quinta-feira, 16 de junho de 2011

Os gaienses e a aeronáutica no início do séc. XX (II) – o “Ferramenta”

















António Bernardes, o “Ferramenta”



Local: Santa Marinha

Data: Julho de 1907

Sinopse: Ainda a terra gaiense estava mergulhada na maior dor, pela perda no mar de três dos seus filhos aeronautas, em 21 de Novembro de 1903, e já outro gaiense, nascido no Candal e serralheiro de profissão, se preparava para o seu “baptismo” de voo em aeróstato. Trata-se de António Bernardes, conhecido pela alcunha de “Ferramenta”, o homem que acompanhou as ascensões de Emilie Carton, no Porto e que era assíduo frequentador das tertúlias aeronáuticas na farmácia do Belchior, na Rua Direita de Vila Nova de Gaia.
Também o “Ferramenta” aspirava construir um balão e ascender nele e nem a tragédia do desaparecimento do “Lusitano” o demoveu da sua paixão. António Bernardes construiu o seu balão que denominou de “O Português”, com uma capacidade para 1 200 metros cúbicos, que poderia elevar-se com o peso bruto de 800 Kg e marcou a sua primeira ascensão para o dia 3 de Abril de 1904 nos jardins do palácio de Cristal. No dia aprazado o balão foi conduzido ao Palácio, em dois carros de bois, com a filarmónica a abrir caminho. Quando se ensaiava a ascensão o governador civil, temendo o pior, proibiu a subida. No entanto o “Ferramenta” cortou as cordas e o balão depois de roçar nas tílias subiu mesmo, perante os aplausos do público. Andou quatro horas pelo ar e foi pousar num campo, em S. Cosme, no concelho de Gondomar.
Em Setembro de 1904 o governador civil do Porto negou aos aeronautas “Ferramenta” e Magalhães Costa* autorização para nova ascensão.
Entretanto Ferramenta construiu um novo balão, o “Nacional”, com 22 metros de comprimento e capacidade para 800 m3 de gás o qual foi exposto na Praça de Touros da Serra do Pilar. Nele fez uma primeira ascensão em Lisboa, na Praça de Algés, com uma subida pouco feliz. Repetiu depois no Jardim Zoológico de Lisboa, perante a assistência entusiástica de milhares de pessoas e foi pousar próximo de Santo António da Charneca, depois de ter subido a grande altura e de ter pairado no ar durante bastante tempo.
Transcrevemos a notícia dada pelo jornal “A Defesa”, do Candal, na sua edição de 5 de Abril de 1905, que seguia de perto o percurso do seu conterrâneo.
“Em Lisboa, subiu com êxito no balão “Nacional” dizem os jornais. Atingiu 544 metros de altura. Desceu na Moita, às 6,45 horas da tarde, tendo subido às 4 da tarde com 700 m3 de gás. Ao passar o rio Tejo ia a 200 metros de altura. Teve de fazer manobras de fios para não perder altura. Hoje vai fazer nova ascensão no Jardim Zoológico e antes da sua partida para o Brasil vai ainda subir na alameda municipal da Régua”.
De seguida partiu para o Brasil onde fez subidas em S. Paulo, Pernambuco, Pará e Rio de Janeiro mobilizando grande entusiasmo junto da comunidade portuguesa que o aplaudiu como um herói.
Depois deste périplo regressou a Gaia, em 1906, cheio de dinheiro e fama. Reuniu enormes apoios para a construção de um aparelho mais sofisticado tendo partido para Paris onde desenvolveu um balão que baptizou com o nome de “Internacional”. Com ele fez uma série de ascensões, com o maior êxito, no Porto, em Lisboa e na Figueira da Foz.
Em Julho de 1906 realizou na Praça de Toiros da Rua da Alegria, perante uma multidão de mais de 15 000 pessoas, a 24ª ascensão.
No mês seguinte, a 26 e 27, realizou-se um festival aerostático, de novo na Praça da Alegria, em que, para além do “Ferramenta”, tomou parte uma ginasta espanhola, de nome Mercedes, tendo substituído a barquinha do seu balão “Granada” por um trapézio, tendo realizado, a 100 metros de altura, arrojados números. Desta vez o “Internacional” atingiu mais de 1000 metros de altura, e desceu na Rechousa, na quinta do tenente Joaquim Rangel, da Guarda Municipal.
Em Setembro teve lugar a 28ª ascensão e foi especial por ter sido a primeira ascensão nocturna em Portugal. O balão subiu até aos 400 metros de altura e, como o vento ameaçasse desviar o “Internacional” para os lados do mar, “Ferramenta” preparou, com êxito, a descida indo pousar na Rua do Gólgota.
Subiu outra vez no Palácio de Cristal, em benefício da aeronauta espanhola Mercedes, que tinha partido uma perna numa ascensão na Praça da Alegria, e que terminou na Quinta de Sacais, tendo sido socorrida pelo Dr. Alfredo de Magalhães. O balão do “Ferramenta” foi pousar a Rio Tinto, no meio de um viçoso nabal, tendo o seu proprietário exigido a reparação dos prejuízos causados.
O “Internacional” foi vendido ao aeronauta César Campos e “Ferramenta” deslocou-se de novo a Paris onde comprou, por um conto de réis, na Casa Lachambre, um novo balão, segundo o modelo nº 14 de Santos Dumond, em que o aeronauta brasileiro que foi pioneiro em voos em aeroplanos dera voltas á Torre Eifel.
Em Julho de 1907 quando o “Ferramenta” juntamente com os barqueiros Alfredo “Bóia” e Augusto “Intruja” e auxiliado pelos seus amigos Alfredo Pinheiro da Rocha, Carlos Saraiva e Manuel Fonseca “Carne Seca”, procediam ao enchimento do seu “Aero-Móvel”, deu-se uma inesperada fuga de gás que provocou uma intoxicação que os deixou a todos em estado grave. Este acidente foi fatal para António Bernardes “Ferramenta” que não resistiu aos gases mortíferos e sucumbiu, depois de ter efectuado, com êxito, nada menos que 31 ascensões.
No funeral realizado para o cemitério de Santa Marinha, em Vila Nova de Gaia, participaram milhares de gaienses. Junto do seu túmulo, e em sinal de homenagem, Luísa Augusta da Costa Santos recitou uma bela poesia de Arnaldo de Lacerda.
Vila Nova de Gaia acabaria assim por perder, no curto espaço de quatro anos, quatro aventurosos filhos que ficarão para sempre recordados entre os pioneiros da aeronáutica em Portugal.
Refira-se que estes espectáculos que marcaram os primórdios da aeronáutica ganharam tal popularidade em território gaiense que, no início da década de vinte de novecentos, Vila Nova de Gaia prestou grandiosa homenagem aos aviadores que fizeram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, sendo também erigido um monumento e incluído o nome de Largo dos Aviadores no sítio da Bandeira.


