quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Gaia: imagens com história (I) - Quadro rural junto à Igreja de Mafamude














Data: 1ª metade do séc. XX (ca. década de 20)

Descrição: Imagem da igreja de Mafamude e das quintas que a rodeavam nas primeiras décadas do séc. XX, tirada do cruzamento da actual Avenida da Republica com a Rua João de Deus. São visíveis algumas construções ainda existentes, na parte sul da igreja, na actual Rua de Raimundo de Carvalho. No canto inferior direito ficava uma fonte que tomou o nome do lugar – a fonte de Trancoso. Actualmente o território que a imagem abrange é cortado pelas ruas de Joaquim Nicolau de Almeida, de S. Gonçalo, 14 de Outubro e Via de Cintura. No espaço frontal da imagem situa-se hoje o Corte Inglês.

Bibliografia:
SILVA, Marques da - A paróquia de S. Cristóvão de Mafamude. Oitenta anos a viver nela, in B.A.C.A.G., Vol. 7º, nº 47, Junho de 1999, pp. 3-8.

Remissivas: Igreja de Mafamude / Lugar de Trancoso / Fonte de Trancoso /Quinta do Pinheiro Manso /Quinta do Passal /Engº Jorge Faria Vieira de Araújo / Caminho do Senhor da Boa Morte /El Corte Inglês.

Fonte: B.P.M.V.N.G. - Sala de Fundo Local , Fevereiro de 2011

A tourada em terras de Vila Nova de Gaia (I) – a praça de touros da Serra do Pilar















A tourada na Serra do Pilar vista pelo humor de “O Charivari” (edição de 27.04.1889).














Ponte D. Luís no início do séc. XX – a caminho da tourada.






Local: Campo de Manobras da Serra do Pilar
Data: Séc.s XIX e XX
Sinopse: A arte tauromáquica, popularmente conhecida como festa brava, é um fenómeno característico dos países ibéricos tendo a Espanha feito alargar a sua influência aos países que colonizou da chamada América Latina, nomeadamente México, Colômbia, Peru, Venezuela e Guatemala. Em Portugal as corridas de touros têm uma maior representatividade no Sul do País, nomeadamente no Ribatejo e Estremadura sendo aí que se situam a maior parte das praças de touros com espectáculos permanentes, as ganadarias e negócios congéneres, as escolas de forcados, etc.
Apesar de existirem monumentais praças de touros em algumas cidades do litoral Norte, nomeadamente Viana do Castelo, Póvoa de Varzim, Espinho e Figueira da Foz, os espectáculos taurinos aqui realizados têm uma periodicidade reduzida. No entanto os espectáculos tauromáquicos já tiveram uma enorme popularidade no Norte de Portugal nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX sendo rara a terra de média dimensão que não tivesse a sua praça de touros fixa, ou o espectáculo anual, em praça amovível, por ocasião das festas concelhias.
Vila Nova de Gaia e as terras vizinhas (Matosinhos e Porto) não foram excepção, tendo havido praças na Serra do Pilar, na Granja, na Rua 14 de Outubro e no Morro da Serra do Pilar. Refira-se que a Praça da Serra do Pilar ombreou com a portuense Praça da Alegria registando as duas praças verdadeiras enchentes em espectáculos que decorreram à mesma hora.


A Praça de touros da Serra do Pilar (1888)
A primeira praça de touros da Serra do Pilar situava-se no chamado Campo de Manobras, bem perto da linha do aqueduto da Serra e foi inaugurada em 1888.
Segundo é referido por Horácio Marçal a praça era construída em madeira e tinha capacidade para 800 pessoas, conhecendo verdadeiras enchentes. Terá sido o que aconteceu com a corrida realizada nos dias 8 e 9 de Julho de 1888 em que estreou em Portugal o célebre matador espanhol Luís Mazzantini, considerado no género um dos maiores artistas de todos os tempos. Marçal refere que “A fina flor da população portuense assistiu a essas duas touradas [lá e na Praça da Alegria] chegando a haver tumultos e prisões, por o público, devido à carência de lugares, pretender invadir a praça”.
Provavelmente devido à sua precária construção, com estruturas de madeira, esta primeira praça não resistiu ao desgaste do tempo e teve de ser desmantelada. Em 1900 o empresário tauromáquico Calhamar Pinto da Silva terá acordado com o empresário Manuel Neves, dono do Teatro Carlos Alberto, a construção de uma nova praça na Serra do Pilar segundo o modelo da praça de touros de Algés. (Cf. O Tripeiro, V, VI, p. 69).


