terça-feira, 27 de abril de 2010

Dia Internacional da Mulher


 


No dia 8 de Março comemora-se o “Dia Internacional da Mulher”, instituído pela Organização das Nações Unidas em 1977, depois de dois anos antes, ter designado o ano de 1975 como o “Ano Internacional da Mulher”. Em 1979 foi aprovada uma Convenção com vista a eliminar todas as práticas discriminatórias contra as mulheres.
Desta forma pretendia-se chamar a atenção para os preconceitos e discriminações de que a mulher era alvo e operar uma mudança de mentalidades tendo em vista a dignificação do seu papel na sociedade.

Refira-se que o dia 8 de Março já era comemorado desde o princípio do século (mais propriamente desde 1909), o qual foi escolhido, por proposta da alemã Clara Zetkin, numa conferência internacional de mulheres socialistas que decorreu naquela data, na capital da Dinamarca. Pretendia-se, dessa forma, homenagear as operárias têxteis americanas mortas na jornada de luta que decorreu no dia 8 de Março de 1857, na cidade de Nova Iorque, no decorrer de uma greve que culminou num fatídico incêndio de que resultou a morte de mais de uma centena de operárias.
À data as operárias têxteis americanas lutavam pela redução da jornada de trabalho de 16 horas para 10 horas e pelo aumento dos seus salários que não ultrapassavam 1/3 dos magros salários dos homens.
As décadas seguintes serão marcadas pelo reforço da organização sindical do operariado feminino, na luta por melhores condições de trabalho. Em 1908 cerca de 15 mil mulheres manifestaram-se nas ruas de Nova Iorque, reivindicando a redução do horário de trabalho, melhores salários e o direito de voto.
O movimento reivindicativo das mulheres esmoreceu no período entre as duas guerras e da posterior reconstrução europeia e só foi revitalizado pelos movimentos feministas da década de 60, que na senda do movimento de Maio de 1968, ousaram trazer para a rua a discriminação social e política e a violência que impendia sobre as mulheres.
Em Portugal somente depois do 25 de Abril a mulher conquistou a igualdade política reconhecida no exercício do direito de voto que os regimes anteriores lhe haviam negado. O regime salazarista reservou-lhe o papel de esposa e mãe, vedando-lhe o acesso à docência universitária, à política, etc. Havia profissões em que a ocupação de um lugar remunerado carecia de autorização escrita do marido (ex. professora primária, comerciante) ou até em que o acesso à maternidade lhe era praticamente vedado (ex. enfermeiras, hospedeiras de bordo, etc.).
No entanto a lenta mudança de mentalidades foi responsável, já em plena democracia, pela manutenção de resquícios de discriminação feminina, quer praticado no seio familiar, quer a nível social e político. Algumas mudanças vão sendo operados por via legislativa. Assim é já da década de noventa a legislação que lhe reconhece igualdade de oportunidades no acesso a emprego público. Recentíssima é célebre “lei das quotas” que obriga à fixação de um número mínimo de candidatas nas listas para eleição de cargos políticos.
Na actual sociedade portuguesa, apesar das profundas alterações a mulher é ainda vítima de antigas discriminações estando porém sujeita a novas discriminações, como o assédio sexual e moral, o despedimento em situação de maternidade, a violência doméstica, etc.
Por todo o mundo, em pleno século XXI, são, infelizmente, “banalíssimas” as notícias de profunda discriminação das mulheres em certas civilizações, de tráfico de mulheres para o mercado clandestino da prostituição, ou das mulheres ainda obrigados a actos de excisão de cariz religioso em certas regiões africanas, ou de cenas de violência praticada sobre mulheres e crianças em ambientes de guerra, ou no próprio seio familiar.

Mulheres famosas:
Ao longo dos tempos, por todo o lado, muitas foram as mulheres que ousaram vencer barreiras, romper preconceitos, ou ombrear com os homens no acesso a lugares que lhe eram vedados, ocupando lugares de destaque no mundo da literatura, da música, da costura, dos negócios, do ensino superior, etc. A essas, ainda que postumamente, tem a História feito justiça, operando, caso a caso, a sua reabilitação. De igual modo, ainda que em termos modestos, tem sido feita a reabilitação e homenagem colectiva (normalmente baseada na profissão) à mulher anónima que duramente assumiu o tríplice papel de trabalhadora, esposa e mãe.

