sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O Observatório da Serra do Pilar (III) – da “refundação” à atualidade

Planta da estação de sismologia


Zona da Serra do Pilar e de localização do Observatório (Foto de António Conde)


1. A “refundação” do Observatório sob a direção do Prof. Álvaro Machado (1926-1946)

   Por despacho ministerial de 17 de Fevereiro de 1926 o professor Álvaro Machado foi reconduzido na direção interina do Observatório e veio encontrar as instalações e a aparelhagem em estado de degradação. São referidos problemas ao nível dos telhados, terraços, estuques, portas e caixilharias, pinturas interiores e exteriores, soalhos podres, entre outros. Pode parecer um estado recorrente a questão da degradação das instalações, amiúde relatada, mas temos que ter presente que as reparações, devido às dificuldades financeiras e à exiguidade das dotações financeiras, não deixavam de ser pontuais e não passavam de meros remendos num edifício já de si problemático, pela sua localização à cota alta, e sujeito à agressividade dos ventos e dos temporais.
   Constata-se, neste período, a discrepância de verbas atribuídas ao Observatório da Serra do Pilar face aos seus congéneres e o seu diretor Álvaro Machado não se cansou de alertar os ministros da tutela da precaridade das instalações, do reduzido quadro de pessoal, nem sempre preenchido, e da falta de aparelhagem que, muito contra a vontade do diretor, fazia do Observatório Meteorológico da Serra do Pilar pouco mais que um posto meteorológico.
   Esta situação tendeu a alterar-se com a nomeação para ministro da Instrução do prof. Alfredo de Magalhães (22.11.1926 – 18.04.1928) um homem que, na sua qualidade de ex - Reitor da Universidade do Porto, conheceu, no local, o descalabro em que se encontrava o Observatório a nível de instalações e de equipamentos. Esse conhecimento sensibilizou-o para a necessidade de desenvolver o serviço meteorológico nacional assente em observatórios universitários bem equipados e coadjuvados por uma rede de postos meteorológicos espalhados pelo país.
   Assim era necessário equipar o Observatório com o equipamento científico equiparado aos restantes observatórios, de modo a que o serviço meteorológico nacional saísse prestigiado. Tal foi conseguido com o reforço das dotações financeiras e com o sacrifício do pessoal na medida em que o respetivo quadro não foi preenchido na totalidade para poupar verbas.

1.1. Nova legislação que favorece o Observatório

   Pelo decreto nº 13.584 (de 10.05.1927) foi concedida ao Observatório uma dotação extraordinária de 50 contos e pelo decreto nº 13.597 (de 12.05.1927) a dotação ordinária foi equiparada à dos restantes observatórios. Este reforço de verbas permitiu a reparação e limpeza da aparelhagem e a aquisição de novos aparelhos no estrangeiro.
   Quanto às obras de beneficiação dos três edifícios que compunham o Observatório foi solicitado o apoio à Direção dos Edifícios Nacionais do Norte que deu a sua comparticipação através do fornecimento de materiais.

1.2. Os efeitos no Observatório da Revolução de Fevereiro de 1927

   Em Fevereiro de 1927 rebentou no Porto uma revolta contra o governo da ditadura militar e a Serra do Pilar foi palco de operações militares entre os contendedores. O Observatório viu as suas instalações invadidas pelos revoltosos e pelas tropas fiéis ao governo. Os estragos do tiroteio provocados pelas granadas e centenas de balas que foram disparadas contra os edifícios foram de certa monta: paredes e muros destruídos, vidros estilhaçados, azulejos partidos, móveis, instrumentos, etc. As observações tiveram de ser interrompidas de 4 a 8 de Fevereiro de 1927.

1.3. O fim das obras de beneficiação

   Completadas as reparações foram também modificadas a canalização da água e de gás acetileno produzido num gasómetro. Refira-se que até 1926 não havia qualquer rede de iluminação no Observatório sendo o trabalho noturno feito à luz de candeeiros a petróleo ou velas. Mais tarde foi feita a instalação elétrica e a autarquia gaiense mandou colocar três lâmpadas acesas toda a noite no sítio da Cerca assumindo o custo dos consumos dado tratar-se de um serviço de utilidade pública e local.
   Após a conclusão das obras e melhoramentos considerou o seu diretor, Professor Álvaro Machado, que o Observatório tinha conseguido reunir as condições que dispunha ao tempo das direções mais estáveis (de 1902 a 1918). Teve então a oportunidade de se virar para o apetrechamento interno, consertando aparelhagem deficiente ou adquirindo exemplares novos e procurando motivar e rentabilizar os recursos humanos existentes. Em Fevereiro de 1927 passou a ser afixado na fachada principal do edifício da Universidade do Porto o boletim diário das observações. Retomou-se a publicação melhorada dum boletim mensal do Observatório cuja edição tinha sido interrompida. Em 1929 com a dotação extraordinária anteriormente concedida foi adquirida no estrangeiro diversa aparelhagem atualizada ao nível dos melhores observatórios.
   A direção do Professor Álvaro Machado, nomeado por despacho ministerial em 1926, aparte o tempo em que interinamente assumiu a direção do Observatório, e que durou até à sua morte em Novembro de 1946, trouxe uma enorme mais-valia e estabilidade para o Observatório da Serra do Pilar. O seu diretor paralelamente à sua atividade académica representou Portugal em missões no estrangeiro onde as questões da meteorologia e do ensino das ciências estiveram presentes.
   Neste período de cerca de duas décadas operaram-se grandes progressos a nível da meteorologia em Portugal. Em 1946, pelo Decreto-lei nº 35850 o Observatório Meteorológico da Universidade do Porto passou a designar-se Instituto Geofísico da Universidade do Porto e é fixado o seu quadro de pessoal de 1 diretor, 3 meteorologistas, 1 observador, 3 ajudantes de meteorologia, 1 aspirante, 1 artífice, 1 guarda e 1 servente.
   No período final da sua direção foi criado o Serviço Meteorológico Nacional ao mesmo tempo que se discutia, de novo, a deslocalização do observatório. Era apologista desta ideia o Professor Doutor Américo Pires de Lima que nas páginas de “O Tripeiro” (V, I, p. 100) defendia a aquisição de uma quinta no Campo Alegre, para instalação do Jardim Botânico, museus e do Observatório Meteorológico que funcionava na Serra do Pilar. Contudo também esta tentativa de deslocalização foi abortada e o observatório lá continuou na Serra do Pilar.
   Ao Professor Álvaro Machado seguiram-se as direções do Professor Doutor Domingos Rosas da Silva, que foi diretor interino de 1946 a 1955, do Professor Doutor Manuel Marques Teixeira que foi diretor de 1955 a 1959 e do Engenheiro Carlos Coutinho Braga que lhe veio a suceder.

