terça-feira, 29 de novembro de 2011

O “Alfredo das Rosas”: um floricultor gaiense de renome - Alfredo Moreira da Silva (1859-1932)

Anúncio da Firma Moreira da Silva
Alfredo Moreira da Silva e esposa
Pavilhão da Firma de Alfredo Moreira da Silva nas
Festas do Peso da Régua de 1916 (Ilustração Portuguesa, 4.09.1916)

Rapariga do Rancho de Perosinho que participou na Festa da Flor, 
a expensas de Alfredo Moreira da Silva (Ilustração Portuguesa, 24.06.1918)


Local: Grijó


Data: séc. XIX - XX


Sinopse
   Oriundo de uma modesta família do lugar de Corveiros, em Grijó, Alfredo Moreira da Silva, depois de um curto tirocínio numa casa hortícola portuense, cultivou a paixão pelas plantas e pelas flores e fundou, em 1895, um pequeno estabelecimento ligado à floricultura e depressa se tornou num dos mais respeitados floricultores portugueses. Ganhou o título de jardineiro ornamentista da Casa Real. A firma que criou, há 116 anos, continua nas mãos dos seus trinetos com plantações nos viveiros de Grijó e nos concelhos de Mira e Coimbra, numa área de mais de 100 hectares, mantendo hoje um lugar de destaque na horticultura ornamental europeia sendo detentora de cerca de uma centena de medalhas de ouro, uma centena de medalhas de prata e inúmeros diplomas de honra, boa parte conseguida no estrangeiro. A firma com sede na Quinta da Revolta, no Porto, está dirigida para o mercado interno e externo exportando os seus produtos para França, Itália, Espanha, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Alemanha, Grécia, Polónia, Líbano e Jordânia.
    Em 1964 uma revista japonesa da especialidade considerou as rosas de Moreira da Silva (neto) entre os cinco maiores roseiristas do mundo.
   O gaiense Alfredo das Rosas, como era popularmente chamado, é o verdadeiro exemplo do autodidacta com sucesso que legou aos vindouros a imagem de criador e de empreendedor.