Evoquemos, por isso, alguns exemplos:

No mundo:
Florence Nightingale (1820-1910), inglesa, enfermeira e voluntária de guerra.
Cosima Liszt Wagner (1837-1930), música e escritora (divorciada).
A bela Otero – Carolina Otero Iglésias (1868-1965), bailarina espanhola, amada por várias monarcas das cortes europeias. Grande benemérita.
Maria Montessori (1870-1952) – primeira italiana formada em Medicina. Grande pedagoga junto das crianças pobres dos bairros de Roma.
Coco Chanel, de nome Gabriela Bonheur (1883-1971) – Criadora de moda francesa, com ligação à criação de perfumes e adereços de toilete.
Elena Dimitrievna Diakova, conhecida por Gala (1894-1982). De ascendência russa, casou com um poeta surrealista francês e viveu com Salvador Dali que muito influenciou.
Anna Freud (1895-1982) – Psicanalista austríaca, filha de Sigmund Freud, foi um das pioneiras em psicologia infantil.
Madre Teresa de Calcutá, de seu nome Agnes Gonxha Bojaxhiu (1910-1997) – nascida na Albânia foi missionária e criadora da congregação das Irmãs da Caridade. Teve um trabalho notável no apoio a leprosos, vítimas de SIDA e mulheres abandonadas. Foi Prémio Nobel em 1979.
Maria Antonietta Macciocchi (1924-2007) – escritora, professora e política italiana denunciou atrocidades cometidas por regimes comunistas.

Em Portugal:
Luísa Todi – Luísa Rosa e Aguiar (1753-1833) cantora de ópera, cantou para as grandes cortes europeias chegando à Rússia de Catarina II.
A Ferreirinha – António Adelaide Ferreira (1811-1896) – grande empresária vinhateira ligada à produção do vinho do Porto após ter ficado viúva, no período da invasão da filoxera.
Palmira Martins de Sousa Bastos (1875-1967) – filha de gente modesta, tornou-se numa das actrizes mais respeitadas do teatro. Foi grande amiga da rainha D. Amélia.
Maria Lamas – Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas (1893-1983) – escritora e interveniente política foi perseguida pelo regime salazarista que a forçou ao exílio. Foi umas das militantes da causa da emancipação da mulher em Portugal.
Sara Afonso (1899-1987) – Pintora e ilustradora, foi esposa do pintor Almada Negreiros. Foi a primeira mulher a frequentar um café exclusivamente masculino, a “Brasileira do Chiado”.
Ilse Losa (1913-2006) – alemã de ascendência judia, radicou-se em Portugal fugida da perseguição nazi. Foi escritora de literatura para crianças e grande divulgadora da literatura portuguesa na Alemanha.
Sophia de Melo Breyner Andresen (1919-2004) – Grande poeta e ficcionista portuguesa, foi uma combatente da liberdade durante o regime salazarista.

Em Vila Nova de Gaia:
Isabel Van Zeller, de seu nome Maria Isabel Wittenhall Van-Zeller (1749-1819), nasceu em Avintes, na quinta de Santo Inácio, propriedade da família. Foi pioneira da introdução da vacina anti-antivariólica no norte de Portugal. Em 1808 a Real Academia de Ciências atribuiu-lhe a Medalha de Ouro e a concessão do grau de Sócia Correspondente. Foi injustiçada e perseguida pela classe médica sua contemporânea que a acusaram de charlatanice.
Maria Alberta Menéres, de seu nome Maria Alberta Rovisco Meneres de Melo e Castro – foi professora , tradutora, poetisa e escritora de literatura infanto-juvenil, tendo recebido o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens em 1986. Nasceu em Vila Nova de Gaia em 25 de Agosto de 1930.
D. Adozinda Anes, nascida em 9 de Janeiro de 1930, em Salselas, concelho de Macedo de Cavaleiros, no seio de uma família numerosa de gente humilde. Fixou-se em Vila Nova de Gaia e a sua capacidade e empreendedorismo fizeram dela uma verdadeira self made woman e reconhecida empresária na área da restauração numa das mais bonitas praias de Vila Nova de Gaia, na freguesia de Canidelo.
Fanny Owen, filha do Coronel Owen, um conselheiro militar de D. Pedro IV no episódio das lutas liberais, Fanny Owen protagonizou uma história verídica de amor com José Augusto Pinto de Magalhães, de Vilar do Paraíso, sob o olhar de Camilo Castelo Branco. Agustina Bessa-Luís inspirou-se na sua vida imortalizando-a na sua obra literária.

Um poema de homenagem à mulher


Descalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai formosa e não segura.
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata.
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote.
Mais branca que a neve pura;
Vai formosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado,
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta;
Chove nela graça tanta
Que dá graça a formosura;
Vai formosa e não segura.

de Luís Vaz de Camões


2010.03.05


Bibliografia:


. Ferreira, Manuel do Carmo (2009) - D. Adosinda Anes: duas palavras, uma vida. Vila Nova de Gaia, IKdiagonal.
. Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, nº 8, junho 1980; nº 23 , novembro 1987; nº 67, dezembro 2008.