2. A instalação de uma estação sismológica ao nível das melhores do mundo (1963)

   No início da década de 60 surgiu a ideia de desenvolver a estação sismológica da Serra do Pilar cuja origem, como foi referido, remonta a 1912. A intenção era elevá-la ao nível das principais estações de sismologia a nível mundial fazendo parte de um conjunto de 125 estações, devidamente normalizadas. Este sonho acabou por concretizar-se em 1963 já que o governo norte-americano e a U. S. Coast and Geodetic Survey ofereceram a estação que foi instalada na Serra do Pilar cujo valor ascendeu, na altura, a 2000 contos.Esta aparelhagem e o programa de estudos a ela associada situava-se ao nível das melhores estações sismológicas mundiais.
   Tratava-se de uma estação subterrânea, com várias salas, onde separadamente foram colocados os sismógrafos, os galvanómetros e os registadores, sendo que os pilares onde estavam os aparelhos estavam cravados em rocha firme e isolados do pavimento.

3. A desativação da estação sismológica e o declínio do Observatório

   Em 1997, Estevão Samagaio, em estudo sobre o Observatório da Serra do Pilar, dava conta de que a estação sismológica, acima referida, tinha sido desativada havia pouco. Dava ainda conta de informes da imprensa diária de que por tal motivo não tinha sido possível fazer o registo do sismo ocorrido no dia 22 de Maio no norte de Portugal.
   De facto começou a constatar-se o desinvestimento no Observatório da Serra do Pilar entretanto caído na inatividade. Isto apesar de algumas obras de remodelação feitas no início da década de noventa e que abrangeram o edifício principal, a casa magnética, a estação de sismologia e a casa do guarda.

4. Um futuro para o Observatório da Serra do Pilar

   Aquele que foi um dos primeiros postos meteorológicos de Portugal vai renascer de novo, em seu lugar altaneiro, fruto de uma parceria celebrada entre o município gaiense e a Universidade do Porto. O projeto de reabilitação prevê a recuperação das instalações, a conversão num museu temático ligado a meteorologia, a reativação da estação meteorológica, a disponibilização de salas de investigação e de leitura e a instalação de um miradouro sobre o rio Douro aproveitando a localização de excelência.
   A cave albergará o sismógrafo e a oficina pedagógica. A nível do r/C haverá espaços expositivos de máquinas, cartografia antiga, sala de leitura e estação meteorológica. O 1º andar será um espaço reservado destinado a serviços administrativos e de direção e salas para investigação.

5. Conclusão

   - Nascido pelas mãos do poder centralizador da capital e acarinhado por dois grandes nomes da oficialidade da Marinha (Brito Capelo e Soares Andrea), ao arrepio da vontade dos homens da Academia nortenha que já detinham há muito o seu observatório privativo que desejavam melhorado;
   - Construído no lugar tecnicamente possível, mas por muitos reconhecido como indesejável, a pontos de, por várias vezes, o tentaram destituir das suas funções e transferir para novas paragens, porventura tecnicamente piores;
   - O Observatório da Serra do Pilar, qual velho timoneiro que parece vigiar do promontório da Serra o rio e a cidade, resistiu a todas as adversidades e ao longo dos últimos 130 anos prestou à região e ao país enormes serviços já que faz parte da rede meteorológica nacional e mundial (estação 08 546).

   Quem, ao longo dos anos e nomeadamente desde os anos 40 do século passado, com a criação da Emissora Nacional, não ouviu citar a sua designação para transmitir o estado do tempo e as previsões do mesmo de acordo com os dados por ele fornecidos?
   De facto os resultados das suas observações revelaram-se de profundo interesse para o quotidiano das populações; do mesmo modo os dados meteorológicos nele registados e arquivados revestem-se de enorme interesse para os investigação científica, nomeadamente nas áreas da climatologia e da poluição atmosférica.
   Quisemos aqui evocar este importante monumento do património meteorológico nacional confiantes que a musealização, a reativação de alguns serviços e a criação de espaço para a investigação projetem o “velho” Observatório da Serra do Pilar nos caminhos do futuro, no respeito pela identidade desta glória do património gaiense.

Bibliografia comum a I, II e III:

. Arquivo Distrital do Porto - PT/ADPRT/ACD/DRAOTN/01-4/002/0001 - Reclamação dos Diretores dos Observatórios do Infante D. Luís e da Princesa D. Amélia, contra a continuação da fábrica de sulfureto próximo do Observatório da Serra do Pilar. 1863-10-28/1891-12-30


. Arquivo Distrital do Porto - PT/ADPRT/ACD/DRAOTN/01-4/001/0002 - Observatório Meteorológico da Princesa D. Amelia, na Serra do Pilar; 1890-10-21/1892-12-09.


. Arquivo Distrital do Porto - PT/ADPRT/ACD/DRAOTN/01-4/001/0001 - Observatório Meteorológico da Serra do Pilar; 1888-05-30/1891-08-12.


. CARDOSO, Artur Lopes - O Observatório da Serra do Pilar. Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. 2, nº 14 (Maio, 1983), p. 27-31.