Vida e obra
     Alfredo Moreira da Silva nasceu em Corveiros (Grijó) em 12 de Maio de 1859, filho de António José da Silva Barbosa e de Maria Fonseca Moreira e Sousa. Trabalhou na construção civil e nas horas vagas ocupava o seu tempo a contemplar a construção de jardins. Trabalhou depois num horto na Quinta das Virtudes, no Porto, onde aprendeu e desenvolveu a arte de horticultor, embora com especial predilecção pelas roseiras.
    Em 1880 casou com Albina Oliveira tendo o casal seis filhos (Albano, João, Joaquim, Palmira e Avelino – todos nascidos em Grijó e, por último, Ermelinda, nascida em Miragaia).
    Em 1894 arrendou uma pequena quinta em Corveiros onde montou o seu primeiro horto, ainda hoje mantido em actividade. Mais tarde arrendou também a quinta da Pena, em Perosinho, onde expandiu os seus viveiros e através do estudo e da experimentação conseguiu criar novas plantas que ganharam fama no estrangeiro.
    A actividade comercial, sob a designação de “Novo Estabelecimento de Horticultura e Jardinagem de Alfredo Moreira da Silva”, começou por ser exercida na cidade do Porto, num pequeno estabelecimento e horto fundados em 1895 e situados no Largo do Priorado (em Cedofeita), com entrada pela antiga Rua da Carvalhosa (hoje Rua de Aníbal Cunha), nº 295. Com o início da construção da igreja de Cedofeita, nesse local, teve de mudar de instalações para a Rua D. Manuel II (antiga Rua do Triunfo), em terrenos anexos ao Quartel da Torre da Marca (hoje ocupado pela Reitoria da Universidade do Porto), sendo estas inauguradas em Janeiro de 1899. (cf. O Tripeiro, V, XIII, p. 105 e V, V, p. 213). Refira-se que no local ainda hoje se mantém em actividade um estabelecimento de floricultura denominado “A Loja de Flores”.
    Para além destas actividades a empresa de horticultura desenvolveu intensa actividade quer na concepção de jardins públicos e particulares, quer participando em feiras e certames com stands de exposição, quer ornamentado grandes festas e acontecimentos.
    Em 5 de Outubro de 1910, dia da proclamação da República, estava prevista uma viagem régia a Vila Real, Pedras Salgadas e Vidago, para inauguração do famoso e centenário hotel. De acordo com o jornal “O Comércio do Porto” (04.10.1910) “O horticultor Alfredo Moreira da Silva vai para as Pedras Salgadas para ornamentar de plantas o balneário, os hotéis e o Casino. Leva 200 caixas com flores diversas”. Pelas razões óbvias a visita foi interrompida e as ornamentações não cumpriram a sua (real) missão.
    Em 1916 o já famoso horticultor participou com um stand nas festas do Peso da Régua (ver imagem), de que nos dá conta a Ilustração Portuguesa, onde é referido que “os activos e conscienciosos horticultores portuenses, para os quais a pomicultura e a floricultura não têm segredos para obterem os mais formosos produtos, também ali concorreram com uma vasta e variada instalação de frutas e tiveram a recompensa de uma medalha de ouro, a única que se concedeu a expositores de fora da região” (Ilustração Portuguesa, nº 550, 1916).
    A propósito de uma outra exposição de flores e frutos (a que alude a imagem) respigámos da Ilustração Portuguesa a referência de que os seus viveiros são “sempre abastecidos do que há de melhor em roseiras, árvores frutíferas e florestais são incontestavelmente os maiores da península. Nada mais justo que o acto do júri conferindo-lhes, além das medalhas de ouro e de prata, o primeiro prémio ao conjunto da sua instalação, realmente admirável. Aos Srs. Moreira da Silva deve o país um benéfico impulso à sua arborização, quer em pomares, quer em bosques, graças à sua propaganda e às variedades apuradas e de confiança que fornecem”. (Ilustração Portuguesa, nº 609, 1917).
    Na qualidade de jardineiro ornamentista da Casa Real, Alfredo Moreira da Silva concebeu e floriu os jardins do Palácio da Ajuda. (O Tripeiro, V, IX, p. 152).
    Em 1920 Alfredo Moreira da Silva adquiriu a José Duarte da Silva Júnior a Quinta da Revolta, no Porto, e para aí deslocou a sede da empresa e a plantação dos seus viveiros e estufas, ao longo de cerca de três hectares. Estes estendiam-se também à Quinta da Bonjóia. Refira-se que os seus viveiros eram visitados, em busca da contemplação e da inspiração, por vários artistas, nomeadamente pintores, poetas, gente do teatro e membros da alta sociedade nortenha, contando-se entre eles o actor Eduardo Brasão.
     Conta-se que o malogrado presidente da república, Sidónio Pais, na viagem que havia iniciado ao Porto quando foi assassinado, tinha previsto uma visita aos viveiros de Moreira da Silva.
    Entre as muitas realizações do grande horticultor gaiense, de norte a sul do país, refira-se a Festa da Flor, apoiada pelo Jornal “Século”, em que foi muito apreciado o desfile das lindas camponesas do rancho de Perosinho, patrocinado por Alfredo Moreira da Silva, conforme é documentado na imagem que foi capa da Ilustração Portuguesa, de 24.06.1918.
    Em Vila Nova de Gaia Alfredo Moreira da Silva aparece associado à plantação (e provavelmente à concepção) do Jardim do Morro, junto ao mosteiro da Serra do Pilar, em finais da década de vinte do século passado.
   É esta figura de verdadeiro “self made man” e de exemplo de empreendedorismo, falecido em 10 de Outubro de 1932, que queremos aqui hoje evocar.

Remissivas: Silva, Alfredo Moreira da. Floricultor. Grijó / Gaienses ilustres/  Horticultura e Jardinagem/ Jardins de Gaia.

Bibliografia:
. GUIMARÃES, J.A. Gonçalves – Serra do Pilar – Património Cultural da Humanidade, Vila Nova de Gaia, Fundação Salvador Caetano, 1999.
. Ilustração Portuguesa, nº 550 de 4.09.1916
. Ilustração Portuguesa, II Série, nº 609, de 22.10.1917.
. Ilustração Portuguesa, II Série, nº 644, de 24.06.1918
. O Comércio do Porto de 04.10.1910.
. O Tripeiro, VII, Ano 22, 2003, p. 74 e vários
. VALE, Carlos - Álbum de Grandes Figuras: Horticultor Alfredo Moreira da Silva in Rotary Club de Vila Nova de Gaia, Ano VI, nº 66, Setembro 1988, p. 7.



