segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Gaia: imagens com história (V) - A ponte D. Luís e o 125º aniversário da inauguração



Ponte D. Luís I e trecho da Avenida Diogo Leite (c. década de 30 do séc. XX.)

O Mosteiro da Serra do pilar por entre os rendilhados da Ponte D. Luís (Foto de António Conde)

As 3 Pontes: das Barcas (memorial, em 1º plano),
de D. Luís I e D. Maria II (obeliscos ao fundo).
Foto de António Conde.


Data: década de 30 do séc. XX.

Descrição: No ano em que se assinala o 125º aniversário da inauguração da ponte D. Luís I (ainda que só com o tabuleiro superior), ocorrido a 31 de Outubro, apresentamos aqui uma imagem da mesma ponte e da que a antecedeu, a chamada Ponte Pênsil.
A imagem, que criticamente datámos dos anos 30, apresenta a ponte D. Luís, com especial destaque para o seu tabuleiro inferior. Ao fundo pode ver-se, para além da encosta portuense dos Guindais, os obeliscos (ainda existentes) da Ponte Pênsil, também chamada de D. Maria II, inaugurada em 1843.
O lançamento dos trabalhos de construção da ponte D. Luís I, em 1 de Dezembro de 1881, contou com a presença do rei D. Luís I, da rainha D. Maria Pia, do príncipe D. Carlos, do infante D. Afonso e de diversas autoridades civis e militares do Porto e de Vila Nova de Gaia e decorreu num pavilhão construído no terreiro do mosteiro da Serra do Pilar.
Pela passagem na ponte de peões, animais e carruagens era devida portagem, estabelecida por portaria, com valores que iam dos 5 réis, para peões, aos 240 réis para carruagens de 4 rodas e carroções com 4 cavalgaduras.
Em 28 de Outubro de 1905 foi inaugurada a passagem no tabuleiro superior da ponte D. Luís I das linhas de carros eléctricos nºs 13 (Praça da Liberdade – Santo Ovídio) e 14 (Praça da Liberdade – Devesas), inaugurando a era dos transportes colectivos em Vila Nova de Gaia.

Remissivas: Ponte D. Luís I/Rio Douro/As travessias do Douro.

Bibliografia: 
. O Porto e os seus fotógrafos, Porto, Livraria Civilização, 2001, p. 134.
. CRUZ, Paulo Jorge de Sousa; Cordeiro, José Manuel Lopes; As Pontes do Porto, Porto, Livraria Civilização, 2001.

                              


Sala de Fundo Local, Dezembro de 2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dina Teresa – uma fadista e atriz gaiense (1902-1984)



Dina Teresa contracenando com António Silva

Dina Teresa, Beatriz Costa e Nascimento Rodrigues


Dina Teresa

Novo Fado da Severa, de Dina Teresa
Local: Oliveira do Douro
Data: séc. XX – anos 30
Sinopse: Volvidos que são escassos dias após a aprovação pela UNESCO do Fado, a canção nacional, ou a “voz da alma”, como Património Imaterial da Humanidade, virá a propósito evocar uma fadista pouco conhecida, nascida em terras gaienses, que adoptou o nome artístico de Dina Teresa. Contudo alguns dos versos e canções por ela cantados, desde a década de 30, foram trauteados instintivamente por várias gerações de portugueses. É o caso do “Novo Fado da Severa”, “Velho Fado da Severa”, “Fado da Espera de Toiros”, “A Senhora da Saúde”, “O Vira”, “Na Taberna”, “Feira de Alcântara”, “A Rainha d’Alcântara”, todos musicados por Frederico de Freitas e boa parte deles com versos de Júlio Dantas.
 Foi, aliás, Dina Teresa quem imortalizou, pela voz, os versos: “Ó Rua do Capelão/ Juncada de rosmaninho/ Se o meu amor vier cedinho/ Eu beijo as pedras do chão/ Que ele pisar no caminho” cujo epílogo, à boa maneira do fado (do latim fatum = destino), visto como a narração cantada de um história de vida, é rematado com os versos “Tenho o destino marcado/ Desde a hora em que te vi/ Ó meu cigano adorado/ Viver abraçada ao fado/ Morrer abraçada a ti”.
 Este fado, originalmente chamado “Novo fado de Severa”, foi mais tarde recriado e cantado por Amália Rodrigues, com o título “Rua do Capelão”.
O seu nome figura ainda hoje entre as grandes divas e senhores do fado, dos primórdios do seu registo em disco até à actualidade e ainda uma recente colectânea discográfica editada com 43 temas de fado, intitulada “Fado – Estranha forma de vida” com contribuições que vão desde Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Hermínia Silva às actualíssimas Ana Moura, Mariza ou Mafalda Arnaulth, contém um fado de Dina Teresa com o tema “Novo fado da Severa” que fez parte da banda sonora de “A Severa”.
Apesar do grande sucesso de Dina Teresa como fadista foi verdadeiramente o cinema que lhe trouxe a fama e a glória em Portugal e no Brasil onde trabalhou na arte do espectáculo nas décadas seguintes e onde passou a viver.
 Foi um talento descoberto por Leitão de Barros que, em 1931, entre centenas de candidatas, a escolheu pelo seu ar trigueiro para interpretar o papel de Severa no filme homónimo realizado por Leitão de Barros e que passou a ser o primeiro filme do cinema sonoro em Portugal.
Vida e obra
Dina Teresa Moreira de Oliveira nasceu em 24 (ou 15?) de Novembro de 1902, em Oliveira do Douro (ou Avintes?) filha de uma família de parcos recursos. Entre os 4 e os 13 anos de idade foi educada por uma senhora inglesa, na cidade do Porto. Desde cedo sentiu uma enorme atracção pelo teatro e conta-se que, aos 13 anos, sozinha, conseguiu convencer o empresário do cinema Águia d’Ouro a entrar nos quadros da sua Companhia.
Em 1916 estreou-se como corista no teatro de revista, no antigo Teatro Nacional (hoje Teatro Rivoli), na peça “O Trunfo é Paus”. Ao longo da década de vinte afirma-se a sua continuidade no teatro, embora não tenha conseguido grande protagonismo. Entrou, entre outras, em peças como “O Mexilhão, “Areias de Portugal”, “Há Festa na Mouraria”, “O Arroz-Doce”.
Em 1930, num concurso organizado pelo “Diário de Lisboa” para escolha da protagonista do filme “A Severa”, Dina Teresa foi escolhida pelo seu ar trigueiro que se adaptava à figura da cigana Severa, ela também fadista, cuja história de vida se pretendeu retratar. O filme tornou-se num enorme sucesso o qual se estendeu à sua protagonista principal. No cinema fez ainda parte do elenco do filme “A Varanda dos Rouxinóis”, contracenando com António Silva; este filme foi realizado em 1939 por Leitão de Barros.
Ao longo da década de 30 Dina Teresa participou em diversas operetas e revistas tais como “O Canto da Cigarra” (1931), “A Senhora da Saúde” (1932), “Peixe Espada” e “Nobre Povo” (1935).
Foi nesse período que conheceu Francisco Serrador Carbonell, um empresário de origem espanhola e um dos precursores do cinema no Brasil, que a convence a ir para o Brasil trabalhar na arte do espectáculo. Também aí terá uma carreira teatral de sucesso o que a leva a fixar-se em definitivo na cidade de Poá, no Estado de S. Paulo, onde faleceu, aos 82 anos de idade, em 7 de Abril de 1984.
A Severa – o primeiro filme do cinema sonoro em Portugal
O filme, que estreou em 1931, baseia-se na obra homónima de Júlio Dantas e foi realizado por Leitão de Barros e musicado por Frederico de Freitas; foi produzido pela Sociedade Universal de Superfilmes. Conta, no seu elenco, com a participação dos artistas Dina Teresa, Maria Sampaio António Luís Lopes, Ribeiro Lopes, Silvestre Alegrim, Augusto Costa, Patrício Álvares, Eduardo Dores, António Vilar e António de Almeida Lavradio.
A Severa retrata os costumes da sociedade lisboeta dos meados do séc. XIX e a verídica história de vida de Maria Severa, nascida em Lisboa em 1820 e falecida ainda muito jovem, em 1846. Terá vivido na Rua do Capelão, em pleno Bairro da Mouraria, numa casa ainda existente onde uma placa perpetua a sua memória. Filha de uma taberneira cigana que dava pelo nome de Barbuda e exímia cantadeira do fado diz-se que encantava os homens com os seus dotes físicos e o talento da sua voz. Não escapou às aventuras do jovem Conde de Marialva que por ela se apaixona, apesar de saber da sua ligação amorosa a um “pobre diabo” de nome Custódio. Apesar dos seus amores e desamores tinha um enorme carinho pelos mais pobres a quem ajudava materialmente.
A história de vida de Maria Severa estará intrinsecamente imbricada às origens do fado, deixando-nos como legado uma das manifestações artísticas mais conceituadas do nosso património imaterial, em boa hora considerada pela UNESCO com património de toda a Humanidade.
Dina Teresa na toponímia gaiense
A memória da famosa fadista e atriz gaiense não foi olvidada pela sua municipalidade que atribuiu o seu nome a uma praceta na freguesia de Oliveira do Douro.
Fado – Património Imaterial da Humanidade
Em hora de comemoração do valioso galardão atribuído pela UNESCO à cultura portuguesa, Vila Nova de Gaia tem razões para se sentir orgulhosa por ter tido, entre os seus naturais, uma mulher, nascida num mundo de adversidade, que contrariou o seu “fado”, o seu destino e que inscreveu o seu nome no quadro dos melhores artistas desta manifestação artística que agora partilhamos com o Mundo.
E … à guisa de conclusão, ficamos com “O Velho Fado da Severa”, tantas vezes cantado pela nossa evocada e que em história “de faca e alguidar” tão bem exprime o fatum, a voz da alma, sob o signo da saudade.
“Embora digam que não/Eu sou boa rapariga/Trago o sol no coração/ Trago a navalha/Trago a navalha na liga.// Quem tiver filhas no mundo/não ria das desgraçadas/Porque as filhas da desgraça/Também nasceram/Também nasceram honradas.”
Remissivas: Dina Teresa/Gaienses Ilustres/Toponímia gaiense/Fado - Património da Humanidade/Gaia e o cinema português.
Bibliografia:
. ALMEIDA, Luís de; Actriz Dina Teresa, In:  Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. –    Vol. 3, n.º 20 (Maio 1986), p. 28.
Webgrafia:
. A Severa. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-11-30].
  Disponível na www: .
Fontes sonoras
. http://www.youtube.com/watch?v=Wvk_wxjfN7U [Consultado em 2011-11-30].

