terça-feira, 29 de junho de 2010

Os “velhotes” – um ex-libris da gastronomia gaiense


Este elemento da doçaria popular conhecido por “velhotes”, ou “velhotes da braguesa” é um doce típico gaiense, que apresenta uma forma quadrada e é feito à base de farinha, ovos, canela, essência de limão e açafrão.
A exemplo da outra doçaria popular os “velhotes” tinham uma confecção sazonal, própria do período da Primavera e do Verão e coincidente com as grandes romarias de Vila Nova de Gaia e do Grande Porto. Horácio Marçal, em 1970, referia-se aos “velhotes” de Avintes, que, juntamente com as fogaças da Feira, os melindres de Casais Novos (Penafiel), o doce de Paranhos e o doce da Teixeira, eram vendidos nas “romarias de mais nomeada aqui das cercanias do Porto e até mesmo na própria cidade, como nas festividades (…) de S. Lázaro, Senhor da Boa Fortuna; Nossa Senhora da Lapa, Senhora da Saúde, etc” .
A propósito dos famosos “velhotes” de Avintes, apregoados sob a fórmula “Velhotes de Avintes!...” e vendidos pelas padeiras daquela freguesia na cidade do Porto, Sá Figueiredo regista que eles “eram fabricados com farinha, açúcar, ovos, leite, limão e manteiga. Tudo muito bem amassado, depois partia-se em pedaços que se esticavam, dobravam em pastas, e se coziam no forno, em calor brando” . Alude ainda ao facto de, num passado já não muito recente, os melhores “velhotes” serem os da “Casa Bacalhau”, sita no lugar avintense do Magarão e que era propriedade de Joaquim Bacalhau, um padeiro e regedor que foi caricaturado pelo artista Henrique Moreira.

Os “velhotes da braguesa”
Herdeiros ou não da receita e tradição dos “velhotes” de Avintes terão surgido no final do século XIX, em Valadares, os “velhotes da braguesa”. Segundo Gil Neves devem a designação ao facto de ter sido uma senhora bracarense de nome Maria Francisca da Silva, então residente em Valadares, a primeira a desenvolver a receita dum pão meio açucarado, a que seu marido João Gonçalves de Sousa, por cortesia, apôs este topónimo. Ainda segundo aquele autor esta espécie de pão-doce era fabricada aos sábados, encomendada por alguns retalhistas que o vendiam nas romarias gaienses, nomeadamente no Senhor da Pedra e na festa do Senhor dos Aflitos.

É tradição antiga em Vila Nova de Gaia a deslocação dos romeiros àquela festa valadarense, que tem lugar no primeiro domingo de Julho, com o propósito de comer os deliciosos “velhotes da braguesa”. Este facto é referenciado por Maria António Meireles a qual regista a tradição de que “dois dias antes do sábado do fogo de artifício, se fazia alguma provisão do dito pão doce que ficava depositado em tabuleiros a aguardar a ida ao forno de lenha para aquecer, no momento de maior procura após a cessação do fogo de artifício, em que o público se comprimia e acotovelava” .

A confraria dos Velhotes da Braguesa.
A popularidade deste doce típico da freguesia de Valadares e o facto de se querer preservar a tradição levou à criação da “Confraria Gastronómica do Velhote” cuja origem remonta a 1998 sendo a escritura notarial de fundação realizada em 27 de Dezembro de 2002. Constituem seus objectivos, entre outros, o da “Dignificação e divulgação da existência do doce regional “O Velhote”, promover colóquios e acções de âmbito cultural, certificar a qualidade do doce” .

Os “velhotes da braguesa” na trilogia dos ex-libris gastronómicos gaienses.
Nos dias 17 e 18 de Abril do corrente ano decorreu o fim-de-semana gastronómico de Vila Nova de Gaia, promovido pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e pela entidade do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP). Neste evento os restaurantes gaienses aderentes apostaram na caldeirada de peixe, à moda da Afurada, na broa de Avintes e no doce típico Velhotes da Braguesa.
De acordo com o jornal Audiência “Vila Nova de Gaia aderiu à ideia da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal e transformou os passados sábado e domingo num fim-de-semana gastronómico ao qual aderiram 20 restaurantes do município. A caldeirada de peixe, a broa de Avintes e o doce de romaria “Os Velhotes” foram eleitos os ex-líbris gastronómicos da cidade, mas o arranque do fim-de-semana ficou marcado por sabores ainda mais “apurados”. Para além da prova da ementa, os representantes da Entidade Regional de Turismo aproveitaram o sábado para uma visita institucional aos “pontos fortes” de Gaia, passíveis de divulgação turística. Parque Biológico, Rio Douro e Caves do Vinho do Porto foram os destinos de eleição” .
Estão, pois, de parabéns os “Velhotes”.

Bibliografia:
. FIGUEIREDO, Sá (1989) “Velhotes” de Avintes, in Boletim Associação Cultural Amigos de Gaia, 4º Volume, nº 28, Dezembro de 1989, pp. 26-27.
. MARÇAL, Horácio (1970); Doçaria monástica, regional e popular da área distrital do Porto, in Revista de Etnografia, Vol. XIV, Tomo I, Janeiro de 1970, Porto, Junta Distrital do Porto, pp. 83-117.
. MEIRELES, Maria Antónia; VALE, Maria Clara do (1997); S. Salvador de Valadares. Tradição e Modernidade, Valadares, Junta de Freguesia de Valadares.
. http://www.cgvelhote.com.
. http://www.jornalaudiencia.net.

Sala de Fundo Local, 2010-06-25