terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Júlio Duarte – no centenário do seu nascimento















Local: Coimbrões, Santa Marinha

Data: 1911

Sinopse: “Filho e neto de pirotécnicos, ele é hoje o continuador de uma tradição quase extinta, que são os bonecos de fogo preso que todos os anos se queimam no Senhor de Matosinhos”. Mas o Sr. Júlio Duarte não faz só fogos de artifício; verdadeiro autodidacta e possuidor de uma cultura invulgar, ele deu a sua colaboração a jornais como O Comércio do Porto e outros, faz versos com forte sabor popular, e dedica grande parte do tempo livre à pesquisa de tudo o que se relaciona com a sua profissão. Assim, o Sr. Júlio Duarte tem vindo, há já quase quarenta anos, a coleccionar todo o tipo de documentação que se relacione com a pirotecnia em Portugal “. A referência supra, registada no ano de 1977 e que respigámos da publicação “Artes e Tradições de Portugal”, espelha, no essencial, a figura que aqui desejamos homenagear no ano do centenário do nascimento. Reporta-se à fase final da vida profissional de Júlio Duarte, a escassos quatro anos do termo de uma intensa actividade no ramo da pirotecnia, numa indústria, à data, ainda muito marcada pelo seu carácter artesanal e criativo. Com a mesma paixão que sempre dedicou à arte do “fogo”, aos seus segredos, mistérios e “historiografia”, o homem então conhecido como o “fogueteiro de Coimbrões”, já amante confesso das artes de versejar, de pesquisar, de historiar, passou a dedicar-se, até à fase final da sua longa vida de nonagenário, ao seu sonho de juventude – a investigação histórica. E assim passou a frequentar com mais assiduidade espaços de cultura desde galerias de arte, a bibliotecas, museus, arquivos, passeios culturais, etc. Foi nessa qualidade que o conhecemos aqui, na nossa biblioteca, na Sala Armando de Matos, pesquisando sobre o passado de Coimbrões, sua terra natal, da sua freguesia e do seu concelho. Exímio conversador, dotado de uma educação irrepreensível, baixo, franzino, era, contudo, um “poço de energia” pela facilidade com que, aos noventa anos, percorria razoáveis distâncias a pé. Não dispensava o chapéu clássico e a pasta, debaixo do braço. Investido na “nova” função de investigador a tempo inteiro passou a fazer parte de algumas associações, nomeadamente a Associação Cultural dos Amigos de Gaia, onde participou activamente nas suas actividades e passeios culturais e em cujo Boletim passou a publicar diversos estudos de história local. Foi sócio fundador e director da Associação de Escritores de Gaia. Participou em diversas antologias com textos e poemas, nomeadamente “Contos e Ditos”, “Se o poeta não dissesse”, “Memória de um rio”. Participou em diversos encontros e seminários com comunicações várias de história local. Foi autor e co-autor de diversas publicações, entre as quais destacamos “Apontamentos monográficos de Coimbrões”, “Antologia do fogo de artifício”, “A igreja de Santa Bárbara de Coimbrões”, “Pirotécnicos da cidade do Porto e da sua região nos séculos XIX e XX”, “Os oleiros de Coimbrões”, “Santos de ao pé da porta”, “Os patronos das ruas de Coimbrões”, “Poesias reunidas de Manuel Almeida Rouxinol”, etc. Foi ainda estudioso e tradutor de textos religiosos, nomeadamente da Igreja Evangélica do Prado, em Coimbrões, onde fez a escola primária e onde professou e dirigiu o “Boletim do Esforço Comum” durante anos.

Júlio Duarte por ele próprio Nasci em Novembro de 1911, na Rua Latino Coelho, em Coimbrões. Vivos, éramos sete irmãos e eu era o segundo. A minha mãe nasceu aqui em Coimbrões e o meu pai era natural de Lamego. O meu pai veio de Lamego para cá trabalhar para a casa do meu avô que tinha uma empresazinha de fogos de artifício e entretanto casou com a filha. (…) Mas eu sou protestante porque na escola de prática que era do Diogo Castro [sic. , eles ao Domingo iam lá à Igreja e eu fui aprendendo e gostando porque naquele tempo a missa era em latim e eu não percebia nada. Eu gostava de ir à minha Igreja. É que na Igreja que eles chamavam protestante era tudo em português. Fiz a escola primária na Escola do Prado que era particular e à tarde tinha aulas secundárias na Escola Comercial Oliveira Martins que, em 1924, funcionava no Palácio da Bolsa. As nossas aulas chamavam-se Cursos Nocturnos. Fiz o 3º ano comercial. (…) Mas eu não gostava daquilo [da oficina de pirotecnia] e aos 18 ou 20 anos pensei em ir para Moçambique para uma missão como ajudante para dar lições de português. A minha mãe disse que se eu fosse morria mais depressa e eu não fui. No ano seguinte, com 52 anos, a minha mãe morreu. Tive de ficar com o meu pai porque eu era o filho mais velho [por morte do irmão primogénito em acidente] e tinha três irmãos que eram ainda menores. E fiquei no fogo de artifício sempre a resmungar. (…) A oficina eram oito casas todas separadas. Em 1992 fecharam. Explodiu tudo. Foi um prejuízo enorme porque até para segurar o pessoal nem todas as companhias aceitam.”


Júlio Duarte – breve biografia Nasceu em Coimbrões em 17.11.1911 e aí viveu e exerceu o seu ofício de fogueteiro até 1981, na Rua das Matas. A oficina continuou sob exploração de seu irmão Manuel Augusto Duarte até à grande explosão e incêndio, ocorrido em 1992. Frequentou a escola primária do Prado, em Coimbrões e o curso nocturno da Escola Comercial de Oliveira Martins. Fez parte da direcção da Beneficência Evangélica do Porto e foi membro do Esforço Cristão do Prado Foi fogueteiro, poeta popular, tradutor e historiador local. Foi pai de dois filhos. Foi um verdadeiro exemplo de autodidacta e de estudioso para quem a aposentação e a velhice significou, ao contrário do habitual, a entrada num percurso de vida intelectual particularmente activa. Faleceu em Vila Nova de Gaia em 2005 e jaz sepultado no cemitério de Coimbrões.

Remissivas: Coimbrões (lugar)/ Fogo de artifício/Fogueteiros/Júlio Duarte. 1911-2005. Coimbrões

Bibliografia e fontes: . Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia - PT/ALL/CMVNG-AMVNG-K-E-01-02/4-033. . DUARTE, Júlio - Pirotécnicos da cidade do Porto e da sua região nos séculos XIX e XX. Concelhos de Gondomar, Maia, Matosinhos, Vila Nova de Gaia e Póvoa de Varzim, Porto, Centro Regional de Artes Tradicionais, 1990. . “Fogos de bonecos”, Vila Nova de Gaia, 1977, in Artes e Tradições da Região do Porto, Publicações Terra Livre, Lisboa, 1985. . http://cdi.upp.pt/cgi-bin/mostra_entrevista.py?doc=E20r#a0, [consultado em 2011. 02.10]

Sala de Fundo Local, Fevereiro de 2011.