Sala de Fundo Local, Novembro de 2011.







quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Gaia: imagens com história (IV) - Entreposto do Vinho do Porto – empresas exportadoras

Trecho da Rua D. Leonor Freitas, antiga Rua Nova das Devesas, freguesia de Santa Marinha, onde actualmente está sediada a empresa Barros & Almeida





 Rua D. Leonor Freitas – Armazéns da firma 
Barros & Almeida antes da remodelação das instalações

Rua D. Leonor Freitas – Instalações actuais da 
firma Barros & Almeida (foto de António Conde)



































Data: 1ª metade do séc. XX (anos 20) [1927] 

Descrição: A imagem apresenta a sede da firma Hutcheson & Cª, sita à Rua D. Leonor Freitas, e a atividade que se desenvolve à sua volta ligada ao transporte de vinho do Porto em pipas. São visíveis um carreiro com o respetivo carro e moço dos bois e três veículos motorizados sendo dois de caixa aberta, destinados ao transporte de pipas, e um destinado ao transporte de passageiros. Ao lado dos carros de transporte estão os respetivos motoristas fardados e de boné. Todas as pessoas estão em aparente posição de pose para a fotografia incluindo um dos trabalhadores que empurra as pipas. 
Ao fundo é visível a entrada da Quinta das Devesas e o respetivo solar que pertenceu à família do Conde das Devesas e hoje se encontra em estado de degradação. 
A firma Hutcheson foi estabelecida em 1881 e dedicou-se à exportação de Vinho do Porto. Em 1927 esta firma foi comprada pela firma Barros & Almeida a qual ainda hoje aí se encontra instalada. 
Por datação crítica considerámos que a imagem é do ano de 1927, à data da venda da firma, já que uma das imagens que a seguir se apresentam mostra o mesmo cenário mas já com a tabuleta da firma Barros & Almeida. Esta data coincide com a adoção dos primeiros veículos motorizados que vão tomar parte do transporte anteriormente feito em carros de bois.

Remissivas: Entreposto do vinho do Porto/ Firma Barros &Almeida/ Devesas (lugar, freguesia de Santa Marinha) /  Conde das Devesas. 

Bibliografia: 
. GUIMARÃES, J.A. Gonçalves; GUIMARÃES, Susana; Prontuário Histórico do Vinho do Porto, Vila Nova de Gaia, Gabinete de História e Arqueologia, 2001. 
. Porto. Margens do Tempo, Livraria Figueirinhas; Porto/Lisboa, 1997.p. 95. 

Sala de Fundo Local, Novembro de 2011 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A obra dos escultores gaienses em terras de Guimarães















“D. Afonso Henriques” – Soares dos Reis (foto de António Conde)














Escultor António de Azevedo














Francisco Martins Sarmento – António de Azevedo(Foto de António Conde)














Gravador Molarinho – busto de Teixeira Lopes (foto de António Conde)















Monumento a Alberto Sampaio - António de Azevedo (Foto de António Conde)