                              Sala de Fundo Local, Novembro de 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O “Alfredo das Rosas”: um floricultor gaiense de renome - Alfredo Moreira da Silva (1859-1932)

Anúncio da Firma Moreira da Silva
Alfredo Moreira da Silva e esposa
Pavilhão da Firma de Alfredo Moreira da Silva nas
Festas do Peso da Régua de 1916 (Ilustração Portuguesa, 4.09.1916)

Rapariga do Rancho de Perosinho que participou na Festa da Flor, 
a expensas de Alfredo Moreira da Silva (Ilustração Portuguesa, 24.06.1918)


Local: Grijó


Data: séc. XIX - XX


Sinopse
   Oriundo de uma modesta família do lugar de Corveiros, em Grijó, Alfredo Moreira da Silva, depois de um curto tirocínio numa casa hortícola portuense, cultivou a paixão pelas plantas e pelas flores e fundou, em 1895, um pequeno estabelecimento ligado à floricultura e depressa se tornou num dos mais respeitados floricultores portugueses. Ganhou o título de jardineiro ornamentista da Casa Real. A firma que criou, há 116 anos, continua nas mãos dos seus trinetos com plantações nos viveiros de Grijó e nos concelhos de Mira e Coimbra, numa área de mais de 100 hectares, mantendo hoje um lugar de destaque na horticultura ornamental europeia sendo detentora de cerca de uma centena de medalhas de ouro, uma centena de medalhas de prata e inúmeros diplomas de honra, boa parte conseguida no estrangeiro. A firma com sede na Quinta da Revolta, no Porto, está dirigida para o mercado interno e externo exportando os seus produtos para França, Itália, Espanha, Reino Unido, Bélgica, Holanda, Alemanha, Grécia, Polónia, Líbano e Jordânia.
    Em 1964 uma revista japonesa da especialidade considerou as rosas de Moreira da Silva (neto) entre os cinco maiores roseiristas do mundo.
   O gaiense Alfredo das Rosas, como era popularmente chamado, é o verdadeiro exemplo do autodidacta com sucesso que legou aos vindouros a imagem de criador e de empreendedor.

Vida e obra
     Alfredo Moreira da Silva nasceu em Corveiros (Grijó) em 12 de Maio de 1859, filho de António José da Silva Barbosa e de Maria Fonseca Moreira e Sousa. Trabalhou na construção civil e nas horas vagas ocupava o seu tempo a contemplar a construção de jardins. Trabalhou depois num horto na Quinta das Virtudes, no Porto, onde aprendeu e desenvolveu a arte de horticultor, embora com especial predilecção pelas roseiras.
    Em 1880 casou com Albina Oliveira tendo o casal seis filhos (Albano, João, Joaquim, Palmira e Avelino – todos nascidos em Grijó e, por último, Ermelinda, nascida em Miragaia).
    Em 1894 arrendou uma pequena quinta em Corveiros onde montou o seu primeiro horto, ainda hoje mantido em actividade. Mais tarde arrendou também a quinta da Pena, em Perosinho, onde expandiu os seus viveiros e através do estudo e da experimentação conseguiu criar novas plantas que ganharam fama no estrangeiro.
    A actividade comercial, sob a designação de “Novo Estabelecimento de Horticultura e Jardinagem de Alfredo Moreira da Silva”, começou por ser exercida na cidade do Porto, num pequeno estabelecimento e horto fundados em 1895 e situados no Largo do Priorado (em Cedofeita), com entrada pela antiga Rua da Carvalhosa (hoje Rua de Aníbal Cunha), nº 295. Com o início da construção da igreja de Cedofeita, nesse local, teve de mudar de instalações para a Rua D. Manuel II (antiga Rua do Triunfo), em terrenos anexos ao Quartel da Torre da Marca (hoje ocupado pela Reitoria da Universidade do Porto), sendo estas inauguradas em Janeiro de 1899. (cf. O Tripeiro, V, XIII, p. 105 e V, V, p. 213). Refira-se que no local ainda hoje se mantém em actividade um estabelecimento de floricultura denominado “A Loja de Flores”.
    Para além destas actividades a empresa de horticultura desenvolveu intensa actividade quer na concepção de jardins públicos e particulares, quer participando em feiras e certames com stands de exposição, quer ornamentado grandes festas e acontecimentos.
    Em 5 de Outubro de 1910, dia da proclamação da República, estava prevista uma viagem régia a Vila Real, Pedras Salgadas e Vidago, para inauguração do famoso e centenário hotel. De acordo com o jornal “O Comércio do Porto” (04.10.1910) “O horticultor Alfredo Moreira da Silva vai para as Pedras Salgadas para ornamentar de plantas o balneário, os hotéis e o Casino. Leva 200 caixas com flores diversas”. Pelas razões óbvias a visita foi interrompida e as ornamentações não cumpriram a sua (real) missão.
    Em 1916 o já famoso horticultor participou com um stand nas festas do Peso da Régua (ver imagem), de que nos dá conta a Ilustração Portuguesa, onde é referido que “os activos e conscienciosos horticultores portuenses, para os quais a pomicultura e a floricultura não têm segredos para obterem os mais formosos produtos, também ali concorreram com uma vasta e variada instalação de frutas e tiveram a recompensa de uma medalha de ouro, a única que se concedeu a expositores de fora da região” (Ilustração Portuguesa, nº 550, 1916).
    A propósito de uma outra exposição de flores e frutos (a que alude a imagem) respigámos da Ilustração Portuguesa a referência de que os seus viveiros são “sempre abastecidos do que há de melhor em roseiras, árvores frutíferas e florestais são incontestavelmente os maiores da península. Nada mais justo que o acto do júri conferindo-lhes, além das medalhas de ouro e de prata, o primeiro prémio ao conjunto da sua instalação, realmente admirável. Aos Srs. Moreira da Silva deve o país um benéfico impulso à sua arborização, quer em pomares, quer em bosques, graças à sua propaganda e às variedades apuradas e de confiança que fornecem”. (Ilustração Portuguesa, nº 609, 1917).
    Na qualidade de jardineiro ornamentista da Casa Real, Alfredo Moreira da Silva concebeu e floriu os jardins do Palácio da Ajuda. (O Tripeiro, V, IX, p. 152).
    Em 1920 Alfredo Moreira da Silva adquiriu a José Duarte da Silva Júnior a Quinta da Revolta, no Porto, e para aí deslocou a sede da empresa e a plantação dos seus viveiros e estufas, ao longo de cerca de três hectares. Estes estendiam-se também à Quinta da Bonjóia. Refira-se que os seus viveiros eram visitados, em busca da contemplação e da inspiração, por vários artistas, nomeadamente pintores, poetas, gente do teatro e membros da alta sociedade nortenha, contando-se entre eles o actor Eduardo Brasão.
     Conta-se que o malogrado presidente da república, Sidónio Pais, na viagem que havia iniciado ao Porto quando foi assassinado, tinha previsto uma visita aos viveiros de Moreira da Silva.
    Entre as muitas realizações do grande horticultor gaiense, de norte a sul do país, refira-se a Festa da Flor, apoiada pelo Jornal “Século”, em que foi muito apreciado o desfile das lindas camponesas do rancho de Perosinho, patrocinado por Alfredo Moreira da Silva, conforme é documentado na imagem que foi capa da Ilustração Portuguesa, de 24.06.1918.
    Em Vila Nova de Gaia Alfredo Moreira da Silva aparece associado à plantação (e provavelmente à concepção) do Jardim do Morro, junto ao mosteiro da Serra do Pilar, em finais da década de vinte do século passado.
   É esta figura de verdadeiro “self made man” e de exemplo de empreendedorismo, falecido em 10 de Outubro de 1932, que queremos aqui hoje evocar.

