segunda-feira, 31 de maio de 2010

A inauguração da Ponte da Arrábida entre o Porto e Vila Nova de Gaia











Aconteceu, entre nós..., há 47 anos


A construção da Ponte da Arrábida e da auto-estrada que lhe dava acesso, a partir da povoação dos Carvalhos, provocou um enorme impacto no concelho de Gaia só comparável ao provocado, um século antes, pela construção do caminho de ferro da linha do Norte. E se é verdade que o concelho foi, literalmente, “rasgado” ao meio, com as implicações que daí derivaram, não deixaram de ser enormes as vantagens para a reestruturação da rede viária gaiense, ficando, deste modo, facilitada a comunicação entre as freguesias e o núcleo urbano.


A construção da ponte, a cargo do empreiteiro Engº José Pereira Zagallo, decorreu de 25 de Outubro de 1956 a 22 de Junho de 1963 e o seu custo ascendeu a cerca de 112 800 contos (o que, sem correcção monetária corresponderia, hoje, a 564 000€).


À data, as condições técnicas do projecto exigiram soluções inovadoras, sobretudo as decorrentes da construção do arco único com 270 metros de corda, à altura o maior arco do mundo, superior em 6 metros ao da ponte de Sandö, na Suécia. Refira-se que o cimbre desta ponte caiu após a primeira montagem, ceifando a vida a 17 trabalhadores, facto que se temia ver repetido aqui no Porto.


Esta obra de arte “honra a engenharia portuguesa seja pela monumentalidade e arrojo das suas linhas arquitecturais (…), seja ainda pelos notabilíssimos conhecimentos técnicos que estruturaram a sua execução e se revelaram de inexcedível profundidade e precisão em todas as dificílimas operações que se realizaram para levantar tão grandioso viaduto, vencendo as mais delicadas dificuldades e até o pessimismo de alguns reputados engenheiros estrangeiros que duvidavam do êxito da obra[1].


A inauguração


No sábado, à tarde, após uma majestosa sessão [de inauguração] presidida pelo chefe de Estado junto à Via Panorâmica, no lugar da Arrábida, percorreu a pé toda a ponte até Vila Nova de Gaia onde foi recebida pela Municipalidade gaiense. Tomando um carro, e seguindo de toda a comitiva, constituída por vários membros do Governo, e outras individualidades, percorreu a auto-estrada que se segue à ponte até aos Carvalhos, retrocedendo depois até ao ‘nó’ de Santo Ovídio e seguindo pelo túnel ali aberto em direcção à Avenida Marechal Carmona [actual Avenida da República], entrou no Porto pelo tabuleiro superior da ponte D. Luís[2].


O acontecimento descrito, plasmado pelo semanário gaiense “O Comércio de Gaia”, teve lugar no dia 22 de Junho de 1963 e foi presidido pelo então Presidente da República, Almirante Américo Tomás, que se fazia acompanhar pelo ministro das Obras Públicas, Engº Arantes e Oliveira e outras altas individualidades.


Refira-se que a viagem presidencial para as cerimónias de inauguração foi iniciada a partir da capital, até ao rio Douro, a bordo da fragata “Álvares Cabral”. Na Afurada foi organizado um cortejo fluvial, constituído por traineiras e outros barcos, os quais acompanharam o cortejo presidencial na subida do rio Douro. O desembarque deu-se junto às velhas “Escadas da Rainha”, na Ribeira portuense. Do programa da visita constou uma sessão solene no Palácio da Associação Comercial do Porto, a visita à Casa do Infante, ao Quartel-General, aos Paços do Concelho e Museu Soares dos Reis. Houve ainda um sarau de gala no Coliseu do Porto e um desfile folclórico, na Avenida dos Aliados, onde o concelho de Vila Nova de Gaia se fez representar pelo grupo folclórico dos “Mareantes do Rio Douro” que exibiram a cabeça de S. Cristóvão e a imagem de S. Gonçalo. A viagem presidencial terminou com uma grandiosa manifestação de despedida na estação ferroviária de S. Bento.


