terça-feira, 18 de outubro de 2011

Gaia: imagens com história (III)











Casa dos Almadas na Rua das Sete Passadas, freguesia de Santa Marinha (foto de Emílio Biel, c. 1905 – colecção do Arquivo Nacional de Fotografia).











Casa dos Almadas, propriedade da Sandeman (foto de António Conde, 2011).













Instalações da Sandeman e novo local de colocação do brasão (foto de António Conde, 2011).



Título: O solar dos Almadas e o quotidiano gaiense nas actividades ligadas ao vinho do Porto. Data: inícios do séc. XX (c. 1905).
Descrição: Imagem da rua das Sete Passadas (paralela à Avenida Diogo Leite) junto ao Convento de Corpus Christi. Em primeiro plano ergue-se a Casa dos Almadas, actualmente propriedade da firma Sandeman e com ligeiras alterações no primeiro corpo de armazéns, com telhados de duas águas (cf. imagem nº 2). No corpo residencial da construção destaca-se, na parte central, o brasão dos Almadas, o qual foi apeado e colocado nas instalações da mesma empresa, no Largo do Ribeirinho (cf. imagem nº 3). A casa dos Almadas está situada junto à cerca do convento de Corpus Christi e ao local onde, na Idade Média, se localizavam os estaleiros navais ou taracenas sendo ainda visíveis hoje no local algumas estruturas da sua construção.
A imagem denota um ambiente de grande azáfama sendo visível uma fila de, pelo menos, sete “carreiros” que faziam o transporte de vinho do Porto carregado nos carros de bois estando os animais jungidos com as típicas cangas e as pipas seguras pelos fueiros ou estadulhos. À frente da junta de bois encontra-se o “moço dos bois”, que regra geral era uma criança de aguilhada no ombro e atrás do carro, ou ligeiramente ao lado, ia o carreiro. Curioso é o facto de o primeiro carreiro da fila ser uma mulher, vestida com o traje típico, numa profissão que era destinada aos homens mais possantes.
Como último pormenor repare-se nos homens de negócios que assomam às janelas provavelmente dando instruções ou querendo simplesmente posar para o fotógrafo.


Glossário:
Carreiro
– pessoa responsável pela condução, em carro de duas rodas puxado por bois ou vacas, de mercadorias, nomeadamente pipas, carros de mato, produtos agrícolas, etc. Também lavrava terrenos agrícolas com arado ou charrua, transportava pedra carregada num estrutura deslizante chamada zorra ou transportava terra ou areia. Normalmente era um homem possante, fazia-se acompanhar de um moço que ia junto aos animais e empunhava uma aguilhada. Para evitar que os eixos de madeira dos carros chiassem e produzissem ruído os carreiros eram obrigados a untá-los com sabão embebido em água. Era uma profissão importante no Portugal rural de há algumas décadas, assim como, até à época da motorização desenvolvida após a 2ª Guerra Mundial, fazia parte do dia a dia das nossas cidades. Juntamente com os almocreves asseguraram durante séculos o transporte de mercadorias por via terrestre.
Aguilhada – vara que ajudava na condução dos animais e que na ponta tinha uma ponta metálica chamada aguilhão ou ferrão com a qual o carreiro picava os animais, sobretudo nas subidas pronunciadas em que os animais acusavam algum cansaço. O tamanho de ferrão era fiscalizado pela GNR de modo a que os animais não fossem picados em exagero.
Fueiros ou estadulhos – Espécie de paus que encaixavam de cada lado do chedeiro (estrutura do carro de bois), e que serviam para segurar as mercadorias transportadas ou alfaias de suporte (dornas, destinadas ao transporte de uvas ou bagaços; caniças, destinadas ao transporte de espigas de milho, caixas abertas, destinadas ao transporte de areia ou cereais; pipas, destinadas ao transporte de líquidos).
Cangas – utensílio colocado sobre o pescoço dos animais e que presa com uma correia ou tamoeiro, mantém os animais emparelhados e seguros ao cabeçalho do carro. No Minho são profundamente decoradas. Nas zonas de montanha em que os animais puxam pela cabeça e não pelo pescoço, a canga é substituída por um jugo que assenta sobre as molhelhas (estrutura almofadada sobre a cabeça dos animais, ligadas por correias ou sogas). Na Antiga Roma era costume colocaram uma canga ou jugo sobre os noivos que a partir deste acto simbólico assumiam a condição de cônjuges (do latim conjugis).



Bibliografia:
GUIMARÃES, Gonçalves; Gaia e Vila Nova na Idade Média, Porto; Universidade Portucalense, 1995.
PEREIRA, Gaspar Martins Pereira, O Douro e o Vinho do Porto, Porto, Edições Afrontamento, 1991.


Remissivas: Casa dos Almadas/Sandeman/Taracenas de Gaia/Entreposto do Vinho do Porto/Heráldica



Sala de Fundo Local, Outubro de 2011