Remissivas: Silva, Alfredo Moreira da. Floricultor. Grijó / Gaienses ilustres/  Horticultura e Jardinagem/ Jardins de Gaia.

Bibliografia:
. GUIMARÃES, J.A. Gonçalves – Serra do Pilar – Património Cultural da Humanidade, Vila Nova de Gaia, Fundação Salvador Caetano, 1999.
. Ilustração Portuguesa, nº 550 de 4.09.1916
. Ilustração Portuguesa, II Série, nº 609, de 22.10.1917.
. Ilustração Portuguesa, II Série, nº 644, de 24.06.1918
. O Comércio do Porto de 04.10.1910.
. O Tripeiro, VII, Ano 22, 2003, p. 74 e vários
. VALE, Carlos - Álbum de Grandes Figuras: Horticultor Alfredo Moreira da Silva in Rotary Club de Vila Nova de Gaia, Ano VI, nº 66, Setembro 1988, p. 7.



Sala de Fundo Local, Novembro de 2011.







quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Gaia: imagens com história (IV) - Entreposto do Vinho do Porto – empresas exportadoras

Trecho da Rua D. Leonor Freitas, antiga Rua Nova das Devesas, freguesia de Santa Marinha, onde actualmente está sediada a empresa Barros & Almeida





 Rua D. Leonor Freitas – Armazéns da firma 
Barros & Almeida antes da remodelação das instalações

Rua D. Leonor Freitas – Instalações actuais da 
firma Barros & Almeida (foto de António Conde)



































Data: 1ª metade do séc. XX (anos 20) [1927] 

Descrição: A imagem apresenta a sede da firma Hutcheson & Cª, sita à Rua D. Leonor Freitas, e a atividade que se desenvolve à sua volta ligada ao transporte de vinho do Porto em pipas. São visíveis um carreiro com o respetivo carro e moço dos bois e três veículos motorizados sendo dois de caixa aberta, destinados ao transporte de pipas, e um destinado ao transporte de passageiros. Ao lado dos carros de transporte estão os respetivos motoristas fardados e de boné. Todas as pessoas estão em aparente posição de pose para a fotografia incluindo um dos trabalhadores que empurra as pipas. 
Ao fundo é visível a entrada da Quinta das Devesas e o respetivo solar que pertenceu à família do Conde das Devesas e hoje se encontra em estado de degradação. 
A firma Hutcheson foi estabelecida em 1881 e dedicou-se à exportação de Vinho do Porto. Em 1927 esta firma foi comprada pela firma Barros & Almeida a qual ainda hoje aí se encontra instalada. 
Por datação crítica considerámos que a imagem é do ano de 1927, à data da venda da firma, já que uma das imagens que a seguir se apresentam mostra o mesmo cenário mas já com a tabuleta da firma Barros & Almeida. Esta data coincide com a adoção dos primeiros veículos motorizados que vão tomar parte do transporte anteriormente feito em carros de bois.

Remissivas: Entreposto do vinho do Porto/ Firma Barros &Almeida/ Devesas (lugar, freguesia de Santa Marinha) /  Conde das Devesas. 

Bibliografia: 
. GUIMARÃES, J.A. Gonçalves; GUIMARÃES, Susana; Prontuário Histórico do Vinho do Porto, Vila Nova de Gaia, Gabinete de História e Arqueologia, 2001. 
. Porto. Margens do Tempo, Livraria Figueirinhas; Porto/Lisboa, 1997.p. 95. 

Sala de Fundo Local, Novembro de 2011 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A obra dos escultores gaienses em terras de Guimarães















“D. Afonso Henriques” – Soares dos Reis (foto de António Conde)














Escultor António de Azevedo














Francisco Martins Sarmento – António de Azevedo(Foto de António Conde)














Gravador Molarinho – busto de Teixeira Lopes (foto de António Conde)















Monumento a Alberto Sampaio - António de Azevedo (Foto de António Conde)