Notas:

* Magalhães Costa (Guilherme António Magalhães Costa era um aeronauta gaiense, nascido em Canelas em 1884. Fez várias ascensões com o “Ferramenta” em várias cidades portuguesas e em Espanha. Estudou balonística em França com o célebre Emile Carton e em Paris comprou, na casa Lachambre, o balão que baptizou com o nome de “Portugal” e com o qual fez ascensões no Brasil, em Belém do Pará, em Maio de 1905. Do Brasil terá passado à Argentina e Uruguai onde se terá ligado à aviação.

Texto de António Conde


Remissivas: Ascensões aerostáticas em Gaia/Primórdios da aeronáutica/ Personalidades gaienses/Santa Marinha (freguesia).


Bibliografia:

. GUIMARÃES, Gonçalves; GUIMARÃES, Susana; Magalhães Costa – Capitão aeronauta; Gaiense do mês, nº 8, Setembro de 2009. In http://www.gaianima.pt/gaia/attachs.pdf? CONTENTITEMOID=2B97808080BB80GC&CLASSTOKEN=ga_download&ATTRIBUTEID=download
. http://www.incaer.aer.mil.br/efemerides.htm
. Jornal “A Defesa”, dir. de Delfim Neves, Candal, Grémio da Prosperidade do Candal, Ano I, nº 2, 5 de Abril de 1905.
. O Tripeiro, V, IX, p. 372; V, X, pp. 153, 382; V, XII, pp. 94, 121, 122, 218; V, XIII, pp. 27, 91.
. TAVARES, Jorge Tavares - Balonistas do Porto. In: O Tripeiro. - Ano XIII, série 7, nº 11 (Nov., 1994), pp. 329-332.
.VALE, Carlos - As ascensões espaciais e os pioneiros vilanovenses, in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. I, nº 7, pp. 12-15.


