quarta-feira, 1 de junho de 2011

A propósito de… uma relíquia centenária do nosso fundo bibliográfico – “Tanoaria (a vapor) Valente Perfeito”























Local: Lugar do Marco, freguesia de Santa Marinha


Data: 1911


Sinopse:
Tanoaria (a vapor) Valente Perfeito, Vila Nova de Gaia, Tipografia 5 de Outubro, 1911

A obra que aqui nos propomos apresentar e cuja ficha bibliográfica é aqui reproduzida pode ser considerada como um documento de propaganda e de gestão de uma sociedade comercial sedeada em Vila Nova de Gaia e com filial em Lisboa, na Quinta da Conceição (ao Poço do Bispo), que se dedicava à produção e comercialização de material de tanoaria.
Diz respeito à Tanoaria Valente Perfeito que, sob a denominação social de Valente Perfeito, Filho & Cª, era uma das mais expressivas empresa nacionais produtoras de vasilhame vinário destinado, essencialmente, ao armazenamento de vinho do Porto. Foi fundada em 1874 por João Rodrigues Valente Perfeito e tinha a sua sede no lugar do Marco e Rua das Costeiras, na freguesia gaiense de Santa Marinha. Foi premiada com medalha de ouro na Exposição de Anvers de 1894 e na Exposição Agrícola-Industrial de Gaia do mesmo ano.
Refira-se que Vila Nova de Gaia, devido ao facto de ser um grande entreposto comercial de vinhos, nomeadamente de vinho do Porto, foi nos séculos XIX e XX o grande centro da indústria de tanoaria do País. De acordo com o Almanaque de Vila Nova de Gaia de 1896, só na freguesia de Santa Marinha, existiam 36 oficinas de tanoaria sendo muitas delas privativas das várias empresas produtores de Vinho do Porto.

O livro “Tanoaria (a vapor) Valente Perfeito”
O livro pretende apresentar os produtos fabricados pela empresa, “bem assim a estatística do movimento da nossa filial durante o semestre de Janeiro a Junho de 1911 e da nossa sede durante o ano económico – Julho de 1910 e Junho de 1911”. Inclui ainda um parecer sobre avinhações* e preparo de vasilhame dado pelo Dr. Ferreira da Silva, Lente da Academia Politécnica do Porto.
A estatística fornecida apresenta os mapas demonstrativos do custo de mão-de-obra semanal. O material produzido é o seguinte: cascos, pipas, meias-pipas, quartos de pipa, quintos de pipa, vigésimos de pipa, tonéis, e diversos artigos onde se incluem barris de sardinha, barricas para exportação de cal e mineral, capas para invólucros de vasilhas exportadas com vinho, celhas, canecos e vasilhas variadas. Foram produzidas nesse período 24.515 unidades.
Os trabalhadores dividiam-se entre tanoeiros, lavrantes e jornaleiros. No dia 10 de Junho de 1910 houve uma greve de tanoeiros e gravantes, assim como no dia 29 de Outubro.
Em breve análise dá-se conta de que a matéria-prima usada na fábrica custava o dobro do que custava vinte anos antes e que a mão-de-obra custava mais 50%, embora o preço do vasilhame se mantivesse. O preço de referência da matéria-prima dizia respeito à chamada aduela americana, de Nova Orleans, esta de superior qualidade e muito usada na produção de vasilhame em Espanha, na França e em Itália.
É referido que esta questão agravava o preço dos vinhos a exportar considerando que seria proveitoso o recurso à madura de castanho, a qual não tinha substâncias que prejudicassem o vinho, como taninos, por exemplo. Eram assim de parecer que deveria ser incentivada em Portugal a plantação de castanheiros, árvore que ao fim de 15 anos estava pronta a cortar. Contudo é referido que a empresa comprou, em 1911, grande quantidade de madeira de castanho nas Beiras, Alentejo e Algarve, sendo, no entanto, os custos do transporte ferroviário demasiado elevados pelo que ficava mais barato recorrer à importação de Itália.


A terminar são feitas várias recomendações, a saber:
- às associações comerciais de Lisboa e Porto para tomar providências em relação ao tratado de comércio com o Brasil, garantindo mercado para a produção nacional de tanoaria.
- que, para benefício da tanoaria nacional, do comércio e da lavoura, fossem criadas escolas oficiais de aprendizagem para operários tanoeiros em Lisboa e em Gaia.
- que fosse feito um cadastro de todos os operários tanoeiros e dos operários em geral para recensear e avaliar as situações de desemprego permanente.

Breve biografia de Valente Perfeito – A figura de João Rodrigues Valente Perfeito, para além de capitalista e de empresário do ramo da tanoaria, é conhecida pela precoce dedicação à causa republicana, no período do pós-Ultimato, tendo sido o grande financiador e mentor do Partido Republicano em Vila Nova de Gaia. Foi ainda criador dos jornais “Federação Escolar” e “Os Vencidos”.

Curiosidade – Refira-se que nesta unidade industrial foi construído, em 1935, um balseiro de 200 000 litros, que teve direito à edição de um livro de honra, assinado por várias personalidades ligadas ao Vinho do Porto. Este terá sido um facto único, num tempo em que não havia ainda o Guinness Book.


Glossário:
* avinhação – técnica que tem por finalidade impedir que as substâncias existentes na madeira de cascos novos se dissolvam no vinho, prejudicando o seu sabor. Este tratamento era feito com vaporização de água, seguido de aplicação de aguardente vínica ou vinho fino. Podia ainda ser feito com água salgada, potassa ou cal.


Remissivas: Tanoarias/Vinho do Porto/Actividade industrial gaiense/Santa Marinha (freguesia).


Bibliografia:
. Almanaque de Gaia 1912, Vila Nova de Gaia, Luz do Operário, 1912.
.GUIMARÃES, Gonçalves; Memória Histórica dos Antigos Comerciantes e Industriais
de Vila Nova de Gaia, Vila Nova de Gaia, Associação Comercial e Industrial de Vila
Nova de Gaia, 1997.
. Tanoaria (a vapor) Valente Perfeito. - [S.l.] : [s.n.], [1911] (Vila Nova de Gaia : Tipografia
5 de Outubro). Cota: 674(469.121) [G] Reg.: 6-1-1-15-5974-G-D



Sala de Fundo Local, Maio de 2011