Local: Guimarães
Data: séc. XIX - XX
Sinopse: Uma das esculturas mais conhecidas em Portugal é a de D. Afonso Henriques e encontra-se situada no Monte Latito, junto ao castelo de Guimarães; porventura muita gente desconhecerá que o seu autor foi o escultor gaiense Soares dos Reis. O original desta estátua, em gesso, encontra-se, aliás, numa sala do Mosteiro da Serra do Pilar, contígua ao claustro. Acresce que a chamada Escola de Escultura de Gaia tem outros representantes na cidade de Guimarães. Espalhados pelos jardins e praças daquela cidade, que em 2012 será a Capital Europeia da Cultura, existem monumentos esculpidos pelos escultores gaienses Teixeira Lopes e António Ferreira de Azevedo e uma estátua, ao 1º Conde de Arnoso, fundida, em Vila Nova de Gaia, na Fábrica de Bronzes de Arte de José C. Guedes e inaugurada em 1960.
Num passeio virtual, que pode servir de mote à visita real, vejamos, em pormenor, a obra dos nossos artistas.
Soares dos Reis (1847-1889). A primeira obra deste escultor, em Guimarães, foi uma imagem da Virgem, a qual, por ter sido considerada demasiado profana, em terra de profunda religiosidade, não foi muito bem aceite.
Em 1885 o município vimaranense, na comemoração do VII centenário da morte de D. Afonso Henriques, contratou com Soares dos Reis a execução da estátua, a qual, dois anos mais tarde, foi inaugurada no Largo de S. Francisco. Concluída a obra na Fundição de Massarelos, no início de Setembro de 1887, foi inaugurada a 20 do mesmo mês com a presença do rei D. Luís I. O projecto de Soares dos Reis teve duas versões em tudo idênticas; na primeira versão a cota da malha ia até ao joelho e na versão final a cota desceu até aos pés. Em 1911 a estátua foi transferida para a praça maior, a Praça do Toural sendo a estátua conhecida popularmente como “o rei preto”. Em 1940, na comemoração dos Centenários e consequente recuperação dos monumentos que constituem a Colina Sagrada (castelo, igreja de S. Miguel e Paço dos Duques de Bragança), foi transferida para o largo fronteiro a estes monumentos. É lá que a que podemos encontrar hoje no seu lugar altaneiro; representa o rei como um guerreiro, de armadura, empunhando a espada levantada. Refira-se que existe uma réplica desta estátua, em Lisboa, no castelo de S. Jorge, a qual foi inaugurada em 25 de Outubro de 1947, por ocasião das Comemorações do VIII Centenário da Conquista de Lisboa aos Mouros. Foi oferecida pela cidade do Porto à cidade de Lisboa.
Teixeira Lopes (1866-1942). É obra deste escultor o busto do Gravador Molarinho, de seu nome Arnaldo José Nogueira (1828-1911) existente na antiga Feira do Pão, hoje denominada de Largo Condessa do Juncal. O monumento foi feito de parceria com o escultor António Ferreira de Azevedo.
António Ferreira de Azevedo (1889-1968). Escultor nascido na freguesia gaiense de Mafamude, sendo filho de Abílio Pereira de Azevedo. Radicou-se em Guimarães onde desde 1931 a 1958 foi professor e mais tarde director na Escola Industrial Francisco de Holanda. Naquela cidade minhota, onde faleceu em 18 de Abril de 1968, passou os últimos 37 anos da sua vida e aí produziu boa parte da sua obra, embora também esteja representado em Braga e no Porto. São da sua autoria:
. o monumento ao Gravador Molarinho cujo busto, acima referido, é da autoria de António Teixeira Lopes.
. o busto e monumento a Martins Sarmento (1833-1899) que foi inaugurado em 1933, no Largo Martins Sarmento ou Jardim do Carmo, por ocasião do centenário do nascimento daquele insigne arqueólogo.
. o busto a Alberto Sampaio (1841-1908) que foi previsto por altura das comemorações do centenário do nascimento daquele historiador mas só foi executado mais tarde e inaugurado em 10 de Junho de 1956 integrado nas comemorações do Dia de Portugal. Situa-se no Largo dos Laranjais.
. escultura “Faunito” – integrada numa fonte existente na actual Alameda de S. Dâmaso e que agora foi ligeiramente deslocada no âmbito das obras de reabilitação da Capital Europeia da Cultura 2012. Serviu de modelo a esta escultura um então jovem aluno da Escola Industrial Francisco da Holanda e mais tarde comerciante da urbe vimaranense de nome José de Sousa.
. escultura “Rapariguinha” – encima uma fonte existente no jardim da Alameda de S. Dâmaso.
Manuel Leão (op. cit. p. 37) atribuiu a António de Azevedo a autoria do tanque monumental da praça do Toural mas tal informação carece de fundamento.
Aqui deixámos este breve registo de obras de três importantes figuras da Escola de Escultura de Gaia a merecer uma visita.



Bibliografia:. Álbum fototípico e descritivo das obras de Soares dos Reis. Livro do Centenário – 1889-1989, Vila Nova de Gaia, Afonseiro Edições, 1988
.GUIMARÃES, Gonçalves; GUIMARÃES, Susana, Retratos Reais da Monarquia Constitucional, V.N. de Gaia, Câmara Municipal de V. N. de Gaia, 2000.
. LEÃO, Manuel; A arte em Vila nova de Gaia, Vila Nova de Gaia, Fundação Manuel Leão, 2000
.

Webgrafia:. http://repositorio-blog.planetaclix.pt/EstatuasGuimaraes.pdf [consultado em 28.10.2011]
.http://www.oconquistador.com/func/printversion.asp?idEdicao=132&id=3034&idSeccao=733&Action=noticia [consultado em 28.10.2011]


Sala de Fundo Local, Outubro de 2011.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Gaia: imagens com história (I) - Quadro rural junto à Igreja de Mafamude














Data: 1ª metade do séc. XX (ca. década de 20)

Descrição: Imagem da igreja de Mafamude e das quintas que a rodeavam nas primeiras décadas do séc. XX, tirada do cruzamento da actual Avenida da Republica com a Rua João de Deus. São visíveis algumas construções ainda existentes, na parte sul da igreja, na actual Rua de Raimundo de Carvalho. No canto inferior direito ficava uma fonte que tomou o nome do lugar – a fonte de Trancoso. Actualmente o território que a imagem abrange é cortado pelas ruas de Joaquim Nicolau de Almeida, de S. Gonçalo, 14 de Outubro e Via de Cintura. No espaço frontal da imagem situa-se hoje o Corte Inglês.

Bibliografia:
SILVA, Marques da - A paróquia de S. Cristóvão de Mafamude. Oitenta anos a viver nela, in B.A.C.A.G., Vol. 7º, nº 47, Junho de 1999, pp. 3-8.

Remissivas: Igreja de Mafamude / Lugar de Trancoso / Fonte de Trancoso /Quinta do Pinheiro Manso /Quinta do Passal /Engº Jorge Faria Vieira de Araújo / Caminho do Senhor da Boa Morte /El Corte Inglês.

Fonte: B.P.M.V.N.G. - Sala de Fundo Local , Fevereiro de 2011

A tourada em terras de Vila Nova de Gaia (I) – a praça de touros da Serra do Pilar















A tourada na Serra do Pilar vista pelo humor de “O Charivari” (edição de 27.04.1889).














Ponte D. Luís no início do séc. XX – a caminho da tourada.






Local: Campo de Manobras da Serra do Pilar
Data: Séc.s XIX e XX
Sinopse: A arte tauromáquica, popularmente conhecida como festa brava, é um fenómeno característico dos países ibéricos tendo a Espanha feito alargar a sua influência aos países que colonizou da chamada América Latina, nomeadamente México, Colômbia, Peru, Venezuela e Guatemala. Em Portugal as corridas de touros têm uma maior representatividade no Sul do País, nomeadamente no Ribatejo e Estremadura sendo aí que se situam a maior parte das praças de touros com espectáculos permanentes, as ganadarias e negócios congéneres, as escolas de forcados, etc.
Apesar de existirem monumentais praças de touros em algumas cidades do litoral Norte, nomeadamente Viana do Castelo, Póvoa de Varzim, Espinho e Figueira da Foz, os espectáculos taurinos aqui realizados têm uma periodicidade reduzida. No entanto os espectáculos tauromáquicos já tiveram uma enorme popularidade no Norte de Portugal nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX sendo rara a terra de média dimensão que não tivesse a sua praça de touros fixa, ou o espectáculo anual, em praça amovível, por ocasião das festas concelhias.
Vila Nova de Gaia e as terras vizinhas (Matosinhos e Porto) não foram excepção, tendo havido praças na Serra do Pilar, na Granja, na Rua 14 de Outubro e no Morro da Serra do Pilar. Refira-se que a Praça da Serra do Pilar ombreou com a portuense Praça da Alegria registando as duas praças verdadeiras enchentes em espectáculos que decorreram à mesma hora.