No ínterim destas actividades teve lugar a cerimónia de inauguração da ponte, pelas 16 horas da tarde, numa tribuna montada junto à ponte, na margem direita do Douro, a qual foi precedida de missa campal e discursos das individualidades presentes. Estas enalteceram o novo ciclo de progresso que se criava com a inauguração da nova travessia e dos seus acessos e das novas perspectivas de expansão da cidade do Porto adentro do novo Plano de Urbanização, da aproximação dos núcleos urbanos de Porto e Vila Nova de Gaia e da nova dinâmica que se previa para toda a região Norte. Valorizaram, igualmente, as vantagens que adviriam para o fomento das comunicações Norte/Sul e prestaram homenagem aos grandes obreiros da ponte, nomeadamente o ministro das Obras Públicas e o autor do projecto, o Prof. Edgar Cardoso.


Na intervenção final o Presidente da República depois de louvar o trabalho da engenharia portuguesa e a feliz conjugação entre técnica e estética de que a nova ponte era justamente o paradigma, fez entrega de condecorações e comendas a várias individualidades que concorreram para o sucesso da empreendimento. Não foi olvidada a massa anónima dos operários construtores, na ordem do milhar, a quem fez entrega das medalhas de “Obreiro da Ponte”, algumas delas entregues às respectivas viúvas. Após o lançamento da bênção litúrgica e do descerramento da lápide comemorativa a comitiva atravessou a ponte, a pé, cumprimentando as autoridades municipais de Vila Nova de Gaia e, seguindo a viatura presidencial, percorreram os novos acessos de auto-estrada até ao nó de Santo Ovídio, descendo a principal avenida gaiense e entrando no Porto pela Ponte D. Luís.


O autor do projecto – um prodígio da engenharia portuguesa.


O Engº Edgar Mesquita Cardoso nasceu a 11.05.1913, na cidade do Porto. Formou-se em Engenharia Civil pela Universidade do Porto fazendo estágio em 1937, na Divisão de Pontes da Junta Autónoma de Estradas onde começou a “dar nas vistas” pela sua capacidade e qualidade de trabalho. Foi funcionário da J.A.E. e professor catedrático do Instituto Superior Técnico. O seu nome está ligado a inúmeros trabalhos de engenharia civil tendo-se destacado, sobretudo, como um “engenheiro de pontes”, tendo assinado e orientado, ao longo de mais de 30 anos, dezenas de projectos de construção, recuperação e reforço de pontes e viadutos em Portugal e nas ex-colónias.


Na área do Grande Porto e região do Douro foi responsável por vários projectos, entre os quais destacamos:


. Ponte D. Luís (recuperação e reforço) (1954)

. Ponte da Régua sobre o Rio Douro (adaptação a ponte rodoviária).

. Ponte da Foz do Rio Sousa.

. Ponte da Arrábida (1955).

. Ponte de Abragão, sobre o rio Tâmega.

. Ponte de Mosteirô, sobre o Rio Douro (1968).

. Ponte de S. João (1983).


Curiosidades


Como curiosidade refira-se a discretíssima visita feita à ponte da Arrábida, na tarde do dia 21 de Junho de 1963 (véspera da inauguração oficial), pelo então Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar, na companhia do então Governador Civil do Porto e ex-Presidente da Câmara de Gaia, Engº João Brito e Cunha[3].

Bibliografia:

. A ponte da Arrábida, in “O Tripeiro”, nº 6, VI Série, Ano III, Junho 1963, pp. 185-192.

. CRUZ, Paulo Jorge de Sousa; CORDEIRO, José Manuel Lopes; As Pontes do Porto, Porto, Civilização Editora, 2001.

. Inauguração da Ponte da Arrábida, Junho 1963; Porto, Câmara Municipal do Porto/Gabinete de História da Cidade, 1964.

. Jornal “O Comércio de Gaia”, de 03.06.1963, 24.06.1963, 01.07.1963 e 08.07.1963.

. Para a história da Ponte da Arrábida, in “O Tripeiro”, nº 7, VI Série, Ano III, Julho 1963, pp. 193-196.

. SOARES, Luís Lousada; Edgar Cardoso, engenheiro civil, Porto, FEUP, 2003.

Sala de Fundo Local, 2010.05.31

[1] A ponte da Arrábida, in “O Tripeiro”, nº 6, VI Série, Ano III, Junho 1963, p. 187.

[2] Jornal “O Comércio de Gaia”, ano 33º, nº 1649, de 24.06.1963, p. 1.









[3] http://www.britoecunha.com/historias5 [Consultado em 2010.05.27]