. Diário do Governo – I Série; 18.12.1923; 10.05.1927; 12.05.1927; 20.12.1930; 29.08.1946. 06.09.1946; 27.12.1946.


. LANHOSO, Adriano Coutinho - Observatório da Serra do Pilar. O Tripeiro, Ano 5, série 6, n.º 8 (Ag. 1965), p. 225-230: il.; nº 9 (Ag., 1965), p. 281-283.


. MACHADO, Álvaro R. – Observatório da Serra do Pilar. Breves notas históricas. Estado atual. Desenvolvimento. Porto, Publicações do Observatório da Serra do Pilar anexo à Faculdade de Ciências do Porto, 1929.


. No Observatório da Serra do Pilar foi instalada uma estação sismológica oferecida pelo governo americano no valor de 2000 contos. O Comércio de Gaia. Ano 33, nº 1637 (1 Abr. 1963), pp. 1, 3.


. O Tripeiro, V, I, p. 100; VI, III, p. 156; V, XV, p. 374.


.Observatório da Serra do Pilar convertido em museu. Jornal de Notícias, 23.06.2010.


. SAMAGAIO, Estevão - O antigo Observatório Meteorológico Princesa Dona Amélia. Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. 7, n.º 44 (Dez., 1997), p. 30-32.

Webgrafia

. http://adp.pt


. http://centenario.up.pt/ver_espaco.php?id_espaco=2


. http://dererummundi.blogspot.pt/2010/01/as-primeiras-observacoes-meteorologicas.html


. http://www.fc.up.pt/fcup/contents/php/transform.php?opt=estdependentes&id=5



Sala de Fundo Local, Outubro de 2012

O Observatório da Serra do Pilar (II) – do início do séc. XX à atualidade

  Imagem antiga do Observatório


Planta da Cerca do Observatório
                                                     
  “das informações que ele [Serviço Meteorológico Nacional] fornece beneficiam a agricultura, a indústria, o comércio, a navegação marítima e aérea, os trabalhos hidráulicos, as operações militares, a higiene e o turismo”.  In Decreto nº 35 836, de 29 de Agosto de 1946

Introdução

Como foi referido no módulo anterior, na viragem do século de Oitocentos, o Observatório mantem-se, ainda, sob a gestão efetiva do fundador e primeiro diretor Soares Andrea. Contudo ele é já um diretor agastado pois, para além de nunca ter conseguido que o Observatório fosse apetrechado com as infraestruturas e aparelhagem desejadas, mantem uma pendência com o capitão-de-fragata Ferreira do Amaral, da Escola de Alunos Marinheiros do Porto, de quem se queixa por desconsideração pessoal e indisciplina. A contenda foi dada a conhecer ao diretor do Observatório D. Luís, aos ministros do Reino e da Marinha e ao rei D. Carlos. Por outro lado a Academia Politécnica portuense, a quem nunca terá agradado a criação, no norte, de um observatório dirigido pela oficialidade da Marinha, não se cansou de “representar” (como então se dizia) junto do rei exigindo a anexação do Observatório na Academia portuense.
Foi neste contexto que surgiu a demissão de Soares Andrea, por decreto de 10 de julho de 1900, e a nomeação de um diretor interino, também oficial da Marinha (e amigo pessoal e colaborador do demitido fundador) que, nitidamente, estaria destinado a fazer a transição, a qual foi efetivada em 1901, através da lei do orçamento de Estado.

1. A anexação do Observatório Meteorológico Princesa D. Amélia na Academia Politécnica do Porto (1901)

O termo de entrega e posse das instalações teve lugar em 1 de outubro de 1901 tendo o diretor interino cessante, capitão-tenente Fonseca Sarmento conferido a posse ao diretor interino da Academia Politécnica do Porto. Apesar de a questão da anexação ser uma pretensão antiga da Academia portuense esta só em abril de 1902 nomeou um novo diretor. Coube a escolha na pessoa do Professor Francisco Paula de Azeredo que dirigiu o Observatório até março de 1912.
Na vigência desta direção, uma das mais estáveis, o Observatório foi dotado de um regulamento aprovado pela Academia Politécnica, à luz do seu novo estatuto. Foram também realizadas obras de beneficiação já que os ventos fortes provocavam problemas a nível das coberturas com a consequente deterioração das madeiras, das pinturas e dos instrumentos.
Neste período foi ainda construída a vedação do terreno e instalações, com muro de alvenaria, numa luta que vinha já do tempo do fundador e que sempre teve a oposição dos responsáveis militares. Há que ter em conta que o sítio do Observatório era um local isolado e frequentado, por vezes, por marginais que por atos de vandalismo ou roubo punham em causa a segurança das instalações e do material de observação.
Outra questão resolvida foi a do acesso ao local, problema que durava há cerca de três décadas. Em abril de 1910 ficou pronta a ligação do Observatório à então designada Avenida de Campos Henriques (atual Avenida da República), através da Rua de Rodrigues de Freitas. A obra do arruamento então designada como Ramal do Observatório foi feita de acordo com planta traçada em 27 de setembro de 1897.
Em 1910, na vigência ainda da monarquia, foi solicitado ao ministro das Obras Públicas a instalação de aparelhos sismológicos. (O Tripeiro, V, XV, p. 374). O aparelho sismográfico foi instalado pela firma italiana Francianelli Luigi, em 1912, já sob a direção do professor Sousa Pinto.
Em Março de 1912 o professor Paula de Azeredo pediu a sua exoneração e foi substituído pelo professor Alexandre de Sousa Pinto que exerceu a direção até Março de 1918.