A Praça de touros da Serra do Pilar (1888)
A primeira praça de touros da Serra do Pilar situava-se no chamado Campo de Manobras, bem perto da linha do aqueduto da Serra e foi inaugurada em 1888.
Segundo é referido por Horácio Marçal a praça era construída em madeira e tinha capacidade para 800 pessoas, conhecendo verdadeiras enchentes. Terá sido o que aconteceu com a corrida realizada nos dias 8 e 9 de Julho de 1888 em que estreou em Portugal o célebre matador espanhol Luís Mazzantini, considerado no género um dos maiores artistas de todos os tempos. Marçal refere que “A fina flor da população portuense assistiu a essas duas touradas [lá e na Praça da Alegria] chegando a haver tumultos e prisões, por o público, devido à carência de lugares, pretender invadir a praça”.
Provavelmente devido à sua precária construção, com estruturas de madeira, esta primeira praça não resistiu ao desgaste do tempo e teve de ser desmantelada. Em 1900 o empresário tauromáquico Calhamar Pinto da Silva terá acordado com o empresário Manuel Neves, dono do Teatro Carlos Alberto, a construção de uma nova praça na Serra do Pilar segundo o modelo da praça de touros de Algés. (Cf. O Tripeiro, V, VI, p. 69).


A segunda (?) praça de touros da Serra do Pilar (1902)
Embora não saibamos se este contrato foi cumprido por estes intervenientes sabe-se, no entanto, que em 1902 já estava pronta e nos dias 30 e 31 de Março a praça da Serra do Pilar foi inaugurada com uma corrida em que foram lidados 8 touros com ferro de Luís Patrício. (Cf. O Tripeiro, V, VII, p. 262). No dia 15 do mês de Junho seguinte decorreu na mesma praça um “Grandioso Torneio Tauromáquico - Garraiada Popular” , com organização presidida por José Pinto Amorim da Costa e que contou com a participação de três cavaleiros e vários bandarilheiros locais. (Cf. O Tripeiro, V, XI, pp. 100, 191).
Famosa ficou também a corrida de touros a antiga portuguesa organizada pelo Clube dos Fenianos Portuenses, em 10 de Julho de 1905, em que actuaram Bento de Araújo, Joaquim Alves, Eduardo de Macedo e outros. A praça encheu com 8 000 pessoas e os serviços de portagem da ponte D. Luís venderam para cima de 19 000 bilhetes de peão e 515 de trens e outros veículos. De acordo com o Jornal A Defesa, publicado no Candal (Ano I, nº 8, de 21 de Maio de 1905) o Clube dos Fenianos “servindo-se do pretexto desta festa (…) intercede e esforça-se ante a Companhia de Carris Americanos do Porto para que esta faça a ligação férreo-americana entre esta Vila e o Porto”.
Em 1908 esta praça de touros foi arrendada em hasta pública por 401$000 reis (Cf. O Tripeiro, V, XIV, p. 123).
Refira-se, em nota final, que a Praça de Touros da Serra do Pilar, nos anos de 1903 a 1907, foi palco de vários espectáculos de ascensão em balão, em que tomaram parte os aeronautas gaienses Belchior e “Ferramenta”, os quais entusiasmavam o público gaiense. Foi aliás nesta praça que, em Julho de 1907, se deu o desastre que vitimou, por intoxicação, o aeronauta “Ferramenta” quando procedia ao enchimento com gás.
Os tempos ditaram um declínio dos espectáculos taurinos na região nortenha tendo a praça de touros da Serra do Pilar fechado no final dos anos vinte. Suceder-lhe-á a praça de touros pertencente a José de Deus Monteiro, construída na Rua 14 de Outubro.


Remissivas: Tauromaquia em Vila Nova de Gaia/Praça de Touros da Serra do Pilar


Bibliografia:
. Jornal “A Defesa”, Ano I, Abril a Junho de 1905.
. Jornal “Charivari” de 27 de Abril de 1889.
. MARÇAL, Horácio; Touradas, Toureiros e Tauródromos no Porto, em Gaia e em Matosinhos, in Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, nº 18, Agosto 1971. pp. 109-142.
. LEITE, Arnaldo. A “Festa Brava” – As praças da “Serra” e da “Alegria”. Uma corrida de beneficência – Tardes de sol e entusiasmo. In “O Tripeiro”, V Série, Ano VI, nº 3, Julho 1950, pp. 53-56.
. O Tripeiro – números citados no texto.



Sala de Fundo Local, Outubro de 2011.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Gaia: imagens com história (III)











Casa dos Almadas na Rua das Sete Passadas, freguesia de Santa Marinha (foto de Emílio Biel, c. 1905 – colecção do Arquivo Nacional de Fotografia).











Casa dos Almadas, propriedade da Sandeman (foto de António Conde, 2011).













Instalações da Sandeman e novo local de colocação do brasão (foto de António Conde, 2011).



Título: O solar dos Almadas e o quotidiano gaiense nas actividades ligadas ao vinho do Porto. Data: inícios do séc. XX (c. 1905).
Descrição: Imagem da rua das Sete Passadas (paralela à Avenida Diogo Leite) junto ao Convento de Corpus Christi. Em primeiro plano ergue-se a Casa dos Almadas, actualmente propriedade da firma Sandeman e com ligeiras alterações no primeiro corpo de armazéns, com telhados de duas águas (cf. imagem nº 2). No corpo residencial da construção destaca-se, na parte central, o brasão dos Almadas, o qual foi apeado e colocado nas instalações da mesma empresa, no Largo do Ribeirinho (cf. imagem nº 3). A casa dos Almadas está situada junto à cerca do convento de Corpus Christi e ao local onde, na Idade Média, se localizavam os estaleiros navais ou taracenas sendo ainda visíveis hoje no local algumas estruturas da sua construção.
A imagem denota um ambiente de grande azáfama sendo visível uma fila de, pelo menos, sete “carreiros” que faziam o transporte de vinho do Porto carregado nos carros de bois estando os animais jungidos com as típicas cangas e as pipas seguras pelos fueiros ou estadulhos. À frente da junta de bois encontra-se o “moço dos bois”, que regra geral era uma criança de aguilhada no ombro e atrás do carro, ou ligeiramente ao lado, ia o carreiro. Curioso é o facto de o primeiro carreiro da fila ser uma mulher, vestida com o traje típico, numa profissão que era destinada aos homens mais possantes.
Como último pormenor repare-se nos homens de negócios que assomam às janelas provavelmente dando instruções ou querendo simplesmente posar para o fotógrafo.


Glossário:
Carreiro
– pessoa responsável pela condução, em carro de duas rodas puxado por bois ou vacas, de mercadorias, nomeadamente pipas, carros de mato, produtos agrícolas, etc. Também lavrava terrenos agrícolas com arado ou charrua, transportava pedra carregada num estrutura deslizante chamada zorra ou transportava terra ou areia. Normalmente era um homem possante, fazia-se acompanhar de um moço que ia junto aos animais e empunhava uma aguilhada. Para evitar que os eixos de madeira dos carros chiassem e produzissem ruído os carreiros eram obrigados a untá-los com sabão embebido em água. Era uma profissão importante no Portugal rural de há algumas décadas, assim como, até à época da motorização desenvolvida após a 2ª Guerra Mundial, fazia parte do dia a dia das nossas cidades. Juntamente com os almocreves asseguraram durante séculos o transporte de mercadorias por via terrestre.
Aguilhada – vara que ajudava na condução dos animais e que na ponta tinha uma ponta metálica chamada aguilhão ou ferrão com a qual o carreiro picava os animais, sobretudo nas subidas pronunciadas em que os animais acusavam algum cansaço. O tamanho de ferrão era fiscalizado pela GNR de modo a que os animais não fossem picados em exagero.
Fueiros ou estadulhos – Espécie de paus que encaixavam de cada lado do chedeiro (estrutura do carro de bois), e que serviam para segurar as mercadorias transportadas ou alfaias de suporte (dornas, destinadas ao transporte de uvas ou bagaços; caniças, destinadas ao transporte de espigas de milho, caixas abertas, destinadas ao transporte de areia ou cereais; pipas, destinadas ao transporte de líquidos).
Cangas – utensílio colocado sobre o pescoço dos animais e que presa com uma correia ou tamoeiro, mantém os animais emparelhados e seguros ao cabeçalho do carro. No Minho são profundamente decoradas. Nas zonas de montanha em que os animais puxam pela cabeça e não pelo pescoço, a canga é substituída por um jugo que assenta sobre as molhelhas (estrutura almofadada sobre a cabeça dos animais, ligadas por correias ou sogas). Na Antiga Roma era costume colocaram uma canga ou jugo sobre os noivos que a partir deste acto simbólico assumiam a condição de cônjuges (do latim conjugis).



