quarta-feira, 1 de junho de 2011

Os gaienses e a aeronáutica no início do séc. XX (I) – Belchior da Fonseca e o balão “Lusitano”











Os aeronautas gaienses, in “Os Pontos”, semanário ilustrado, nº 49, de 29 de Novembro de 1903



















Postal, editado pela Casa Biel, pouco depois da tragédia



















Local da farmácia do Belchior – Rua Direita, Vila Nova de Gaia



Local: Santa Marinha

Data: 21 de Novembro de 1903

Sinopse:
Ao pensarmos nos primórdios da aeronáutica vem-nos à mente a imagem da “Passarola”, o aparelho que segundo o seu criador, o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, em requerimento, de 1709, dirigido a D. João V, servia “para se andar pelo ar da mesma sorte que pela terra, e pelo mar, e com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentas e mais léguas de caminho por dia, no qual instrumento se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e a terras mais remotas”.
Quem na sua juventude não leu, ou ouviu comentar, as obras de ficção de Júlio Verne intituladas “Cinco semanas num balão” e “A volta ao mundo em 80 dias”, escritas em 1863 e 1872 respectivamente, e que na época muito contribuíram para a divulgação da aeronáutica?
O século XIX, sobretudo na sua segunda metade, foi, de facto, o século de desenvolvimento da aeronáutica, em aparelhos de ar quente, ganhando esta prática enorme popularidade entre praticantes e espectadores, fosse sobre a forma de diversão e recreio, fosse a nível militar. Com efeito os franceses utilizaram já o balão de ar quente, na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871, para vencer o cerco dos prussianos e passar mensagens para as suas tropas.
Sendo Portugal um dos pioneiros desta invenção é natural que as ascensões em balões de ar quente tenham ganho enorme popularidade. Também na região do Porto foram organizadas, nos finais do séc. XIX, vários espectáculos de ascensões protagonizadas pelo francês Emilien Castanet (1883-1884) subindo sobre os jardins do Palácio de Cristal e tendo na quinta ascensão levado consigo um burro que sucumbiu depois de uma queda aparatosa sobre uma floresta, em virtude de o balão ter perdido altitude, lá para os lados de Pegueiros, concelho de Santa Maria da Feira.


Um aeronauta gaiense

Em 1903 surgiu no Porto outro francês, de nome Emile Carton, tendo feito várias ascensões no seu balão. Numa dessas ascensões teve a companhia de um farmacêutico gaiense chamado Belchior Fernandes da Fonseca, grande entusiasta das ascensões em balão, o qual aos balcões da sua farmácia situada na Rua Direita, perto da Fonte do Cabeçudo, fazia verdadeiras tertúlias sobre a prática aeronáutica. Há muito que Belchior estudava em manuais questões técnicas sobre o funcionamento dos aparelhos de ar quente, sobre orientação, ventos, etc. Daí que não descansou enquanto não convenceu o francês a vender-lhe o balão e alguns amigos a investir financeiramente nessa empresa.