Sala de Fundo Local, Junho de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Os gaienses e a aeronáutica no início do séc. XX (I) – Belchior da Fonseca e o balão “Lusitano”











Os aeronautas gaienses, in “Os Pontos”, semanário ilustrado, nº 49, de 29 de Novembro de 1903



















Postal, editado pela Casa Biel, pouco depois da tragédia



















Local da farmácia do Belchior – Rua Direita, Vila Nova de Gaia



Local: Santa Marinha

Data: 21 de Novembro de 1903

Sinopse:
Ao pensarmos nos primórdios da aeronáutica vem-nos à mente a imagem da “Passarola”, o aparelho que segundo o seu criador, o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, em requerimento, de 1709, dirigido a D. João V, servia “para se andar pelo ar da mesma sorte que pela terra, e pelo mar, e com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentas e mais léguas de caminho por dia, no qual instrumento se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e a terras mais remotas”.
Quem na sua juventude não leu, ou ouviu comentar, as obras de ficção de Júlio Verne intituladas “Cinco semanas num balão” e “A volta ao mundo em 80 dias”, escritas em 1863 e 1872 respectivamente, e que na época muito contribuíram para a divulgação da aeronáutica?
O século XIX, sobretudo na sua segunda metade, foi, de facto, o século de desenvolvimento da aeronáutica, em aparelhos de ar quente, ganhando esta prática enorme popularidade entre praticantes e espectadores, fosse sobre a forma de diversão e recreio, fosse a nível militar. Com efeito os franceses utilizaram já o balão de ar quente, na Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871, para vencer o cerco dos prussianos e passar mensagens para as suas tropas.
Sendo Portugal um dos pioneiros desta invenção é natural que as ascensões em balões de ar quente tenham ganho enorme popularidade. Também na região do Porto foram organizadas, nos finais do séc. XIX, vários espectáculos de ascensões protagonizadas pelo francês Emilien Castanet (1883-1884) subindo sobre os jardins do Palácio de Cristal e tendo na quinta ascensão levado consigo um burro que sucumbiu depois de uma queda aparatosa sobre uma floresta, em virtude de o balão ter perdido altitude, lá para os lados de Pegueiros, concelho de Santa Maria da Feira.


Um aeronauta gaiense

Em 1903 surgiu no Porto outro francês, de nome Emile Carton, tendo feito várias ascensões no seu balão. Numa dessas ascensões teve a companhia de um farmacêutico gaiense chamado Belchior Fernandes da Fonseca, grande entusiasta das ascensões em balão, o qual aos balcões da sua farmácia situada na Rua Direita, perto da Fonte do Cabeçudo, fazia verdadeiras tertúlias sobre a prática aeronáutica. Há muito que Belchior estudava em manuais questões técnicas sobre o funcionamento dos aparelhos de ar quente, sobre orientação, ventos, etc. Daí que não descansou enquanto não convenceu o francês a vender-lhe o balão e alguns amigos a investir financeiramente nessa empresa.

Assim, em parceria com César Marques dos Santos e o Engº José António Almeida adquiriram o balão, depois baptizado de “Lusitano”, e fizeram uma série de ascensões. A primeira realizou-se na praça de touros então situada no Campo de Manobras da Serra do Pilar num domingo que foi dia de Santos. Houve uma grande enchente de gente na praça, engalanada com colchas, quer pela novidade, quer pela divulgação que os jornais fizeram ao evento. Depois de alguns problemas iniciais decorrentes do enchimento do balão, Belchior acompanhado de Tomás Cardoso não querendo desiludir o público presente deu ordens para cortar as cordas e o “Lusitano” lá foi subindo lentamente, quase batendo na bancada. O público fez uma grande ovação e o “Lusitano” lá foi cortando as nuvens e ao fim de pouco tempo foi pousar na Quinta das Boucinhas, em Oliveira do Douro, onde foi recebido em apoteose.
Oito dias depois resolveu Belchior repetir a proeza, na mesma praça de toiros, tendo tomado excepcionais precauções em relação ao enchimento do balão, corrigindo assim deficiências da anterior subida. Convidou para companheiros de viagem dois jornalistas portuenses. O público aderiu em massa, movido pela curiosidade e por um dia solarengo, e encheu a lotação da praça, ficando largos milhares nas imediações. Em breve o balão fez a sua subida sem problemas e rumou a sul por Santo Ovídio e a oeste para a Afurada onde ganhou altitude e se ocultou por entre as nuvens. Depois voltou a ser visto sobre a Serra do Pilar, o Palácio de Cristal e rumou a Matosinhos onde suavemente encontrou o solo.
Foi a consagração de Belchior que não perdeu tempo a marcar uma nova ascensão, desta vez no Palácio de Cristal. Além de Belchior subiram Tomás Cardoso e os convidados Padre Amadeu de Vasconcelos e Corregedor da Fonseca. Depois de alguns problemas técnicos que adiaram a partida o balão lá fez a subida e rumou a Sul sobrevoando Vila Nova de Gaia, passando nos Carvalhos e acabando numa descida calma em Fiães, no concelho de Santa Maria da Feira. Belchior foi recebido fervorosamente pela multidão que o acompanhou, como um herói, até à sua farmácia, na Rua Direita de Vila Nova de Gaia.
Foi marcada nova ascensão para o dia 21 de Novembro, um sábado desse ano de 1903. Por ser dia de trabalho foi pouca a multidão que acorreu aos jardins do Palácio de Cristal. Acompanhavam Belchior os seus amigos e sócios financiadores César Marques e o Engº José António de Almeida. O balão teve uma ascensão normal, rumou aos céus de Vila Nova de Gaia mas depressa foi empurrado para oeste, para os lados da Foz do Douro e subitamente foi ocultado pelas nuvens não mais tornando a ser visto. Prevendo o pior foi pedido auxílio marítimo tendo saído do porto de Leixões o rebocador Mindelo e o vapor Tritão para iniciar as buscas. Porém todos os esforços foram em vão pois nem os corpos nem os destroços foram jamais vistos. Nas horas e dias imediatos não faltaram todo o tipo de boatos, sobre a localização dos aventureiros, que auguravam quer boas quer más notícias.
A quarta viagem de “O Lusitano”, no fatídico dia 21 de Novembro de 1903, que Belchior tinha anunciado de “viagem mistério para estudo das correntes aéreas” ficou marcada pelo mistério da tragédia que enlutou a terra de Gaia que perdia assim três dos seus aventureiros filhos. Conta-se que o pai de César Marques dos Santos não conseguiu superar a dimensão da tragédia da perda do filho querido e reza a lenda que mandou construir na sua quinta da Chamorra, em Vilar do Paraíso, uma torre tão alta que permitisse a vista do mar, para que o filho naufragado pudesse localizar a casa paterna, ou ele próprio, no caso de o filho já estar morto, poder avistar de lá o seu corpo que o mar tinha tragado.