A segunda (?) praça de touros da Serra do Pilar (1902)
Embora não saibamos se este contrato foi cumprido por estes intervenientes sabe-se, no entanto, que em 1902 já estava pronta e nos dias 30 e 31 de Março a praça da Serra do Pilar foi inaugurada com uma corrida em que foram lidados 8 touros com ferro de Luís Patrício. (Cf. O Tripeiro, V, VII, p. 262). No dia 15 do mês de Junho seguinte decorreu na mesma praça um “Grandioso Torneio Tauromáquico - Garraiada Popular” , com organização presidida por José Pinto Amorim da Costa e que contou com a participação de três cavaleiros e vários bandarilheiros locais. (Cf. O Tripeiro, V, XI, pp. 100, 191).
Famosa ficou também a corrida de touros a antiga portuguesa organizada pelo Clube dos Fenianos Portuenses, em 10 de Julho de 1905, em que actuaram Bento de Araújo, Joaquim Alves, Eduardo de Macedo e outros. A praça encheu com 8 000 pessoas e os serviços de portagem da ponte D. Luís venderam para cima de 19 000 bilhetes de peão e 515 de trens e outros veículos. De acordo com o Jornal A Defesa, publicado no Candal (Ano I, nº 8, de 21 de Maio de 1905) o Clube dos Fenianos “servindo-se do pretexto desta festa (…) intercede e esforça-se ante a Companhia de Carris Americanos do Porto para que esta faça a ligação férreo-americana entre esta Vila e o Porto”.
Em 1908 esta praça de touros foi arrendada em hasta pública por 401$000 reis (Cf. O Tripeiro, V, XIV, p. 123).
Refira-se, em nota final, que a Praça de Touros da Serra do Pilar, nos anos de 1903 a 1907, foi palco de vários espectáculos de ascensão em balão, em que tomaram parte os aeronautas gaienses Belchior e “Ferramenta”, os quais entusiasmavam o público gaiense. Foi aliás nesta praça que, em Julho de 1907, se deu o desastre que vitimou, por intoxicação, o aeronauta “Ferramenta” quando procedia ao enchimento com gás.
Os tempos ditaram um declínio dos espectáculos taurinos na região nortenha tendo a praça de touros da Serra do Pilar fechado no final dos anos vinte. Suceder-lhe-á a praça de touros pertencente a José de Deus Monteiro, construída na Rua 14 de Outubro.


Remissivas: Tauromaquia em Vila Nova de Gaia/Praça de Touros da Serra do Pilar


Bibliografia:
. Jornal “A Defesa”, Ano I, Abril a Junho de 1905.
. Jornal “Charivari” de 27 de Abril de 1889.
. MARÇAL, Horácio; Touradas, Toureiros e Tauródromos no Porto, em Gaia e em Matosinhos, in Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, nº 18, Agosto 1971. pp. 109-142.
. LEITE, Arnaldo. A “Festa Brava” – As praças da “Serra” e da “Alegria”. Uma corrida de beneficência – Tardes de sol e entusiasmo. In “O Tripeiro”, V Série, Ano VI, nº 3, Julho 1950, pp. 53-56.
. O Tripeiro – números citados no texto.



Sala de Fundo Local, Outubro de 2011.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Gaia: imagens com história (III)











Casa dos Almadas na Rua das Sete Passadas, freguesia de Santa Marinha (foto de Emílio Biel, c. 1905 – colecção do Arquivo Nacional de Fotografia).











Casa dos Almadas, propriedade da Sandeman (foto de António Conde, 2011).













Instalações da Sandeman e novo local de colocação do brasão (foto de António Conde, 2011).