Assim, em parceria com César Marques dos Santos e o Engº José António Almeida adquiriram o balão, depois baptizado de “Lusitano”, e fizeram uma série de ascensões. A primeira realizou-se na praça de touros então situada no Campo de Manobras da Serra do Pilar num domingo que foi dia de Santos. Houve uma grande enchente de gente na praça, engalanada com colchas, quer pela novidade, quer pela divulgação que os jornais fizeram ao evento. Depois de alguns problemas iniciais decorrentes do enchimento do balão, Belchior acompanhado de Tomás Cardoso não querendo desiludir o público presente deu ordens para cortar as cordas e o “Lusitano” lá foi subindo lentamente, quase batendo na bancada. O público fez uma grande ovação e o “Lusitano” lá foi cortando as nuvens e ao fim de pouco tempo foi pousar na Quinta das Boucinhas, em Oliveira do Douro, onde foi recebido em apoteose.
Oito dias depois resolveu Belchior repetir a proeza, na mesma praça de toiros, tendo tomado excepcionais precauções em relação ao enchimento do balão, corrigindo assim deficiências da anterior subida. Convidou para companheiros de viagem dois jornalistas portuenses. O público aderiu em massa, movido pela curiosidade e por um dia solarengo, e encheu a lotação da praça, ficando largos milhares nas imediações. Em breve o balão fez a sua subida sem problemas e rumou a sul por Santo Ovídio e a oeste para a Afurada onde ganhou altitude e se ocultou por entre as nuvens. Depois voltou a ser visto sobre a Serra do Pilar, o Palácio de Cristal e rumou a Matosinhos onde suavemente encontrou o solo.
Foi a consagração de Belchior que não perdeu tempo a marcar uma nova ascensão, desta vez no Palácio de Cristal. Além de Belchior subiram Tomás Cardoso e os convidados Padre Amadeu de Vasconcelos e Corregedor da Fonseca. Depois de alguns problemas técnicos que adiaram a partida o balão lá fez a subida e rumou a Sul sobrevoando Vila Nova de Gaia, passando nos Carvalhos e acabando numa descida calma em Fiães, no concelho de Santa Maria da Feira. Belchior foi recebido fervorosamente pela multidão que o acompanhou, como um herói, até à sua farmácia, na Rua Direita de Vila Nova de Gaia.
Foi marcada nova ascensão para o dia 21 de Novembro, um sábado desse ano de 1903. Por ser dia de trabalho foi pouca a multidão que acorreu aos jardins do Palácio de Cristal. Acompanhavam Belchior os seus amigos e sócios financiadores César Marques e o Engº José António de Almeida. O balão teve uma ascensão normal, rumou aos céus de Vila Nova de Gaia mas depressa foi empurrado para oeste, para os lados da Foz do Douro e subitamente foi ocultado pelas nuvens não mais tornando a ser visto. Prevendo o pior foi pedido auxílio marítimo tendo saído do porto de Leixões o rebocador Mindelo e o vapor Tritão para iniciar as buscas. Porém todos os esforços foram em vão pois nem os corpos nem os destroços foram jamais vistos. Nas horas e dias imediatos não faltaram todo o tipo de boatos, sobre a localização dos aventureiros, que auguravam quer boas quer más notícias.
A quarta viagem de “O Lusitano”, no fatídico dia 21 de Novembro de 1903, que Belchior tinha anunciado de “viagem mistério para estudo das correntes aéreas” ficou marcada pelo mistério da tragédia que enlutou a terra de Gaia que perdia assim três dos seus aventureiros filhos. Conta-se que o pai de César Marques dos Santos não conseguiu superar a dimensão da tragédia da perda do filho querido e reza a lenda que mandou construir na sua quinta da Chamorra, em Vilar do Paraíso, uma torre tão alta que permitisse a vista do mar, para que o filho naufragado pudesse localizar a casa paterna, ou ele próprio, no caso de o filho já estar morto, poder avistar de lá o seu corpo que o mar tinha tragado.

Texto de António Conde


Remissivas: Ascensões aerostáticas em Gaia/Aeronáutica -- primórdios / Personalidades gaienses/Santa Marinha (freguesia).

Bibliografia:

. GOMES, J. Costa; Belchior Fernandes da Fonseca. Uma vítima da aeronáutica, in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. VI, nº 41, pp. 5-10.
. O Tripeiro, V Série, Vol. IX, pp. 221, 282.

. PONTE, Miguel Nunes da; PONTE, Luís Nunes da; Memórias de Gaia através do Bilhete Postal Ilustrado, Vila Nova de Gaia, Miguel Nunes da Ponte Ldª Edições e Publicações, 2002.
. VALE, Carlos; As ascensões espaciais e os pioneiros vilanovenses, in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. I, nº 7, pp. 12-15.


Sala de Fundo Local, Maio de 2011