Texto de António Conde


Remissivas: Ascensões aerostáticas em Gaia/Aeronáutica -- primórdios / Personalidades gaienses/Santa Marinha (freguesia).

Bibliografia:

. GOMES, J. Costa; Belchior Fernandes da Fonseca. Uma vítima da aeronáutica, in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. VI, nº 41, pp. 5-10.
. O Tripeiro, V Série, Vol. IX, pp. 221, 282.

. PONTE, Miguel Nunes da; PONTE, Luís Nunes da; Memórias de Gaia através do Bilhete Postal Ilustrado, Vila Nova de Gaia, Miguel Nunes da Ponte Ldª Edições e Publicações, 2002.
. VALE, Carlos; As ascensões espaciais e os pioneiros vilanovenses, in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. I, nº 7, pp. 12-15.


Sala de Fundo Local, Maio de 2011

A propósito de… uma relíquia centenária do nosso fundo bibliográfico – “Tanoaria (a vapor) Valente Perfeito”























Local: Lugar do Marco, freguesia de Santa Marinha


Data: 1911


Sinopse:
Tanoaria (a vapor) Valente Perfeito, Vila Nova de Gaia, Tipografia 5 de Outubro, 1911

A obra que aqui nos propomos apresentar e cuja ficha bibliográfica é aqui reproduzida pode ser considerada como um documento de propaganda e de gestão de uma sociedade comercial sedeada em Vila Nova de Gaia e com filial em Lisboa, na Quinta da Conceição (ao Poço do Bispo), que se dedicava à produção e comercialização de material de tanoaria.
Diz respeito à Tanoaria Valente Perfeito que, sob a denominação social de Valente Perfeito, Filho & Cª, era uma das mais expressivas empresa nacionais produtoras de vasilhame vinário destinado, essencialmente, ao armazenamento de vinho do Porto. Foi fundada em 1874 por João Rodrigues Valente Perfeito e tinha a sua sede no lugar do Marco e Rua das Costeiras, na freguesia gaiense de Santa Marinha. Foi premiada com medalha de ouro na Exposição de Anvers de 1894 e na Exposição Agrícola-Industrial de Gaia do mesmo ano.
Refira-se que Vila Nova de Gaia, devido ao facto de ser um grande entreposto comercial de vinhos, nomeadamente de vinho do Porto, foi nos séculos XIX e XX o grande centro da indústria de tanoaria do País. De acordo com o Almanaque de Vila Nova de Gaia de 1896, só na freguesia de Santa Marinha, existiam 36 oficinas de tanoaria sendo muitas delas privativas das várias empresas produtores de Vinho do Porto.

