quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Discurso de Bernardo Lucas proferido no Clube de Vila Nova de Gaia em 1886: o fomento da instrução em Gaia no séc. XIX

Bernardo Lucas; O Tripeiro, 1966, p. 119 Bernardo Lucas no final da vida, O Tripeiro, 1950 Capa do livro “Discurso”

Local: Rua Direita, freguesia de Santa Marinha

Data: 1886

Sinopse: No dia 21 de Novembro de 1886, teve lugar na sede do Clube de Vila Nova de Gaia, sita à Rua Direita, da freguesia gaiense de Santa Marinha, a entrega dos prémios Luís de Camões e Soares dos Reis aos alunos premiados. No epílogo desta cerimónia foi proferido pelo Dr. Bernardo Lucas o discurso que vamos sucintamente dissecar, o qual ganhou honras de publicação que o autor dedica e oferece ao Clube de Vila Nova de Gaia. Previamente à análise do discurso importará fazer uma breve apresentação dos intervenientes, a saber:
Bernardo Lucas – o orador - Bernardo Lucas foi um distinto advogado, brilhante orador, autor de várias publicações no âmbito do direito, da poesia e da oratória, tradutor, jornalista, presidente do Ateneu Comercial do Porto e membro da direcção da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto tendo representado essa instituição em vários congressos internacionais de imprensa. No campo da advocacia cedo se revelou um distinto causídico patrocinando defesas judiciais polémicas de que são exemplo a de João Chagas, um dos revolucionários do 31 de Janeiro de 1891, e a do caso Calmon, uma célebre querela anti-jesuítica. No campo da educação a sua acção foi notável; foi fundador de um colégio feminino na Rua de Miguel Bombarda no Porto, foi professor, director do ensino secundário em Vila Nova de Gaia e proferiu diversas conferências ligadas a esta temática. Como homem de cultura privou com Eduardo Coimbra e António Nobre, colaborou com vários jornais e revistas, fez imensas conferências, nomeadamente sobre a vida e obra de Garrett e na homenagem a Mousinho de Albuquerque. No campo político é conhecida a sua precoce adesão aos ideais republicanos, patente na defesa dos revoltosos republicanos e na sua oposição ao jesuitismo; foi deputado republicano, pelo círculo de Vila Nova de Gaia em 1913 e 1915. Nascido no Largo da Praia, em Santa Marinha, em 22 de Maio de 1865, Bernardo Lucas formou-se como bacharel em Direito, pela Universidade de Coimbra, em 1888. Faleceu no Porto em 5 de Março de 1950. O discurso que aqui trazemos à colação foi proferido no vigor da sua juventude, quando era ainda um jovem estudante coimbrão de 21 anos e espelha a precocidade dos seus ideais republicanos em matéria de educação e a sua oposição ao modelo de educação dos jesuítas.
Os prémios escolares do Clube de Vila Nova de Gaia - O Clube de Vila Nova de Gaia foi fundado em 1877. Nos seus Estatutos aprovados pelo Governo Civil do Porto em 16.02.1882, consta a “instituição de prémios para difundir e animar a instrução elementar”, a ”promoção de conferências científicas e literárias” e a formação de uma “biblioteca com sala de leitura” para os associados. Refira-se que este Clube ao promover, em 1880, as comemorações do 3º Centenário da morte de Camões, instituiu um prémio denominado “Luís de Camões”, no valor de 20 mil réis, destinado “ao aluno ou aluna das escolas (…) de Gaia, que melhor classificação alcançar no exame de instrução primária feito no Liceu Nacional da cidade do Porto”. O Clube oferecia ainda aos alunos premiados um diploma e um exemplar de “Os Lusíadas”. O Prémio Soares dos Reis destinava-se a estimular a educação industrial e artística.
O discurso do Dr. Bernardo Lucas -No seu discurso o orador, embora apoie a ideia de construção de escolas defendida pelos que define como “evangelizadores do progresso intelectual”, considera da máxima importância a definição do modelo de escola, daquilo que é ensinado, como é ensinado e sobretudo que se pratique uma educação completa. De acordo com as suas palavras “Como na religião há o jesuíta, na política há o impostor: ambos são hipócritas, ambos enganam o povo, tripudiando sobre a sua ignorância”; daí a necessidade de estar atento. Bernardo Lucas refere que não pretende uma nação de sábios; contudo faz a apologia de que o nível intelectual dos portugueses ultrapasse o exame da instrução primária e combate a atitude dos pais que não deixam os filhos continuar os seus estudos, para além deste grau. Considera o autor que a instrução primária, o “saber ler, escrever e contar” é apenas e tão-só a base para a construção do sentido civilizador da instrução e que “Parar aí a educação é como que construir os alicerces e deixar por fazer o edifício”. No final da sua alocução Lucas fez uma saudação aos candidatos e lembrou que o grande mérito dos prémios pertencia também, e sobretudo, aos seus professores. Comparando a falta de instrução a uma vasta planície árida, coberta de urze, o autor considerou que é através da escola que se pode arrotear a inteligência do concelho, preparando o terreno onde as sementes vão frutificar. Referiu ainda que, no censo de 1878, o concelho de Gaia tinha cerca de 53.000 habitantes, dos quais apenas 20% sabiam ler. Depois dirigiu-se aos instituidores dos prémios Luís de Camões e Soares dos Reis a quem agraciou com palavras de contentamento e esperança pela obra feita e exortou a continuar a sua missão, prontos a vencer os escolhos que iriam encontrar pelo caminho, seguindo a divisa “querer é poder”.

Remissivas: Bernardo Lucas / O Clube de Vila Nova de Gaia / Educação em Gaia no séc. XIX / Poetas de Gaia

Bibliografia:
. Bernardo de Almeida Lucas in O Gaiense, Ano V, 1 de Julho de 1965, p. 4
. LUCAS, Bernardo – Discurso proferido no Clube de Vila Nova de Gaia em 21 de Novembro de 1886, Coimbra, Imprensa Académica, 1886.
. O Tripeiro, V Série, Ano V, nº 11, p. 254, de Março de 1950.
. SILVA, Melchior; Recordando o Dr. Bernardo Lucas, in O Tripeiro, VI, VI, nº 4 Abril, 1966, p. 119.

Sala de Fundo Local, Dezembro de 2010