Local: Guimarães
Data: séc. XIX - XX
Sinopse: Uma das esculturas mais conhecidas em Portugal é a de D. Afonso Henriques e encontra-se situada no Monte Latito, junto ao castelo de Guimarães; porventura muita gente desconhecerá que o seu autor foi o escultor gaiense Soares dos Reis. O original desta estátua, em gesso, encontra-se, aliás, numa sala do Mosteiro da Serra do Pilar, contígua ao claustro. Acresce que a chamada Escola de Escultura de Gaia tem outros representantes na cidade de Guimarães. Espalhados pelos jardins e praças daquela cidade, que em 2012 será a Capital Europeia da Cultura, existem monumentos esculpidos pelos escultores gaienses Teixeira Lopes e António Ferreira de Azevedo e uma estátua, ao 1º Conde de Arnoso, fundida, em Vila Nova de Gaia, na Fábrica de Bronzes de Arte de José C. Guedes e inaugurada em 1960.
Num passeio virtual, que pode servir de mote à visita real, vejamos, em pormenor, a obra dos nossos artistas.
Soares dos Reis (1847-1889). A primeira obra deste escultor, em Guimarães, foi uma imagem da Virgem, a qual, por ter sido considerada demasiado profana, em terra de profunda religiosidade, não foi muito bem aceite.
Em 1885 o município vimaranense, na comemoração do VII centenário da morte de D. Afonso Henriques, contratou com Soares dos Reis a execução da estátua, a qual, dois anos mais tarde, foi inaugurada no Largo de S. Francisco. Concluída a obra na Fundição de Massarelos, no início de Setembro de 1887, foi inaugurada a 20 do mesmo mês com a presença do rei D. Luís I. O projecto de Soares dos Reis teve duas versões em tudo idênticas; na primeira versão a cota da malha ia até ao joelho e na versão final a cota desceu até aos pés. Em 1911 a estátua foi transferida para a praça maior, a Praça do Toural sendo a estátua conhecida popularmente como “o rei preto”. Em 1940, na comemoração dos Centenários e consequente recuperação dos monumentos que constituem a Colina Sagrada (castelo, igreja de S. Miguel e Paço dos Duques de Bragança), foi transferida para o largo fronteiro a estes monumentos. É lá que a que podemos encontrar hoje no seu lugar altaneiro; representa o rei como um guerreiro, de armadura, empunhando a espada levantada. Refira-se que existe uma réplica desta estátua, em Lisboa, no castelo de S. Jorge, a qual foi inaugurada em 25 de Outubro de 1947, por ocasião das Comemorações do VIII Centenário da Conquista de Lisboa aos Mouros. Foi oferecida pela cidade do Porto à cidade de Lisboa.
Teixeira Lopes (1866-1942). É obra deste escultor o busto do Gravador Molarinho, de seu nome Arnaldo José Nogueira (1828-1911) existente na antiga Feira do Pão, hoje denominada de Largo Condessa do Juncal. O monumento foi feito de parceria com o escultor António Ferreira de Azevedo.
António Ferreira de Azevedo (1889-1968). Escultor nascido na freguesia gaiense de Mafamude, sendo filho de Abílio Pereira de Azevedo. Radicou-se em Guimarães onde desde 1931 a 1958 foi professor e mais tarde director na Escola Industrial Francisco de Holanda. Naquela cidade minhota, onde faleceu em 18 de Abril de 1968, passou os últimos 37 anos da sua vida e aí produziu boa parte da sua obra, embora também esteja representado em Braga e no Porto. São da sua autoria:
. o monumento ao Gravador Molarinho cujo busto, acima referido, é da autoria de António Teixeira Lopes.
. o busto e monumento a Martins Sarmento (1833-1899) que foi inaugurado em 1933, no Largo Martins Sarmento ou Jardim do Carmo, por ocasião do centenário do nascimento daquele insigne arqueólogo.
. o busto a Alberto Sampaio (1841-1908) que foi previsto por altura das comemorações do centenário do nascimento daquele historiador mas só foi executado mais tarde e inaugurado em 10 de Junho de 1956 integrado nas comemorações do Dia de Portugal. Situa-se no Largo dos Laranjais.
. escultura “Faunito” – integrada numa fonte existente na actual Alameda de S. Dâmaso e que agora foi ligeiramente deslocada no âmbito das obras de reabilitação da Capital Europeia da Cultura 2012. Serviu de modelo a esta escultura um então jovem aluno da Escola Industrial Francisco da Holanda e mais tarde comerciante da urbe vimaranense de nome José de Sousa.
. escultura “Rapariguinha” – encima uma fonte existente no jardim da Alameda de S. Dâmaso.
Manuel Leão (op. cit. p. 37) atribuiu a António de Azevedo a autoria do tanque monumental da praça do Toural mas tal informação carece de fundamento.
Aqui deixámos este breve registo de obras de três importantes figuras da Escola de Escultura de Gaia a merecer uma visita.



Bibliografia:. Álbum fototípico e descritivo das obras de Soares dos Reis. Livro do Centenário – 1889-1989, Vila Nova de Gaia, Afonseiro Edições, 1988
.GUIMARÃES, Gonçalves; GUIMARÃES, Susana, Retratos Reais da Monarquia Constitucional, V.N. de Gaia, Câmara Municipal de V. N. de Gaia, 2000.
. LEÃO, Manuel; A arte em Vila nova de Gaia, Vila Nova de Gaia, Fundação Manuel Leão, 2000
.

Webgrafia:. http://repositorio-blog.planetaclix.pt/EstatuasGuimaraes.pdf [consultado em 28.10.2011]
.http://www.oconquistador.com/func/printversion.asp?idEdicao=132&id=3034&idSeccao=733&Action=noticia [consultado em 28.10.2011]


Sala de Fundo Local, Outubro de 2011.