quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A tourada em terras de Vila Nova de Gaia (I) – a praça de touros da Serra do Pilar















A tourada na Serra do Pilar vista pelo humor de “O Charivari” (edição de 27.04.1889).














Ponte D. Luís no início do séc. XX – a caminho da tourada.






Local: Campo de Manobras da Serra do Pilar
Data: Séc.s XIX e XX
Sinopse: A arte tauromáquica, popularmente conhecida como festa brava, é um fenómeno característico dos países ibéricos tendo a Espanha feito alargar a sua influência aos países que colonizou da chamada América Latina, nomeadamente México, Colômbia, Peru, Venezuela e Guatemala. Em Portugal as corridas de touros têm uma maior representatividade no Sul do País, nomeadamente no Ribatejo e Estremadura sendo aí que se situam a maior parte das praças de touros com espectáculos permanentes, as ganadarias e negócios congéneres, as escolas de forcados, etc.
Apesar de existirem monumentais praças de touros em algumas cidades do litoral Norte, nomeadamente Viana do Castelo, Póvoa de Varzim, Espinho e Figueira da Foz, os espectáculos taurinos aqui realizados têm uma periodicidade reduzida. No entanto os espectáculos tauromáquicos já tiveram uma enorme popularidade no Norte de Portugal nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX sendo rara a terra de média dimensão que não tivesse a sua praça de touros fixa, ou o espectáculo anual, em praça amovível, por ocasião das festas concelhias.
Vila Nova de Gaia e as terras vizinhas (Matosinhos e Porto) não foram excepção, tendo havido praças na Serra do Pilar, na Granja, na Rua 14 de Outubro e no Morro da Serra do Pilar. Refira-se que a Praça da Serra do Pilar ombreou com a portuense Praça da Alegria registando as duas praças verdadeiras enchentes em espectáculos que decorreram à mesma hora.


A Praça de touros da Serra do Pilar (1888)
A primeira praça de touros da Serra do Pilar situava-se no chamado Campo de Manobras, bem perto da linha do aqueduto da Serra e foi inaugurada em 1888.
Segundo é referido por Horácio Marçal a praça era construída em madeira e tinha capacidade para 800 pessoas, conhecendo verdadeiras enchentes. Terá sido o que aconteceu com a corrida realizada nos dias 8 e 9 de Julho de 1888 em que estreou em Portugal o célebre matador espanhol Luís Mazzantini, considerado no género um dos maiores artistas de todos os tempos. Marçal refere que “A fina flor da população portuense assistiu a essas duas touradas [lá e na Praça da Alegria] chegando a haver tumultos e prisões, por o público, devido à carência de lugares, pretender invadir a praça”.
Provavelmente devido à sua precária construção, com estruturas de madeira, esta primeira praça não resistiu ao desgaste do tempo e teve de ser desmantelada. Em 1900 o empresário tauromáquico Calhamar Pinto da Silva terá acordado com o empresário Manuel Neves, dono do Teatro Carlos Alberto, a construção de uma nova praça na Serra do Pilar segundo o modelo da praça de touros de Algés. (Cf. O Tripeiro, V, VI, p. 69).


A segunda (?) praça de touros da Serra do Pilar (1902)
Embora não saibamos se este contrato foi cumprido por estes intervenientes sabe-se, no entanto, que em 1902 já estava pronta e nos dias 30 e 31 de Março a praça da Serra do Pilar foi inaugurada com uma corrida em que foram lidados 8 touros com ferro de Luís Patrício. (Cf. O Tripeiro, V, VII, p. 262). No dia 15 do mês de Junho seguinte decorreu na mesma praça um “Grandioso Torneio Tauromáquico - Garraiada Popular” , com organização presidida por José Pinto Amorim da Costa e que contou com a participação de três cavaleiros e vários bandarilheiros locais. (Cf. O Tripeiro, V, XI, pp. 100, 191).
Famosa ficou também a corrida de touros a antiga portuguesa organizada pelo Clube dos Fenianos Portuenses, em 10 de Julho de 1905, em que actuaram Bento de Araújo, Joaquim Alves, Eduardo de Macedo e outros. A praça encheu com 8 000 pessoas e os serviços de portagem da ponte D. Luís venderam para cima de 19 000 bilhetes de peão e 515 de trens e outros veículos. De acordo com o Jornal A Defesa, publicado no Candal (Ano I, nº 8, de 21 de Maio de 1905) o Clube dos Fenianos “servindo-se do pretexto desta festa (…) intercede e esforça-se ante a Companhia de Carris Americanos do Porto para que esta faça a ligação férreo-americana entre esta Vila e o Porto”.
Em 1908 esta praça de touros foi arrendada em hasta pública por 401$000 reis (Cf. O Tripeiro, V, XIV, p. 123).
Refira-se, em nota final, que a Praça de Touros da Serra do Pilar, nos anos de 1903 a 1907, foi palco de vários espectáculos de ascensão em balão, em que tomaram parte os aeronautas gaienses Belchior e “Ferramenta”, os quais entusiasmavam o público gaiense. Foi aliás nesta praça que, em Julho de 1907, se deu o desastre que vitimou, por intoxicação, o aeronauta “Ferramenta” quando procedia ao enchimento com gás.
Os tempos ditaram um declínio dos espectáculos taurinos na região nortenha tendo a praça de touros da Serra do Pilar fechado no final dos anos vinte. Suceder-lhe-á a praça de touros pertencente a José de Deus Monteiro, construída na Rua 14 de Outubro.


Remissivas: Tauromaquia em Vila Nova de Gaia/Praça de Touros da Serra do Pilar


Bibliografia:
. Jornal “A Defesa”, Ano I, Abril a Junho de 1905.
. Jornal “Charivari” de 27 de Abril de 1889.
. MARÇAL, Horácio; Touradas, Toureiros e Tauródromos no Porto, em Gaia e em Matosinhos, in Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, nº 18, Agosto 1971. pp. 109-142.
. LEITE, Arnaldo. A “Festa Brava” – As praças da “Serra” e da “Alegria”. Uma corrida de beneficência – Tardes de sol e entusiasmo. In “O Tripeiro”, V Série, Ano VI, nº 3, Julho 1950, pp. 53-56.
. O Tripeiro – números citados no texto.



Sala de Fundo Local, Outubro de 2011.