quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Os gaienses e a aeronáutica (IV) : o malogrado Campo de Aviação da Madalena

















Limites aproximados da localização da Campo de Aviação da Madalena (entre a ribeira da Madalena e a Ribeira de Ateães) feita por decalque aproximado da Planta topográfica e cadastral.


















Planta do Campo de Aviação da Senhora da Hora
























Local aproximado do Campo de Aviação da Senhora da Hora


Local: Madalena


Data: anos 20 do século XX


Sinopse: Na década de vinte do século passado o norte do País, num processo liderado pelo município portuense e demais instituições da “Cidade Invicta” e atenta a necessidade de um campo de aviação, discutia sobre a melhor localização que servisse a cidade e a região. Lisboa já dispunha do seu campo de aviação, o “Campo Internacional de Aterragem de Alverca, o qual funcionou até à substituição pelo aeroporto da Portela.
Elegeram-se, à partida, vários lugares para o então denominado Campo de Aviação do Norte ou Campo de Aviação Internacional, a saber: Madalena (Vila Nova de Gaia), Candal (Vila Nova de Gaia), Pasteleira (Porto) e Senhora da Hora (Matosinhos). Destes o que reunia melhores condições, de acordo com a opinião dos melhores peritos portugueses em aeronáutica, era o campo a localizar na orla marítima da freguesia gaiense da Madalena. Porém o município portuense apoiava a opção do campo da Senhora da Hora pelo que o campo da Madalena, em 1927, foi preterido. Entre os defensores da solução “Senhora da Hora” estavam o professor Ezequiel de Campos, um homem com uma ampla visão sobre o planeamento da cidade, o qual defendia que “ o campo de aviação deve ficar tão perto quanto possível do centro da Cidade” e daí que defendesse “ o campo de aviação na Senhora da Hora: perto do centro da Cidade, perto de Leixões e perto das estações de caminho de ferro; embora fosse ideal obter ainda distâncias menores. Não perturbará muito os lugares de residência.”
Em boa verdade, na prática, nenhuma das opções foi concretizada, embora o Aeroclube do Porto tenha iniciado, já nos anos 30, o processo, depois indeferido, de aquisição de terrenos para o campo de aviação na Senhora da Hora. Este localizava-se sensivelmente no lugar da actual saída para Matosinhos (ao lado do NorteShoping) e serviu, contudo, para alguns festivais aéreos.
A solução acabou por ser encontrada no final da década de 30 com o projecto de construção do aeroporto da Região Norte em Pedras Rubras ocupando terrenos dos concelhos de Matosinhos, Maia e Vila do Conde. As obras foram iniciadas em 1943 e a inauguração ocorreu em 3 de Dezembro de 1945 com um voo proveniente de Lisboa; a internacionalização deste aeroporto dar-se-ia 11 anos mais tarde, em 1956.
Recorde-se que em 1935 a aeronáutica militar construiu um aeródromo em Espinho, o qual assegurou as ligações aéreas civis com Lisboa. Neste período quando o aeroporto de Lisboa não estava operacional, ou em casos de escala técnica, algumas companhias europeias, usaram o aeródromo de Espinho.

Um “aeroporto” em Gaia nos anos 30?
Como já foi referido a opção de construir o campo de aviação do Norte na freguesia da Madalena ganhou muitos adeptos mas, provavelmente, o peso político do município portuense e de várias instituições portuenses que defendiam uma infra-estrutura de cariz urbano, convenceram o governo da ditadura militar a desistir dessa opção.
Refira-se que o projecto do campo de aviação da Madalena foi encetado tendo sido feito o levantamento topográfico e cadastral de uma enorme extensão de terrenos necessários para o efeito. Na escolha da localização ideal trabalharam os melhores técnicos da aeronáutica como foi o caso do tenente-coronel aviador Cifka Duarte, o qual trabalhou também na selecção da localização dos campos de aviação da Achada (Ilha Terceira, nos Açores), em 1928 e do campo de aviação da Palmeira (Braga), em 1926. A opção pela Madalena recebeu, aliás, o parecer favorável da Inspecção da Aeronáutica Militar, a qual referiu expressamente que “dos três campos que foram indicados, Senhora da Hora, Alto da Pasteleira e da Madalena e que foram visitados, medidos e confrontados não resta dúvida, nem aos leigos, de que o último possui vantagens sobre os dois primeiros, que só depois de custosíssimas transformações dariam um medíocre campo para a aviação”. Em Julho de 1927 o vereador gaiense Artur Mariani teve, em Lisboa, em encontro informal com o tenente-coronel Cifka Duarte e o major Ribeiro da Fonseca que lhe terão afirmado que “o Campo da Madalena era de todos quantos tinham sido apresentados, o único em condições de se tornar um bom campo para receber aviões destinados ao comércio e portanto internacional”.
Em Vila Nova de Gaia depressa se gerou um movimento de solidariedade entre as várias freguesias, as quais, reunidas em maioria na sala de sessões da Junta de Freguesia de Santa Marinha, resolveram solidarizar-se com a Câmara e prestar todo o auxílio material e financeiro para que a construção do campo da Madalena fosse uma realidade.
Refira-se que, neste período, o concelho de Vila Nova de Gaia, estava a braços com uma profunda crise motivada pela criação do Entreposto exclusivo do Vinho do Porto. Esta medida que, a médio prazo, se tornou num factor de creditação do vinho do Porto nos mercados mundiais teve como efeitos imediatos a obrigatoriedade do encerramento de todos os armazéns de preparação de vinhos comuns, licores, etc. e a sua deslocação para fora dos limites da zona demarcada do Entreposto. Daí que todos os trabalhadores ligados a estes sectores, bem como outros ligados à tanoaria, caixotaria e outros ofícios viram os seus postos de trabalho ameaçados. O município perdeu rendimentos dos impostos das empresas que optaram em se deslocar para junto da periferia do porto de Leixões.
No contexto desta situação económica e social vivida a nível concelhio a construção dum campo de aviação traria novas perspectivas ao concelho. Nesse sentido o município gaiense fez todas as diligências junto das entidades competentes, nomeadamente com a 1ª Região Militar e o presidente da “Grande Comissão para a Construção dum Campo de Aviação no Norte do País”, na defesa do campo de aviação em terras gaienses.
Contudo todos os esforços foram baldados e o campo de aviação da Madalena não passou de uma miragem cuja memória caída no olvido queremos aqui resgatar.


Remissivas: Aeronáutica -- Vila Nova de Gaia, Madalena (freguesia), Campo de Aviação da Madalena, Aeronáutica -- Portugal.


Bibliografia:
. Arquivo Municipal Sofia de Melo Breiner - Planta topográfica e cadastral do campo de aviação da Madalena - ano de 1929; PT/ALL/CMVNG-AMVNG-M-A-01; Cota: 18357, doc. 151, Cx. 16.
. Arquivo Municipal Sofia de Melo Breiner – Livro de actas de sessões da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia; ano de 1927.
. Jornal “A Terra de Gaia”, ano de 1927.
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http://www.portoantigo.org/2010/06/campo-de-aviacao.html (consultado em 2011.07.31)
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http://www.cfportugal.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=266%3Aas-ligacoes-aereas-entre-lisboa-e-o-porto&catid=28%3Aboletim-no-412&Itemid=15 (consultado em 2011.07.30)

Sala do Fundo Local, Setembro de 2011.