2. Da mudança de designação no período republicano ao encerramento provisório (1913-1920)

Em Janeiro de 1913 o Observatório Meteorológico Princesa D. Amélia, ganhou nova denominação, mais consentânea com o novo regime, passando a designar-se por Observatório Meteorológico da Serra do Pilar.
Entretanto, ao longo do tempo, foi cumprindo, sem alterações significativas, o calendário de observações meteorológicas, transmitindo ao Observatório Central os dados a que estava obrigado.
Em Maio de 1913 foi firmado um acordo com a estação dos CTT da Praça da Batalha em que o Observatório da Serra do Pilar passou a dispor de uma linha telefónica direta para enviar à estação da Ajuda, em Lisboa, os dados meteorológicos. (O Tripeiro, VI, III, p. 156). Por essa mesma linha, que funcionava em sinal aberto duas vezes por semana, em determinada hora previamente combinada, era recebido do Observatório da Tapada da Ajuda a chamada hora legal. Refira-se que anteriormente, em Vila Nova de Gaia, a hora legal era calculada por meio da observação das estrelas e essa prática passou a ser considerada pouco fiável. Por essa mesma linha, que funcionava em sinal aberto duas vezes por semana, a determinada hora, era recebido do Observatório da Tapada da Ajuda a chamada hora legal, já que em Vila Nova de Gaia ela era anteriormente feita por meio da observação das estrelas e essa prática passou a ser considerada pouco fiável. Este serviço era de toda a conveniência para os relojoeiros, marinha mercante, repartições públicas e particulares e viação terrestre que recorriam ao Observatório da Serra do Pilar para regulação de relógios e cronómetros.
Em 21 de Maio de 1914 ocorreu um eclipse parcial do sol, seguido por milhares de pessoas na região portuense e o fenómeno foi seguido no Observatório da Serra do Pilar por vários cientistas.
Em 1918 o diretor, professor Sousa Pinto, pediu licença sem vencimento e foi substituído interinamente pelo professor Aarão de Lacerda. A sua direção durou até 1920, ano em que pediu escusa do lugar; teriam pesado nesta decisão graves problemas de indisciplina, por parte de alguns colaboradores menores do Observatório.
O professor Aarão de Lacerda foi substituído interinamente pelo professor Álvaro Machado que iniciou funções a tentar resolver a pendência existente entre o pessoal menor. Este problema causou um enorme mau estar contribuindo para o pedido de demissão de dois observadores técnico-científicos ficando somente um observador ajudante que, com redobrado esforço, manteve o registo das observações nas condições anteriormente fixadas.
Esta direção interina durou escassos 5 meses já que, por ordem ministerial, o Observatório foi encerrado em 1 de Setembro de 1920.

3. A degradação das instalações e a ideia de retirar o Observatório do território gaiense. (1921-1922)

O encerramento do Observatório terá sido uma decisão política, fruto do ambiente de desordem que nele se criou e da situação de instabilidade que o país viveu. Porém o desinvestimento a nível de instalações e equipamentos era já uma realidade, sobretudo durante o período das direções interinas.
O encerramento das instalações durante o período de 18 meses levou à degradação das mesmas, nomeadamente a nível dos telhados o que provocou avarias na aparelhagem afeta às observações meteorológicas. Houve também assaltos com vandalismos e furtos nas instalações.
Entretanto a Direção do Observatório e o Conselho da Faculdade de Ciências reclamaram da decisão de encerramento por um simples incidente disciplinar, o que, segundo eles, colocaria em causa todo um trabalho ininterrupto de três décadas de medições. As longas insistências surtiram o seu efeito e em 20 de Fevereiro de 1922 o Observatório foi reaberto.
Face à necessidade de obras foi feita uma avaliação do seu montante, a submeter à aprovação superior. Entretanto começou a questionar-se, de novo, a localização do Observatório apontando-se limitações e deficiências que aconselhariam a escolha de outro local e a não realização das obras de beneficiação. Nesse sentido o Conselho da Faculdade de Ciências, instado a pronunciar-se, propôs que fossem encetadas diligências com a autarquia portuense, na procura de um terreno para a edificação do novo observatório e que as instalações e terreno da Serra do Pilar fossem alienados e o produto da transação fosse aplicado na construção do novo observatório. Embora o terreno fosse conseguido, o projeto foi inviabilizado já que o Ministério da Guerra não autorizou a alienação a particulares do terreno e instalações da Serra do Pilar em virtude de o terreno ter sido cedido para um fim exclusivo e estar sob reserva militar. Ainda foi pensada a hipótese de ser para ali transferida a Escola de Desenho e Cerâmica de Vila Nova de Gaia criada na década de 60 do séc. XIX nas instalações da Fábrica de Cerâmica das Devesas e a funcionar, nesta fase, em instalações degradadas; contudo também esta hipótese saiu gorada já que o responsável por essas diligências e diretor interino do Observatório, Professor Álvaro Machado, foi destituído do seu lugar tendo sido substituído pelo engenheiro e tenente-coronel de cavalaria João Rodrigues Ascensão.

4. O abandono da ideia de deslocalização e o investimento no Observatório da Serra do Pilar (1922-1926)

O insucesso da tentativa de deslocalização ditou como melhor solução a beneficiação das instalações do observatório gaiense. Na sua direção, que durou até Fevereiro de 1926, o Engº Ascensão, mandou proceder a obras de reparação dos edifícios e da cerca cuja ruína permitia o acesso de estranhos. Deu também especial atenção à casa do guarda, que adaptou a residência do diretor, e à mata da cerca onde procedeu à plantação de mais de um centenar de árvores sendo boa parte delas árvores de fruto. Tratou ainda da regularização e pavimentação dos arruamentos, da colocação de placa identificativa no portão da entrada, do arranjo da canalização da água cedida pelo quartel (da nascente do Agueiro) e da iluminação pública da entrada. Ao contrário do habitual defendia que o diretor e o guarda deviam ter residência obrigatória no observatório. Quanto ao resto o observatório foi cumprindo a sua principal missão no que se refere a observações e registos meteorológicos sempre com as habituais carências de aparelhagem.

