Alberto de Sousa faleceu em 6 de Janeiro de 1948. O seu nome faz parte da toponímia de Vilar de Andorinho, num arruamento que margina a Quinta do Soeime.

Inácio Alberto de Sousa e a Litografia Lusitana
Em 1941 Inácio Alberto de Sousa adquiriu a Litografia Lusitana e aí fez um esforço de renovação de instalações e apetrechamento técnico conseguindo recuperar e elevar o seu padrão de qualidade. Contudo alguns anos mais tarde acabou por construir instalações de raiz na cidade do Porto, na zona da Boavista. Após o seu falecimento passou a gerir os destinos da “Lusitana” o seu filho António Russel de Sousa que foi monárquico e exerceu funções de deputado e de autarca no município portuense tendo falecido em 1969.
Evocamos aqui a figura destes duas grandes e plurifacetadas personalidades que conseguiram elevar a marca Lusitana ao nível das melhores e mais antigas casas de artes gráficas em Portugal.

Remissivas: Litografia Lusitana/Apolino da Costa Reis/Comendador Inácio Alberto de Sousa/Quinta de Soeime/Vilar de Andorinho (freguesia)/Parque da Gândara - Miramar.

Bibliografia:
. ALVES, Jorge Fernandes Alves - Interesses industriais e Clivagens Associativas. A União dos Industriais do Norte (1897-1900), in Revista de História da FLUP.
. GOMES, Joaquim da Costa - Monografia de Vilar de Andorinho, Vilar de Andorinho, Junta de Freguesia de Vilar de Andorinho, 1993.
.GUIMARÃES, Gonçalves; GUIMARÃES, Susana G. - Retratos Reais da Monarquia Constitucional: das Belas Artes à Arte Publicitária, Vila Nova de Gaia, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 2000.
. MARÇAL, Horácio - Os títulos de Real e os fornecedores da Casa Real , in O Tripeiro V, IX,  p.  152.
. MOREIRA, R. - Litografia Lusitana. A Primeira a executar selos postais portugueses, in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. VI, nº 41, pp. 41-42.
. O Tripeiro, V, IX, p. 113; VI, II, p. 286;
. TORRE, António da - Tipo-Litografia Lusitana 1865-1965, in O Tripeiro, VI Série, Vol. V, pp. 122.124.

Webgrafia:
. www.csarmento.uminho.pt/docs/amap/bth/bth1959-1961_08.pdf - Catálogo dos cargos, alcunhas, ofícios, títulos honoríficos, etc. [consultado em 2012.01.25].
. http://www.cm-pontedelima.pt/figura.php?id=11 [consultado em 2012.01.25].
. http://agr986.cne-escutismo.pt/localizacao.htm [consultado em 2012.01.26].
                       Sala de Fundo Local, Janeiro de 2012