quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A festa e o culto a Santo Ovídio


Santo Ovídio, advogado das dores de ouvidos e dos maridos infiéis

Senhor do Padrão

Capela do Senhor do Padrão, também chamada de Santo Ovídio.

Local: Santo Ovídio, Mafamude, Vila Nova de Gaia.

Data: 1º domingo de Setembro.

Sinopse:
É pouco conhecida a biografia desde santo, um dos mártires do Cristianismo, ligado aos primórdios da Sé bracarense. Nascido na ilha da Sicília terá sido enviado, pelo Papa Clemente I, para Braga, onde foi o terceiro bispo, no ano de 95. Terá morrido, como mártir, no ano de 135 e está sepultado na Sé de Braga. No hagiológico cristão a sua festa decorre a 3 de Junho.
Na religiosidade popular Santo Ovídio, também chamado de Santo Ouvido, é advogado contra as dores de ouvidos e os maridos infiéis. Assim o povo, a quem os ditos males afligiam, fazia-lhe promessas de oferendas, na expectativa de ser correspondido. Estas consistiam em dinheiro, objectos de cera, nomeadamente ouvidos ou cabeças e, curiosamente, telhas.
O nome de Santo Ovídio é frequente na toponímia do norte de Portugal e Galiza e o seu culto encontra-se também aí muito difundido.
Na paróquia de Santo Ovídio, da freguesia gaiense de Mafamude, existe festa anual, durante muito tempo com feira anual, a qual tem lugar no primeiro domingo de Setembro, no Largo de Estêvão Torres, popularmente chamado de Largo da Feira, ou Largo de Santo Ovídio.
Este culto remonta, pelo menos, ao século XVIII sendo certo que em 1758, à data das “Memórias Paroquiais”, havia “festa no primeiro domingo de Setembro na capela de Santo Ouvido a festejar a imagem do mesmo Santo, tudo na maior veneração”. Nesse tempo havia duas modestas capelas, uma de invocação ao Senhor do Padrão, com festividade no primeiro domingo de Maio e outra a Santo Ovídio, as quais foram construídas pelo povo “para ouvirem missa nos dias de muito Inverno”, não tanto pela distância em relação à matriz de S. Cristóvão, mas, provavelmente, pelo mau estado dos caminhos. Este aspecto é importante pois, presentemente existem duas igrejas, em Santo Ovídio, conhecidas popularmente por capela de Santo Ovídio e igreja nova, esta construída há cerca de 20 anos. No entanto a chamada capela (ex-igreja) de Santo Ovídio, mudada para o lugar actual, devido à remodelação da rede viária, em 1950, conheceu uma apropriação da sua designação, já que deveria chamar-se capela do Senhor do Padrão. De facto até aos finais do século XIX, coexistiam, na Rua do Padrão, esta capela e uma outra de invocação a Santo Ovídio, a qual foi demolida, devido à pressão de um morador do local, rico e influente, e a quem a capela tirava as vistas do mar. De acordo com a tradição, o dito morador consegui valer os seus intentos, mas acabou por cegar vendo o povo nesse facto um castigo divino.
Por curiosidade refira-se que a capela oitocentista do Senhor do Padrão foi afectada pelo terramoto de 1755 tendo aberto “algumas fendas nas paredes e nos tectos” e, pelo facto de não haver esmolas para a reparação, o referido abade requereu a imposição do real d’água, no concelho de Gaia, para financiar as obras.
Como foi referido uma das promessas normalmente feitas a Santo Ovídio era a oferta de telhas. Esta particularidade, praticada em terras gaienses em tempos não muito distantes, é também conhecida de outras festas a Santo Ovídio, nomeadamente em Meixomil (Paços de Ferreira), Louro (Vila Nova de Famalicão), Valença e nas terras galegas de La Guardiã e Santa Tecla. Era também praticada com outros santos, nomeadamente S. Brás, na Nazaré, a S. Vicente e na festa do Espírito Santo, no lugar de Sá (Ponte de Lima). Em Valença, segundo a tradição, para obter as graças do Santo, devia oferecer-se sal e telhas roubadas, atadas com um vime novo, no dia da romaria.
De acordo com Soledade Martinho Costa esta prática aparece como propiciatória no roubo ritual que se fazia outrora do Menino Jesus que Santo António segura no colo, muitas vezes desaparecida da imagem do Santo, tradição que se manteve até aos inícios do séc. XX, segundo o povo, para dar sorte.
Uma notícia inserta no Jornal “O Concelho de Gaia”, de 6 de Setembro de 1873, dá conta dos festejos daquele ano; havia três dias de festa com missa solene, Santíssimo exposto, sermão e música. O arraial “é dos mais concorridos d’estes arredores”. Na segunda-feira houve feira, com distribuição de prémios “áquelles lavradores que apresentarem melhores exemplares de gado vaccum e suíno”. Na feira vendia-se de tudo, nomeadamente sementes e melancias.
Actualmente as festas são organizadas pela Junta de Freguesia de Mafamude e os programas das últimas festas têm incluído, para além das festas religiosas (missa e procissão solene), eventos desportivos, arraial e actuação de grupos folclóricos e musicais numa parceria entre a autarquia e as instituições associativas locais.
Remissivas: O Lugar de Santo Ovídio; a paróquia de Santo Ovídio; Fábrica de Loiça de Santo Ovídio/ Feira de Santo Ovídio/ Igreja nova de Santo Ovídio.

Bibliografia:
. COSTA, Francisco Barbosa da - S. Cristóvão de Mafamude: notas monográficas. Vila Nova de Gaia; Mafamude: Câmara Municipal, Junta de Freguesia, 2001.
. O Concelho de Gaia / ed. lit. Manuel Pinto dos Reis, de 06.09.1873.
. QUEIRÓS, Francisco, Pe. - Santo Ovídio , In: B.A.C.A.G., V. 1, nº 4 (Abr., 1978), p. 58-59 : 2 il.
. http/www.sarrabal.blogs.sapo.pt
. SILVA, Francisco - Mafamude velho: em recordações de saudade, In: B.A.C.A.G. – V. 3, nº 18 (Maio, 1985), p. 61-65: il.
. VALE, Carlos - A Capela do Senhor do Padrão, In: B. A.C. A. G. - V. 2, n.º 15 (Nov., 1983), pp. 51-54.

Sala de Fundo Local, Setembro de 2010