Sala de Fundo Local, Novembro 2012

O Observatório da Serra do Pilar (I) – antecedentes

Fotografia do fundador e 1º
diretor, Soares Andrea


Os estudos astronómicos e meteorológicos em Portugal

Em Portugal, as primeiras referências a observações meteorológicas surgiram no século XVII, de uma forma isolada e individualizada. De entre os estudiosos de meteorologia destacou-se o médico portuense Dr. José Bento Lopes que no ano de 1792, recolheu dados meteorológicos diários na cidade do Porto.
Na sua maioria, as observações eram feitas por académicos, médicos ou professores de Física, que faziam leituras meteorológicas associadas à Saúde Pública. Na Academia Real da Marinha e Comércio também se faziam observações mas ligadas ao estudo da náutica e da astronomia.

A criação do 1º Observatório do Porto (1853)

No sentido de melhorar as observações que até então se faziam e as instalações onde as mesmas eram efetuadas - na sua maioria careciam de qualidade relativamente às existentes fora do país - foi criada em 1853, na ala Sul do Hospital de Santo António, na antiga sede da Escola Médica, uma estação meteorológica, designada por Observatório da Escola Médica do Porto. Constituiu o “primeiro estabelecimento oficial onde se começaram a fazer observações meteorológicas regulares”, desempenhando um importante papel no ensino das ciências médicas, em especial a disciplina de Higiene.

A criação do Observatório D. Luís (Brito Capelo - 1854)

O objetivo de criar um Instituto meteorológico onde se pudessem fazer seguidas e ininterruptas observações, como já se faziam noutros países cientificamente mais desenvolvidos, foi conseguido em 1854. Em Lisboa, é criado um novo observatório onde estava sediado o Observatório Astronómico da Academia da Marinha, pelo docente de Física, Dr. Guilherme José António Dias Pegado, com o nome de Observatório da Escola Politécnica de Lisboa. Para o auxiliar, constituiu uma equipa de técnicos habilitados, nomeando para o efeito, como seus colaboradores, dois segundos tenentes da armada da Marinha de Guerra, o engenheiro hidrógrafo João Carlos de Brito Capelo e F.M. Gama Lobo. Era uma equipa coesa e dedicada, apoiada financeiramente pela Escola, pelos poderes públicos e com a proteção da família real.
Em 1 de Julho de 1856, Dias Pegado, na qualidade de apadrinhado real, propõe que o referido observatório se designasse Observatório Meteorológico do Infante D. Luís. Mais tarde, a Direção do Observatório é entregue a Brito Capelo, então capitão tenente da armada, por decreto do Governo em 1875. O Observatório da capital tinha como principal serviço dar aviso a pescadores e navegantes por meio de sinais, das probabilidades de mau tempo. Em 1888 começou-se a transmitir sinais de prevenção do tempo a determinados postos espalhados pelo país, perto de baías, que por sua vez transmitiam aos navios que por lá passavam.
Pelo país, a partir de 1876, estabeleceram-se postos meteorológicos, sob orientação e financiamento do Observatório de Lisboa, nomeadamente nas cidades de Beja, Bragança, Campo Maior, Guarda, Lagos, Moncorvo, Porto, Funchal e Montalegre.

Observatório da Serra do Pilar (1885)

Na cidade do Porto é criado um outro posto de observação meteorológico, no monte da Serra do Pilar (outrora denominado de Quebrantões), em Vila Nova de Gaia. Inicialmente tinha a designação de Posto Meteorológico e Magnético do Porto e mais tarde foi intitulado pelo topónimo como Observatório da Serra do Pilar. Este posto meteorológico, com casa adjunta para observação do sol e casa magnética, teve como fundadores o então diretor do Observatório de Lisboa, Brito Capelo e o seu amigo e colega, também ele capitão tenente da armada e engenheiro hidrógrafo, José Maria de Sousa Soares Andrea Ferreira. Foi questionada a pertinência da criação deste observatório quando na cidade já existia um, mas não existe explicação para tal. A dicotomia que prevalecia para defesa da sua tutela, era de um lado, a parte académica, dependente dos serviços técnicos e administrativos dos professores de Física e do outro lado, os oficiais da Armada da Marinha de Guerra que dirigiam os observatórios do país.

O primeiro diretor, Engº Soares Andrea e locais para implantação do observatório:

José Maria Soares Andrea Ferreira, amigo e colega de Dias Pegado é convidado a dirigir o Observatório em questão e foi destacado para o Porto. A sua incumbência inicial foi a de avaliar as diferentes condições físicas do terreno concedido pelo Ministério da Guerra, no lugar da Serra do Pilar, próximo ao Mosteiro. Desta avaliação constava analisar a altitude, exposição a ventos, colocação de aparelhos de medição e as condições de construção do próprio edifico. Perto do mesmo, encontrava-se a laborar a Fabrica de Sulfureto de Carbono, que além da poluição e maus cheiros que provocava, danificava a vegetação em redor e os fumos afetariam definitivamente os trabalhos científicos que se propunham fazer. Desagradado, Soares Andrea procura a todo o custo outros locais para a construção deste observatório, de preferência num local alto, limpo e com as condições que segundo ele seriam as ideais para um Observatório Meteorológico. Percorreu inúmeros lugares junto da cidade do Porto e em Gaia, em particular o lugar do alto do antigo Castelo de Gaia, cujo proprietário era um particular que lhe exigiu um avultado valor do qual não dispunha assim como outro terreno no Monte de Santo Ovídio Velho, mas que não o satisfez plenamente. Sem opções válidas, na sua maioria por razões financeiras ou logísticas, voltou novamente para o lugar da Serra do Pilar e as obras de construção tiveram início em 1883.
Era necessário guardar um certo espaço em volta do edifício e a cedência de uma porção de água do Aqueduto da Serra. Em 17 de Julho de 1885, na Direção das Obras Públicas do Distrito do Porto, é lavrado o auto de entrega do Posto Meteorológico e Magnético da Cidade do Porto, no lugar da Serra do Pilar e entregue ao seu diretor, Eng.º Soares Andrea, publicado em portaria de 9 de Junho de 1885.
O ano de 1885 é considerado a data de fundação do Posto Meteorológico da Serra do Pilar o qual mais tarde teve a designação de Observatório Meteorológico Princesa D. Amélia até 1913, data que marcou nova alteração de nome, como Observatório Meteorológico da Serra do Pilar.
As primeiras dificuldades com que Soares Andrea se confrontou foi com a falta de apoio financeiro do Observatório Central para apetrecharem de equipamentos de leitura o novo observatório. Tentou obter gratuitamente uma pêndula e uma luneta meridiana, pedida à Câmara Municipal do Porto e Associação Comercial do Porto em 1883. Estes aparelhos permitir-lhe-iam fazer as observações das estrelas e regular a pêndula para poder dar informações certas da hora local a quem lhe solicitasse. Estes materiais eram fundamentais para o bom desempenho do observatório no entanto sem os mesmos, o seu trabalho estaria comprometido. O papel de fornecer a hora oficial era assumido até então pelo Real Observatório Astronómico de Lisboa e cuja responsabilidade este não pretendia abdicar. Soares Andrea foi orientado a que se cingisse criar uma estação cronométrica destinada à regulação dos cronómetros dos navios aportados na cidade do Porto, e que deviam ser regulados pela hora legal nacional. O diretor do observatório via-se desanimado com as faltas de equipamentos, de recursos humanos e com o problema da fábrica de sulfureto de carbono. Apesar dos seus insistentes pedidos para a sua desativação, que no seu entender fora ilegalmente construída numa zona residencial, todas as suas diligências foram infrutíferas, o que o levou a tomar medidas drásticas - em certas épocas do ano ou dias retirava os funcionários a fim de evitar a inalação dos vapores.
Em quinze anos de dedicação na Direção do Observatório Meteorológico da Serra do Pilar, Soares Andrea conseguiu organizar um serviço meteorológico minimamente equipado e apoiado por um quadro habilitado de recursos humanos, resultado de uma eterna luta para responder ao rigor que ao próprio se impunha àqueles a quem prestava este serviço publico.
Desde junho de 1886 que se começaram a publicar Boletins Meteorológicos e os primeiros registos impressos são as Observações Diretas e Gráficos de Registo que datam de 27 de outubro de 1887. As observações eram feitas quatro vezes ao dia, às 9:00 h, meio-dia, 15 horas e 21 horas, através do barómetro, termómetro (…); vento (rumo e velocidade); nuvens (configuração e quantidade) ”. Registavam-se também a leitura “dos termómetros de relva e sol; evaporímetro (evaporação); udómetro (humidade); ozono; força do vento; trovoada; relâmpagos; neve, geada, saraiva, gelo, orvalho; coroa solar; halo solar; arco-íris (…) e estado geral do tempo”. As observações diárias eram transmitidas ao Observatório do Infante D. Luís, às 9:20h da manhã, pelo telégrafo e as outras horas do dia em folhas mensais impressas.
Em Outubro de 1898, Soares Andrea apresenta queixa do conselheiro F.J.B. Ferreira do Amaral, capitão da fragata e Diretor da Escola de Alunos Marinheiros do Porto, ao Diretor do Observatório Infante D. Luís, aos ministros da Marinha, Reino e Rei da desconsideração pessoal, indisciplina, injustiça e abuso de autoridade praticados pelo mesmo. Em 27 de Julho de 1900, o capitão-tenente António da Fonseca Sarmento apresenta-se como diretor interino, com um ofício do Diretor Geral da Instrução Pública, surpreendendo Soares Andrea, sem saber que se encontrava demitido por decreto, desde o dia 19 desse mês, ditando-se, por infelicidade do destino, o seu falecimento no ano seguinte, em 1901.

Sala de Fundo Local, Novembro 2012

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Padre Romero Vila – uma vida ao serviço da cultura e da solidariedade. Evocação no centenário do nascimento

Padre Romero Vila 
(Arquivo de imagens de António Conde)


A padaria do pai do Pe. Romero Vila sendo visível 
o proprietário encostado à porta e os colaboradores 
(Arquivo de imagens de António Conde)

Casa onde nasceu o Pe. Romero Vila, depois da recuperação 
(Foto de António Conde, 2012)

Casa onde nasceu Romero Vila – placa alusiva 
(Foto de António Conde, 2007)

Local: Coimbrões (Santa Marinha)

Data: 1912-1997

Sinopse: Nasceu em Coimbrões em 22.09.1912. Era o 13º e penúltimo filho do casal Vicente Romero Vila e Rita de Jesus, ele padeiro, oriundo da Galiza e ela nascida em Coimbrões, filha de pais oleiros. Seu pai havia fundado, em 1894, a Padaria Estrela em Coimbrões, na rua Barão do Corvo em prédio ainda existente.
Frequentou a escola do Araújo, o Colégio Osório Novais, o seminário de Vilar. Formou-se em Teologia no Seminário Maior do Porto.
Em 1940 foi ordenado presbítero.
Em 1963 iniciou a publicação dos seus estudos de história de arte.
Viveu em Coimbrões, com a irmã Alice, na Rua Barão do Corvo, nº 181.
Viveu no Lar do Hospital de S. Lázaro, no Porto, com a irmã Alice.
Faleceu, com 85 anos, em 29 de Agosto de 1997.