Bibliografia:
GUIMARÃES, Gonçalves; Gaia e Vila Nova na Idade Média, Porto; Universidade Portucalense, 1995.
PEREIRA, Gaspar Martins Pereira, O Douro e o Vinho do Porto, Porto, Edições Afrontamento, 1991.


Remissivas: Casa dos Almadas/Sandeman/Taracenas de Gaia/Entreposto do Vinho do Porto/Heráldica



Sala de Fundo Local, Outubro de 2011








quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Gaia: imagens com história (II)




























Título: O cais de Gaia e as ruínas de parte do Convento de Corpus Christi

Data: 1ª metade do séc. XX (cerca da década de 20)

Descrição: Imagem da zona ribeirinha hoje conhecida por Cais de Gaia, tirada de Sul para Norte, com a cidade do Porto em pano de fundo e o rio Douro de permeio. Em primeiro plano vemos o actual portal de entrada do convento de Corpus Christi e as ruínas de parte do convento que foram pasto das chamas e que depois de reconstruídas, no período do Estado Novo, albergaram o Instituto de Reinserção e actualmente a GAIURB. É digno de registo o (ainda) significativo tráfego fluvial.
Na zona então conhecida por Praia e hoje tradicionalmente designada por cais e onde ainda nos finais do séc. XX existia o pavilhão da APDL são dignas de registo uma plataforma com carris e guindastes que se eleva sobre o rio, bem assim vários armazéns provisórios. Trata-se respectivamente da estrutura que servia o antigo elevador da Calçada das Freiras e de edificações que serviam de armazém de apoio. Este elevador, como é sabido, fazia a ligação de mercadorias e pessoas entre este cais e a estação das Devesas.
É também visível junto às paredes em ruína uma pequena cúpula branca; trata-se, muito provavelmente, de um quiosque que ocupa o lugar do actualmente existente no Largo de Aljubarrota.

Remissivas: Cais de Gaia/Convento de Corpus Christi/Elevador da Calçada das Freiras

Bibliografia:
Porto. Margens do Tempo, Livraria Figueirinhas. Porto/Lisboa, 1997. p. 24


Sala de Fundo Local, Setembro de 2011






terça-feira, 27 de setembro de 2011

Os gaienses e a aeronáutica (V): dois pioneiros da aviação – Oliva Teles e Maria José Meneres Cudell
















Luís Gomes de Oliva Teles












O major Oliva Teles a bordo do “Porto”, o primeiro avião do Aeroclube do Porto













Maria José Cudell ao lado da sua aeronave













Licença de instrução de pilotagem de M.ª José Cudell.


Local: Arcozelo/Santa Marinha

Data: Décadas de 30 a 60 do séc. XX



Sinopse: A finalizar, por agora, este ciclo dedicado à aeronáutica, aos gaienses ilustres que se notabilizaram nos ramos da aerostação e da aviação e a factos e lugares da história local gaiense ligados à arte de voar, apresentamos dois pioneiros da aviação – o major Oliveira Teles e a piloto-aviadora Maria José Meneres Cudell, nascidos, respectivamente nas freguesias de Arcozelo e Santa Marinha.
O primeiro foi considerado um dos pioneiros da aviação em Portugal. Quanto à segunda trata-se da primeira mulher da região norte a obter licença de piloto-aviador.
Para além de terem em comum o facto de terem nascido em Vila Nova de Gaia, o gosto e o pioneirismo na aviação, Oliva Teles foi presidente do júri que atribuiu o brevet a Maria José Cudell. Trata-se, infelizmente, de duas figuras gaienses cuja história de vida está pouco divulgada.
Major Oliva Teles – o “apóstolo portuense da aeronáutica”.Luís Gomes de Oliva Teles, de seu nome completo, nasceu na freguesia de Arcozelo, em Vila Nova de Gaia.
Iniciou a sua actividade profissional na carreira militar, no extinto Batalhão de Metralhadoras 3, na cidade do Porto. Ingressou depois na Aeronáutica servindo na Escola de Sintra e comandando depois a Escola de Tiro e Bombardeamento de Espinho. Foi ainda comandante das bases aéreas de Tancos, de S. Miguel (Açores) e da Base de Balões de barragem de Defesa do Porto.
Recebeu várias condecorações, entre as quais se destacam: no estrangeiro - medalha de mérito do Ministério da Aeronáutica do Brasil, medalha de ouro da Fundação Santos Drumond de S. Paulo, Vice Comodoro da Patrulha Aérea Civil do Brasil; em Portugal - Oficial da Ordem de Avis, medalha dos “Serviços Distintos do Exército” e medalha de Bom Comportamento Militar.
Foi um dos fundadores do Aeroclube do Porto, o qual comprou o seu primeiro avião, baptizado de Porto, em 1935; aí, na patente de capitão, foi um dos fundadores da primeira escola de pilotagem da região norte e um dos instrutores deste aeroclube. Foi ainda delegado da administração da TAP no Porto e um defensor da localização do aeroporto do Norte em Pedras Rubras, considerando-o vital para o progresso da região. Na viagem inaugural do grande aeroporto do Norte foi ele, na qualidade de director, que recebeu os convidados que vieram de Lisboa num monoplano “Proctor” e três biplanos “Dragon Rapid”, no que foi o primeiro voo Lisboa-Porto-Lisboa.
Em sua homenagem em 18 de Janeiro de 1964, um grupo de amigos, descerrou um medalhão de bronze no aeroporto de Pedras Rubras. Viveu na freguesia de Guifões, concelho da Maia, muito perto do aeroporto. No dia do seu funeral o cortejo foi sobrevoado por cinco aviões do Aeroclube do Porto e um avião da TAP, em gesto de homenagem àquele que foi um dos pioneiros da aviação em Portugal.
O seu nome consta da toponímia da freguesia gaiense de Arcozelo e da maiata de Gueifões.

Maria José CudellMaria José Rebelo de Carvalho Meneres Cudell nasceu na freguesia de Santa Marinha, na principal avenida gaiense, em 18 de Janeiro de 1929, filha do advogado José Pinto Meneres e de D. Luísa Pacheco Teixeira de Carvalho Meneres. Era neta do antigo Presidente da Câmara, José Fonseca Meneres. Como psicóloga de profissão trabalhou no Centro de Saúde Mental Infantil e Juvenil do Porto.
A sua opção pela aviação terá sido influenciada pelo casamento com Walter Francisco Burmester Cudell em 31.07.1948. Foram pais de quatro filhos de nomes Maria José, Pedro Roberto, Maria Paula e Carlos Henrique, nascidos respectivamente em 1949, 1950, 1953 e 1961. Walter Cudell pertencia a uma respeitada família portuense e era um apaixonado pela aviação e ambos se prepararam para se credenciar como pilotos da aviação civil.
Em Julho de 1956 recebeu no Aeroclube do Porto as primeiras aulas de instrução de pilotagem e em 8 de Julho de 1958 fez provas e foi-lhe passada a licença de piloto aviador nº 1054/PP/1. Presidiu ao júri o aviador major Oliva Teles, acima referido.
Maria José Cudell foi assim a primeira mulher na região Norte a receber o brevet de piloto. No seu currículo conta-se a participação em diversos ralis tendo sobrevoado diversas cidades peninsulares.