Título: O solar dos Almadas e o quotidiano gaiense nas actividades ligadas ao vinho do Porto. Data: inícios do séc. XX (c. 1905).
Descrição: Imagem da rua das Sete Passadas (paralela à Avenida Diogo Leite) junto ao Convento de Corpus Christi. Em primeiro plano ergue-se a Casa dos Almadas, actualmente propriedade da firma Sandeman e com ligeiras alterações no primeiro corpo de armazéns, com telhados de duas águas (cf. imagem nº 2). No corpo residencial da construção destaca-se, na parte central, o brasão dos Almadas, o qual foi apeado e colocado nas instalações da mesma empresa, no Largo do Ribeirinho (cf. imagem nº 3). A casa dos Almadas está situada junto à cerca do convento de Corpus Christi e ao local onde, na Idade Média, se localizavam os estaleiros navais ou taracenas sendo ainda visíveis hoje no local algumas estruturas da sua construção.
A imagem denota um ambiente de grande azáfama sendo visível uma fila de, pelo menos, sete “carreiros” que faziam o transporte de vinho do Porto carregado nos carros de bois estando os animais jungidos com as típicas cangas e as pipas seguras pelos fueiros ou estadulhos. À frente da junta de bois encontra-se o “moço dos bois”, que regra geral era uma criança de aguilhada no ombro e atrás do carro, ou ligeiramente ao lado, ia o carreiro. Curioso é o facto de o primeiro carreiro da fila ser uma mulher, vestida com o traje típico, numa profissão que era destinada aos homens mais possantes.
Como último pormenor repare-se nos homens de negócios que assomam às janelas provavelmente dando instruções ou querendo simplesmente posar para o fotógrafo.


Glossário:
Carreiro
– pessoa responsável pela condução, em carro de duas rodas puxado por bois ou vacas, de mercadorias, nomeadamente pipas, carros de mato, produtos agrícolas, etc. Também lavrava terrenos agrícolas com arado ou charrua, transportava pedra carregada num estrutura deslizante chamada zorra ou transportava terra ou areia. Normalmente era um homem possante, fazia-se acompanhar de um moço que ia junto aos animais e empunhava uma aguilhada. Para evitar que os eixos de madeira dos carros chiassem e produzissem ruído os carreiros eram obrigados a untá-los com sabão embebido em água. Era uma profissão importante no Portugal rural de há algumas décadas, assim como, até à época da motorização desenvolvida após a 2ª Guerra Mundial, fazia parte do dia a dia das nossas cidades. Juntamente com os almocreves asseguraram durante séculos o transporte de mercadorias por via terrestre.
Aguilhada – vara que ajudava na condução dos animais e que na ponta tinha uma ponta metálica chamada aguilhão ou ferrão com a qual o carreiro picava os animais, sobretudo nas subidas pronunciadas em que os animais acusavam algum cansaço. O tamanho de ferrão era fiscalizado pela GNR de modo a que os animais não fossem picados em exagero.
Fueiros ou estadulhos – Espécie de paus que encaixavam de cada lado do chedeiro (estrutura do carro de bois), e que serviam para segurar as mercadorias transportadas ou alfaias de suporte (dornas, destinadas ao transporte de uvas ou bagaços; caniças, destinadas ao transporte de espigas de milho, caixas abertas, destinadas ao transporte de areia ou cereais; pipas, destinadas ao transporte de líquidos).
Cangas – utensílio colocado sobre o pescoço dos animais e que presa com uma correia ou tamoeiro, mantém os animais emparelhados e seguros ao cabeçalho do carro. No Minho são profundamente decoradas. Nas zonas de montanha em que os animais puxam pela cabeça e não pelo pescoço, a canga é substituída por um jugo que assenta sobre as molhelhas (estrutura almofadada sobre a cabeça dos animais, ligadas por correias ou sogas). Na Antiga Roma era costume colocaram uma canga ou jugo sobre os noivos que a partir deste acto simbólico assumiam a condição de cônjuges (do latim conjugis).



Bibliografia:
GUIMARÃES, Gonçalves; Gaia e Vila Nova na Idade Média, Porto; Universidade Portucalense, 1995.
PEREIRA, Gaspar Martins Pereira, O Douro e o Vinho do Porto, Porto, Edições Afrontamento, 1991.


Remissivas: Casa dos Almadas/Sandeman/Taracenas de Gaia/Entreposto do Vinho do Porto/Heráldica



Sala de Fundo Local, Outubro de 2011