VERTENTES DA SUA VIDA E OBRA

O sacerdote:
1940 – Ordenado padre.
1940 (15 de Agosto) Celebra a 1ª missa na Capela de Santa Bárbara de Coimbrões.
1940 – Coadjutor da paróquia de Nª Sª da Conceição.
1942 – Prefeito no Seminário da Sé.
1944 – Pároco na paróquia de Paraíso, concelho de Castelo de Paiva.
1947 – Capelão no Hospital do Terço.
1955 - Acompanhou D. Francisco Nunes Teixeira, 1º bispo de Quelimane (Moçambique).
1955 – Missionário na Diocese de Quelimane
1960 – Regresso a Portugal. Capelão na igreja da Trindade (Porto).
1970 – Delegado do Centro D. Maria Isabel Brito e Cunha da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental.
Foi assistente da Ação Católica, Diretor dos Cruzados de Fátima, diretor espiritual da Tutoria de Menores.
Colaborou com a Misericórdia do Porto e de Vila Nova de Gaia.
Foi impulsionador da restauração do Jardim de Infância “Toca do Menino”, nas Devesas.

O historiador:
Colaborou com estudos históricos nos jornais O Gaiense, O Comércio de Gaia, O Comércio do Porto, nas revistas Museu, Amigos de Gaia e Gaya.

Temas tratados nos seus estudos de história de arte e literatura:

Arquitetura religiosa:
Mosteiro Serra do Pilar
Capela do Bom Jesus de Gaia
Igreja de Coimbrões
Artistas gaienses
Sousa Caldas
Fernandes Caldas
Teixeira Lopes
Augusto Santo
Gonçalves da Silva
Alves de Sousa
Manuel Lúcio
Fernandes de Sá
João de Afonseca Lapa
Soares dos Reis
Guilherme Camarinha
Profissões tradicionais
Ferradores em Gaia
Oleiros
Literatura
Camilo em Gaia
Os reitores de “As pupilas…”
Hagiologia
Nossa Senhora do Leite
Santa Liberata
Cerâmica gaiense
Azulejaria em Gaia
Cerâmica gaiense: Soares dos Reis, Devesas, Valadares, Carvalhinho
Santa Marinha
Arquitetura civil
Almenara de Coimbrões
Pelourinhos
Ação social e religiosa
Misericórdias
Os beneditinos em Gaia

O cidadão interveniente dirigente e colaborador de diversas instituições:
. Diretor da Associação de Bombeiros Voluntários de Coimbrões
. Diretor da Associação Cultural Amigos de Gaia.
. Diretor do Boletim Cultural de Gaia.
. Membro do Grupo de Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar.
. Fundador da Associação de Escritores de Gaia.
. Colaborador do Centro Democrático de Instrução Latino Coelho.
. Colaborador da Confraria de Santa Bárbara de Coimbrões.
. Colaborador do Sporting Clube de Coimbrões.
. Delegado do Centro D. Maria Isabel Brito e Cunha da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental.

Remissivas: Pe. Romero Vila/Coimbrões (Paróquia e Lugar) / História de Arte/ História Local gaiense.

Bibliografia:
. AGUIAR, Rui Pinto - Morreu o senhor Padre Romero. Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. 7, nº 44 (Dez. 1997), p. 3-8.
. Padre Romero Vila a repartição do pão do Espírito e da Cultura. O Tripeiro. - Ano XVI, série 7, nº 9/10 (Set./Out., 1997), p. 311.
. Padre Romero Vila. Almanak de Gaia (1991); Vila Nova de Gaia, Afons’eiro Edições, 1991, p. 13.
. SILVA, Humberto Pinho da - Figuras Inesquecíveis da nossa terra – Padre Romero Vila. Notícias de Gaia, 11.12.200, p. 6.

Sala de Fundo Local, Setembro de 2012

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Álvaro Cabral - O ator e autor gaiense que compôs a “Samaritana”

            Samaritana – Fado – Canção                     
Partitura da “Samaritana”
Local: Mafamude

Data: 1865-1918

Sinopse: 

Nascido na freguesia gaiense de Mafamude, Álvaro Augusto Cabral da Cunha Godolfim de Maia Figueiredo (1856-1918), artisticamente conhecido como Álvaro Cabral, foi um grande ator que pisou os melhores palcos de Portugal e do Brasil ao serviço de grandes companhias de teatro. Foi também autor de revista, secretário e diretor de cena. O seu nome ficou imortalizado por ter sido o autor e compositor do conhecidíssimo fado-canção, adotado pelo academia coimbrã, intitulado “Samaritana”, de cuja letra aqui reproduzimos as quadras iniciais:

Dos amores do Redentor                                     Samaritana,
Não reza a História Sagrada                                 Plebeia de Sicar,
Mas diz uma lenda encantada                               Alguém espreitando
Que o Bom Jesus sofreu d’amor                           Te viu Jesus beijar

Sofreu consigo e calou                                         De tarde quando
Sua paixão divinal,                                               Foste encontrá-lo só,
Assim como qualquer mortal                                Morto de sede
Que um dia d’amor palpitou                                  Junto à fonte de Jacob.

Vida e obra - Nascimento e criação na Rua da Bandeira (Mafamude)
Nasceu na Rua da Bandeira (freguesia de Mafamude), em 22 de Junho de 1865, filho de Álvaro Caetano Cabral e Maria Carlota Cabral. Os pais, naturais de Lisboa, ter-se-ão fixado em Vila Nova de Gaia pouco antes já que o pai era empregado da então recém-inaugurada linha de caminho-de-ferro. Alguns anos mais tarde devem ter regressado ao sul já que o filho Álvaro Cabral casou aos 21 anos, em Lisboa, na freguesia de Santos O Velho, com D. Margarida Emília de Paiva.