Remissivas: Gaienses ilustres/Primórdios da aviação em Portugal/ Arcozelo (freguesia) /Santa Marinha (freguesia) / Aeronautas gaienses

Bibliografia:
. http://www.accv.pt/index.php/clube/historia?showall=1 (consultado em 2011.09.15)
.
http://aecporto.com/clube/historia.html (consultado em 2011.09.15)
. PEDROSA, David; A Primeira Aviadora do Norte de Portugal – Drª Maria José de Carvalho Meneres Cudell in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. V, nº 32, pp. 47-48.
. TELES, Ayres Guimarães de Oliva; Major Oliva Teles. O Apóstolo Portuense da Aviação, in O Tripeiro, Série Nova, Ano IX, nº 8, Agosto 1990, pp. 255-256.



Sala de Fundo Local, Setembro de 2011.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Os gaienses e a aeronáutica (IV) : o malogrado Campo de Aviação da Madalena

















Limites aproximados da localização da Campo de Aviação da Madalena (entre a ribeira da Madalena e a Ribeira de Ateães) feita por decalque aproximado da Planta topográfica e cadastral.


















Planta do Campo de Aviação da Senhora da Hora
























Local aproximado do Campo de Aviação da Senhora da Hora


Local: Madalena


Data: anos 20 do século XX


Sinopse: Na década de vinte do século passado o norte do País, num processo liderado pelo município portuense e demais instituições da “Cidade Invicta” e atenta a necessidade de um campo de aviação, discutia sobre a melhor localização que servisse a cidade e a região. Lisboa já dispunha do seu campo de aviação, o “Campo Internacional de Aterragem de Alverca, o qual funcionou até à substituição pelo aeroporto da Portela.
Elegeram-se, à partida, vários lugares para o então denominado Campo de Aviação do Norte ou Campo de Aviação Internacional, a saber: Madalena (Vila Nova de Gaia), Candal (Vila Nova de Gaia), Pasteleira (Porto) e Senhora da Hora (Matosinhos). Destes o que reunia melhores condições, de acordo com a opinião dos melhores peritos portugueses em aeronáutica, era o campo a localizar na orla marítima da freguesia gaiense da Madalena. Porém o município portuense apoiava a opção do campo da Senhora da Hora pelo que o campo da Madalena, em 1927, foi preterido. Entre os defensores da solução “Senhora da Hora” estavam o professor Ezequiel de Campos, um homem com uma ampla visão sobre o planeamento da cidade, o qual defendia que “ o campo de aviação deve ficar tão perto quanto possível do centro da Cidade” e daí que defendesse “ o campo de aviação na Senhora da Hora: perto do centro da Cidade, perto de Leixões e perto das estações de caminho de ferro; embora fosse ideal obter ainda distâncias menores. Não perturbará muito os lugares de residência.”
Em boa verdade, na prática, nenhuma das opções foi concretizada, embora o Aeroclube do Porto tenha iniciado, já nos anos 30, o processo, depois indeferido, de aquisição de terrenos para o campo de aviação na Senhora da Hora. Este localizava-se sensivelmente no lugar da actual saída para Matosinhos (ao lado do NorteShoping) e serviu, contudo, para alguns festivais aéreos.
A solução acabou por ser encontrada no final da década de 30 com o projecto de construção do aeroporto da Região Norte em Pedras Rubras ocupando terrenos dos concelhos de Matosinhos, Maia e Vila do Conde. As obras foram iniciadas em 1943 e a inauguração ocorreu em 3 de Dezembro de 1945 com um voo proveniente de Lisboa; a internacionalização deste aeroporto dar-se-ia 11 anos mais tarde, em 1956.
Recorde-se que em 1935 a aeronáutica militar construiu um aeródromo em Espinho, o qual assegurou as ligações aéreas civis com Lisboa. Neste período quando o aeroporto de Lisboa não estava operacional, ou em casos de escala técnica, algumas companhias europeias, usaram o aeródromo de Espinho.

Um “aeroporto” em Gaia nos anos 30?
Como já foi referido a opção de construir o campo de aviação do Norte na freguesia da Madalena ganhou muitos adeptos mas, provavelmente, o peso político do município portuense e de várias instituições portuenses que defendiam uma infra-estrutura de cariz urbano, convenceram o governo da ditadura militar a desistir dessa opção.
Refira-se que o projecto do campo de aviação da Madalena foi encetado tendo sido feito o levantamento topográfico e cadastral de uma enorme extensão de terrenos necessários para o efeito. Na escolha da localização ideal trabalharam os melhores técnicos da aeronáutica como foi o caso do tenente-coronel aviador Cifka Duarte, o qual trabalhou também na selecção da localização dos campos de aviação da Achada (Ilha Terceira, nos Açores), em 1928 e do campo de aviação da Palmeira (Braga), em 1926. A opção pela Madalena recebeu, aliás, o parecer favorável da Inspecção da Aeronáutica Militar, a qual referiu expressamente que “dos três campos que foram indicados, Senhora da Hora, Alto da Pasteleira e da Madalena e que foram visitados, medidos e confrontados não resta dúvida, nem aos leigos, de que o último possui vantagens sobre os dois primeiros, que só depois de custosíssimas transformações dariam um medíocre campo para a aviação”. Em Julho de 1927 o vereador gaiense Artur Mariani teve, em Lisboa, em encontro informal com o tenente-coronel Cifka Duarte e o major Ribeiro da Fonseca que lhe terão afirmado que “o Campo da Madalena era de todos quantos tinham sido apresentados, o único em condições de se tornar um bom campo para receber aviões destinados ao comércio e portanto internacional”.
Em Vila Nova de Gaia depressa se gerou um movimento de solidariedade entre as várias freguesias, as quais, reunidas em maioria na sala de sessões da Junta de Freguesia de Santa Marinha, resolveram solidarizar-se com a Câmara e prestar todo o auxílio material e financeiro para que a construção do campo da Madalena fosse uma realidade.
Refira-se que, neste período, o concelho de Vila Nova de Gaia, estava a braços com uma profunda crise motivada pela criação do Entreposto exclusivo do Vinho do Porto. Esta medida que, a médio prazo, se tornou num factor de creditação do vinho do Porto nos mercados mundiais teve como efeitos imediatos a obrigatoriedade do encerramento de todos os armazéns de preparação de vinhos comuns, licores, etc. e a sua deslocação para fora dos limites da zona demarcada do Entreposto. Daí que todos os trabalhadores ligados a estes sectores, bem como outros ligados à tanoaria, caixotaria e outros ofícios viram os seus postos de trabalho ameaçados. O município perdeu rendimentos dos impostos das empresas que optaram em se deslocar para junto da periferia do porto de Leixões.
No contexto desta situação económica e social vivida a nível concelhio a construção dum campo de aviação traria novas perspectivas ao concelho. Nesse sentido o município gaiense fez todas as diligências junto das entidades competentes, nomeadamente com a 1ª Região Militar e o presidente da “Grande Comissão para a Construção dum Campo de Aviação no Norte do País”, na defesa do campo de aviação em terras gaienses.
Contudo todos os esforços foram baldados e o campo de aviação da Madalena não passou de uma miragem cuja memória caída no olvido queremos aqui resgatar.


Remissivas: Aeronáutica -- Vila Nova de Gaia, Madalena (freguesia), Campo de Aviação da Madalena, Aeronáutica -- Portugal.


Bibliografia:
. Arquivo Municipal Sofia de Melo Breiner - Planta topográfica e cadastral do campo de aviação da Madalena - ano de 1929; PT/ALL/CMVNG-AMVNG-M-A-01; Cota: 18357, doc. 151, Cx. 16.
. Arquivo Municipal Sofia de Melo Breiner – Livro de actas de sessões da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia; ano de 1927.
. Jornal “A Terra de Gaia”, ano de 1927.
.
http://www.portoantigo.org/2010/06/campo-de-aviacao.html (consultado em 2011.07.31)
.
http://www.cfportugal.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=266%3Aas-ligacoes-aereas-entre-lisboa-e-o-porto&catid=28%3Aboletim-no-412&Itemid=15 (consultado em 2011.07.30)

Sala do Fundo Local, Setembro de 2011.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Os gaienses e a aeronáutica no início do séc. XX (III) – a efusiva homenagem aos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral
















































Local: ex-Largo do Mártir ou da Bandeira / actual Largo dos Aviadores, freguesia de Mafamude

Data: 3 de Dezembro de 1922.