O livro “Tanoaria (a vapor) Valente Perfeito”
O livro pretende apresentar os produtos fabricados pela empresa, “bem assim a estatística do movimento da nossa filial durante o semestre de Janeiro a Junho de 1911 e da nossa sede durante o ano económico – Julho de 1910 e Junho de 1911”. Inclui ainda um parecer sobre avinhações* e preparo de vasilhame dado pelo Dr. Ferreira da Silva, Lente da Academia Politécnica do Porto.
A estatística fornecida apresenta os mapas demonstrativos do custo de mão-de-obra semanal. O material produzido é o seguinte: cascos, pipas, meias-pipas, quartos de pipa, quintos de pipa, vigésimos de pipa, tonéis, e diversos artigos onde se incluem barris de sardinha, barricas para exportação de cal e mineral, capas para invólucros de vasilhas exportadas com vinho, celhas, canecos e vasilhas variadas. Foram produzidas nesse período 24.515 unidades.
Os trabalhadores dividiam-se entre tanoeiros, lavrantes e jornaleiros. No dia 10 de Junho de 1910 houve uma greve de tanoeiros e gravantes, assim como no dia 29 de Outubro.
Em breve análise dá-se conta de que a matéria-prima usada na fábrica custava o dobro do que custava vinte anos antes e que a mão-de-obra custava mais 50%, embora o preço do vasilhame se mantivesse. O preço de referência da matéria-prima dizia respeito à chamada aduela americana, de Nova Orleans, esta de superior qualidade e muito usada na produção de vasilhame em Espanha, na França e em Itália.
É referido que esta questão agravava o preço dos vinhos a exportar considerando que seria proveitoso o recurso à madura de castanho, a qual não tinha substâncias que prejudicassem o vinho, como taninos, por exemplo. Eram assim de parecer que deveria ser incentivada em Portugal a plantação de castanheiros, árvore que ao fim de 15 anos estava pronta a cortar. Contudo é referido que a empresa comprou, em 1911, grande quantidade de madeira de castanho nas Beiras, Alentejo e Algarve, sendo, no entanto, os custos do transporte ferroviário demasiado elevados pelo que ficava mais barato recorrer à importação de Itália.


A terminar são feitas várias recomendações, a saber:
- às associações comerciais de Lisboa e Porto para tomar providências em relação ao tratado de comércio com o Brasil, garantindo mercado para a produção nacional de tanoaria.
- que, para benefício da tanoaria nacional, do comércio e da lavoura, fossem criadas escolas oficiais de aprendizagem para operários tanoeiros em Lisboa e em Gaia.
- que fosse feito um cadastro de todos os operários tanoeiros e dos operários em geral para recensear e avaliar as situações de desemprego permanente.

Breve biografia de Valente Perfeito – A figura de João Rodrigues Valente Perfeito, para além de capitalista e de empresário do ramo da tanoaria, é conhecida pela precoce dedicação à causa republicana, no período do pós-Ultimato, tendo sido o grande financiador e mentor do Partido Republicano em Vila Nova de Gaia. Foi ainda criador dos jornais “Federação Escolar” e “Os Vencidos”.

Curiosidade – Refira-se que nesta unidade industrial foi construído, em 1935, um balseiro de 200 000 litros, que teve direito à edição de um livro de honra, assinado por várias personalidades ligadas ao Vinho do Porto. Este terá sido um facto único, num tempo em que não havia ainda o Guinness Book.


Glossário:
* avinhação – técnica que tem por finalidade impedir que as substâncias existentes na madeira de cascos novos se dissolvam no vinho, prejudicando o seu sabor. Este tratamento era feito com vaporização de água, seguido de aplicação de aguardente vínica ou vinho fino. Podia ainda ser feito com água salgada, potassa ou cal.


Remissivas: Tanoarias/Vinho do Porto/Actividade industrial gaiense/Santa Marinha (freguesia).


Bibliografia:
. Almanaque de Gaia 1912, Vila Nova de Gaia, Luz do Operário, 1912.
.GUIMARÃES, Gonçalves; Memória Histórica dos Antigos Comerciantes e Industriais
de Vila Nova de Gaia, Vila Nova de Gaia, Associação Comercial e Industrial de Vila
Nova de Gaia, 1997.
. Tanoaria (a vapor) Valente Perfeito. - [S.l.] : [s.n.], [1911] (Vila Nova de Gaia : Tipografia
5 de Outubro). Cota: 674(469.121) [G] Reg.: 6-1-1-15-5974-G-D



Sala de Fundo Local, Maio de 2011