A vida artística
A parte mais conhecida da sua vida diz respeito à sua vida artística. Ter-se-á estreado como ator no teatro da Rua dos Condes, em Lisboa, na noite de 18.03.1890, na revista “Tim-Tim por tim-tim”, de Sousa Bastos. Refira-se que esta revista, da autoria de Sousa Bastos, foi considerada a revista mais popular nos finais do séc. XIX.
No ano seguinte Álvaro Cabral deu entrada no Teatro D. Maria II onde foi incorporado na Companhia da empresa “Rosas & Brasão”. Em 1898 esta empresa foi obrigada, por decisão governamental, a deixar o Teatro D. Maria, tendo sido acolhida no recém-criado Teatro D. Amélia (depois Teatro da República e hoje Teatro Municipal S. Luís), pelo seu criador o empresário Visconde de S. Luís Braga. Álvaro Cabral acompanhou, na mudança, a empresa Rosas & Brandão e permaneceu no novo teatro até 1905, ano em que se transferiu para a companhia do “Teatro da Avenida” onde permaneceu largos anos como ator e secretário da empresa.
Em 1911, na sua edição de 21 de Junho, o jornal “O Século” ao anunciar a realização, no Teatro das Variedades, duma festa em benefício do ator Álvaro Cabral refere que vai ser representada “a chistosa e magnífica revista Pó de Perlimpimpim, que em receitas sucessivas tem feito o maior sucesso de gargalhada e de concorrência” informando ainda que à “ récita assistem todos os intelectuais e artistas da nossa terá, isto é, a camada que mais aprecia o muito valor e talento de Álvaro Cabral.
Participou na revista “O 31”,que estreou em 26.07.1913, sendo um dos atores (entre 8) que representou o papel de 31. A peça esteve em cena durante 4 anos, num total de 2000 representações, feitas em 12 teatros de Lisboa, Porto, Rio de Janeiro, S. Paulo, Santos; Baía e Pernambuco.

Uma vida devotada ao teatro
Foi também ator e diretor em várias companhias de teatro em digressão pelo Porto e outras cidades de província, como era, aliás, muito usual na época.
Como autor escreveu a peça “Peço a Palavra”, escrita em colaboração com João Bastos e estreada em 1911; segundo Luís Francisco Rebelo nesta peça o “prólogo, localizado no céu, é pretexto para um comentário jocoso à mudança de regime”. Trata-se de uma revista em 2 atos e 6 quadros, musicada por Tomás Del- Negro, a qual hoje faz parte do acervo documental do Arquivo Distrital do Porto.
Em colaboração com Penha Coutinho escreveu também a peça “Santo António de Lisboa”, musicada também por Tomás Del-Negro, conservando a fonoteca da Câmara Municipal de Lisboa o respetivo registo áudio, a saber:  Couplets do fura-fura (revista "Festas a Stº António em Lisboa") / [intérp.] Olívia;  Mangerico e cravo de papel (revista "Festas a Stº António em Lisboa") / [intérp.] Olívia; Alcachofra (revista "Festas de Stº António em Lisboa") / [intérp.] Marina Mota.
Foi ainda autor de duas comédias, num ato, intituladas “Uma teima” e “O Pai da Criança”, escritas em 1890 e 1911, respetivamente. Nas palavras de Sousa Bastos, Álvaro Cabral foi um escritor “gracioso, correto e cheio de verve”.

O fado-canção “Samaritana”
A “Samaritana” é hoje um dos ex-libris do fado coimbrão; provavelmente Álvaro Cabral, autor da letra e da música, estaria longe de pensar que a canção que compôs viria a ser adotada pela academia coimbrã e ganharia tanta popularidade. A composição poética original foi reduzida pelo cantor e narra o episódio bíblico da mulher samaritana a quem Jesus pediu água para beber, junto ao chamado poço de Jacob. A composição terá sido feita em 1914 e a grande referência é a interpretação de Edmundo Bettencourt, um poeta e cantor que renovou a canção de Coimbra e pertenceu ao grupo da “Presença”, do qual saiu em rutura juntamente com o escritor Miguel Torga. Esta versão foi gravada em 1928, no Porto, e tinha acompanhamento instrumental, entre outros, de Artur Paredes (pai do célebre Carlos Paredes). À data existiam já três versões deste fado-canção, a última das quais (e única datada) é de 1922, o que marca a enorme recetividade da “Samaritana”. Ao longo de quase um século de existência esta canção emblemática da academia coimbrã foi interpretada por vários cantores ligados àquela academia e, mais recentemente, por um cantor do chamado fado de Lisboa.
   
O lugar da memória
Esta multifacetada figura das artes da representação faleceu prematuramente no Porto, no hospital do Bonfim, no dia 18 de Março de 1918. Foi atingido pela tristemente célebre pneumónica quando se achava na capital nortenha, em pleno labor, como primeiro ator e diretor de cena da companhia de Luís Ruas que trabalhava no Teatro Nacional de S. João representando a revista “Papagaio Real”. Fora dos palcos Álvaro Cabral era conhecido por ser um homem de bom trato, alegre cavaqueador e grande boémio.
Foi esta personalidade do mundo da cultura, nascida em terras gaienses e cidadão do mundo, cuja figura, por permanecer ignorada do grande público, aqui pretendemos dar a conhecer e evocar.

Remissivas: Personalidades gaienses/ Mafamude/autores gaienses/Teatro.

Bibliografia:

. Arquivo Distrital do Porto, Registos Paroquiais: Batismos/Mafamude: 1864.
. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Vol. V, Lisboa, Editorial Enciclopédia, p. 301. *
. Ilustração Popular, 1914-1916. *
. Ilustração Portuguesa, nº 664 de 11.11.1918.
. Jornal “A Risota”, Ano I, nº 10, de 3 de Maio de 1908.
. Jornal “O Século”, n.º 10605, de 21 de Junho de 1911, p.3.
. O Tripeiro VI, VIII, 1918, p. 320 *
. REBELO, Luís Francisco - 100 anos de teatro português (1880-1990), Porto, Brasília Editora, 1984, p. 54.*
. RODRIGUES, Pedro Alexandre Caldeira: Ernesto Rodrigues, um homem do Teatro na I República, Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2007 (Dissertação de mestrado em História e Cultura Europeia Contemporâneas).
* Pertença do acervo bibliográfico da BPMVNG

Webgrafia: (visualizada em 20.08.2012)

 Sala de Fundo Local, Agosto de 2012