Sinopse: É conhecido o interesse despertado nas gentes gaienses, no início do séc. XX, pelas questões aeronáuticas, quer fosse pelo espectáculo das subidas de balão, a partir da velha praça de toiros da Serra do Pilar, quer fosse pela efémera fama dos seus protagonistas, quer fosse, ainda, pela inesperada dimensão da tragédia que, em Novembro de 1903 e em Julho de 1906, vitimou os aeronautas gaienses Belchior, “Menino de Oiro” e “Ferramenta”.

Talvez essa precoce empatia pela navegação aérea nos ajude a compreender melhor a forma entusiasta como os gaienses viveram e seguiram a evolução do raide aéreo empreendido pelos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, pilotando o hidroavião “Lusitânia”, o qual, em 1922, ligou Lisboa ao Rio de Janeiro. Daí que, conhecida a notícia do estrondoso sucesso da viagem transatlântica, ocorrido a 17 de Junho de 1922, as “forças vivas” da Vila pensaram em homenagear os novos “heróis dos ares”, através de um monumento, a colocar num dos largos principais da Vila e convidar os protagonistas para a sua inauguração. Assim, a Câmara Municipal, corporizando o desejo da população, logo na reunião de 23 de Junho, deliberou fazer uma justa homenagem aos aviadores, quando chegassem a Portugal, e nomear uma comissão para tratar dos festejos e do monumento a levantar no então chamado Largo do Mártir S. Sebastião ou da Bandeira e que, desde então, conhecemos por Largo dos Aviadores.

A travessia aérea do Atlântico Sul - Esta travessia foi planeada no âmbito do Centenário da Independência do Brasil e foi considerada na época um grande feito da história da aviação tendo em atenção a fiabilidade dos instrumentos de navegação convocados, concebidos por Gago Coutinho, e a precisão dos mesmos em voos então considerados de grande extensão. Refira-se que esta primeira viagem transatlântica entre a Europa e a América do Sul foi precedida de um outra viagem, ocorrida em 1921, entre Lisboa e o Funchal, que durou 7 horas e meia, tendo aqueles aviadores experimentado a eficácia dos seus instrumentos de bordo, a direcção dos ventos e outras questões técnicas e comprovado que os métodos seguidos e os instrumentos utilizados eram suficientes para fazer viagens de maior amplitude.

O raide foi iniciado em 30 de Março de 1922, em Lisboa, no hidroavião “Lusitânia” e durou 80 dias. Pela duração pode perceber-se que, embora fosse um feito notável para a época, foi recheado de escalas técnicas, escalas forçadas motivadas por consumo desmedido de combustível, afundamento do avião depois da amaragem, avarias no avião de substituição e esperas pela chegada do barco “Carvalho Araújo”, com um segundo avião Fairey, com o qual partiram para o troço final que os levou à baía de Guanabara e ao Rio de Janeiro, no dia 17 de Junho. O feito maior desta verdadeira odisseia foi o mérito de, graças à precisão do sextante, terem realizado uma etapa de 11 horas seguidas sobre o oceano tendo como referência os minúsculos Penedos de S. Pedro.

A homenagem em Vila Nova de Gaia - Em Vila Nova de Gaia, por decisão de Alberto Correia Teixeira, então presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, foi organizada uma Comissão, incumbida da respectiva homenagem e construção de um monumento aos aviadores, a qual era constituída por uma plêiade de notáveis artistas e figuras gradas como Ramiro Mourão, mestre Joaquim Lopes, mestre Teixeira Lopes, Diogo de Macedo, Sousa Caldas, Domingos Romariz, Augusto Rocha e Aureliano Tavares. O monumento, cujo projecto já estava executado por autor que se desconhece, é em granito da região. Tem a encimá-lo a esfera armilar, a Cruz de Cristo e dois medalhões no frontal e respectivos dizeres.

A homenagem decorreu no dia 3 de Dezembro. Os aviadores chegaram de comboio, às 11 horas, à estação das Devesas, onde estava muito povo e várias bandas, entre as quais a da Sociedade 1º de Agosto, de Coimbrões. Seguiram para a cidade do Porto, onde foram homenageados; à tarde subiram o rio Douro até Crestuma, de visita à Fiação do Morais que Gago Coutinho conhecera em Angola. À noite fez-se a recepção em Vila Nova de Gaia, sendo a luz abundante uma novidade e um atractivo inaugurado uns meses antes, em 9 de Abril. O Largo, hoje conhecido por Largo dos Aviadores, estava cheio de gente e o monumento estava coberto com a bandeira nacional. Procedeu o aviador Gago Coutinho ao descerramento do cordão da bandeira, empunhado pelo filho do escultor Sousa Caldas; seguiu-se o fogo de artifício, as bandas de música tocaram o hino nacional e o povo aclamou os “heróis do ar”. A sessão solene realizou-se ali ao lado, na sede da Associação A Vilanovense, já que os Paços do Concelho ainda estavam em construção. Entre as altas individualidades presentes destacavam-se o ministro da instrução, Prof. Leonardo Coimbra, o bispo e o governador civil do Porto. Usaram da palavra o presidente da Câmara que referiu o júbilo dos gaienses por receberem os aviadores, o presidente da Comissão ad hoc, Ramiro Mourão e Aureliano Tavares, inspector escolar. Seguiu-se o discurso do Prof. Leonardo Coimbra e a finalizar usou da palavra Sacadura Cabral que agradeceu a homenagem.

Vila Nova de Gaia tornou-se assim a primeira terra portuguesa a erguer um monumento aos grandes aviadores e a perpetuar a memória do seu feito num dos largos mais emblemáticos da urbe.

A homenagem em Avintes - Também esta freguesia gaiense que cedo procurou estar na dianteira do progresso e da actividade cultural organizou patrióticos festejos de homenagem aos aviadores tendo para o feito criado uma comissão presidida pelo notário Dr. João Alves Pereira. Os primeiros festejos ocorreram ainda antes do culminar do raide aéreo e destinaram-se a desejar os melhores êxitos à heróica viagem; constaram de uma grande marcha luminosa, ao longo da Rua 5 de Outubro, e da oferta de uma esmola aos mais necessitados da freguesia. Os festejos posteriores, em honra do êxito alcançado e em homenagem aos aviadores, contaram com a presença de cerca de 5 000 pessoas, tendo a marcha luminosa percorrido a Rua 5 de Outubro. As associações culturais e recreativas contribuíram com iluminações, balões venezianos e alegorias de aviões e caravelas. As orquestras 1º de Maio e dos Plebeus Avintenses animaram os festejos. Estes foram retomados na semana seguinte com uma sessão solene no Clube Recreativo Avintense e uma cerimónia, no Teatro Almeida e Sousa, presidida pelo Dr. João Alves Pereira, destinada a entregar 2$00 a cerca de 125 pobres de Avintes, fruto de uma subscrição pública.

No dizer do Dr. João Alves Pereira “O cortejo, feérico, triunfal, pomposo, entusiasmou e empolgou pela sua imponência e majestade (…) Renasceu o orgulho de ser avintense, o desvanecimento de ter nascido numa terra em que os crepúsculos são rezas, as manhãs cânticos e as tardes promessas”.

Texto de António Conde

Remissivas: Monumento de Homenagem aos aviadores / Largo dos Aviadores -- Toponímia /Mafamude (freguesia)/Avintes (freguesia) /Cabral, Sacadura -- aviador / Coutinho, Gago -- aviador

Bibliografia:

. ALMEIDA, Luís Gomes de; A travessia aérea do Atlântico Sul: homenagem do povo de Avintes, In Caminho Novo, Ed. esp., nº único (1 Dez. 1992). Avintes, C.R.A., 1992, pp. 17-19
. Glorificando os heróis, In A Luz do Operário, de 18 de Junho de 1922.
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Sala de Fundo Local, Julho de 2011