terça-feira, 27 de abril de 2010

As revoltas do “reviralho” - lembrar a revolta de 3 de Fevereiro de 1927 no Porto e em Vila Nova de Gaia



A revolta de 3 de Fevereiro de 1927 foi a primeira, e talvez a mais importante, dum vasto conjunto de revoltas, designadas de “reviralho”, dirigidas pelos fiéis do liberalismo republicano contra o novo poder ditatorial instituído em 28 de Maio de 1926, liderado por Gomes da Costa e que deu origem ao Estado Novo.
O movimento militar revoltoso, apoiado por forças da esquerda republicana e organizações de classe, deveria ocorrer simultaneamente no Porto e em Lisboa, no dia 3 de Fevereiro, e contar com posteriores levantamentos na província. Na prática a revolta ocorreu no Porto, em 3 de Fevereiro, e só eclodiu em Lisboa a 7, quando o Porto já preparava a rendição. Esta descoordenação de movimentos levou ao desgaste das insurreições regionais e permitiu o realinhamento das forças fiéis ao regime. Assim, ao fim de 6 dias de bombardeamentos, de que resultaram 150 mortos e perto de um milhar de feridos, as forças revolucionárias foram desmanteladas. A oposição republicana sofreu um rude golpe. Seguiram-se prisões e deportações dos revolucionários, a dissolução de unidades militares e de centros políticos, o saneamento de funcionários públicos, a fixação de residência, a censura à imprensa afecta à oposição e purgas no interior da estrutura militar.

A revolta do Porto
Os factos
Pelas 4 h 30 m da manhã do dia 3 de Fevereiro eclodiu a revolta no Porto tendo em vista a reposição do regime constitucional da I República. Começou no Regimento de Caçadores 9 com a adesão de Cavalaria 6, parte das forças da GNR da cidade e civis armados pelos revoltosos. Foi ocupado o Governo Civil e o Quartel-general onde se instalou o Comité revolucionário chefiado pelo General Sousa Dias e constituído por Jaime Cortesão, tenente Pereira de Carvalho, capitão Pina de Morais, capitão Sarmento Pimentel, etc.
Os revoltosos organizaram a resistência a partir da Praça da Batalha levantando barricadas no início da Rua 31 de Janeiro e de Santa Catarina e dos acessos à Batalha e controlando o acesso à ponte D. Luís. Tinham também o controlo sobre a estação de Campanhã onde chegariam os regimentos revoltosos.
Aderiram à revolta forças militares e da GNR de Guimarães, Famalicão, Vila Real, Régua, Lamego, Amarante e Póvoa de Varzim. As de Viana do Castelo e Figueira da Foz não conseguiram romper o cerco que lhe foi movido pelas tropas fiéis ao regime.
Logo na tarde do dia 3 de Fevereiro as forças governamentais organizaram-se no Quartel da Serra do Pilar e abriram fogo sobre a Praça da Batalha e Campanhã. Ripostaram os revolucionários do Regimento de Amarante, a partir do Monte Pedral, pelo que a artilharia governamental subiu ao Monte da Virgem para daí bombardear o Porto.
No dia 4 uma força militar de Aveiro, fiel ao regime, conseguiu afastar os revolucionários e passar a ponte de D. Luís sendo sustida pelas barricadas defensoras da Praça da Batalha.
No dia 5 as tropas governamentais chefiadas por Passos de Sousa concentravam em Gaia cerca de 4000 homens que bombardeavam as zonas afectas aos revolucionários.
No dia 7 as tropas revolucionárias, depois de pedido, sob condições, um armistício não consentido, ainda resistiam, como podiam, no Porto, uma cidade onde havia incêndios por todo o lado, onde os sinos não paravam de tocar a rebate e onde já não havia nem comida nem munições. Esperava-se o apoio de Lisboa e este não chegou.
Às 3 horas da manhã do dia 8 aos revolucionários não restou outra alternativa que não fosse a rendição sem condições.
Ao início da manhã Passos e Sousa atravessou a ponte de D. Luís e entrou na cidade do Porto ameaçando fuzilar quem teimasse em resistir. Da contenda do Porto resultaram 80 mortos e 360 feridos.

De acordo com o jornal gaiense “A Terra de Gaia” (nº 12, Ano I, de 14.07.1927, p. 1) pela Ordem do Exército nº 9 foram louvados alguns cidadãos gaienses pelo facto de “terem posto à disposição dos comandos fiéis ao Governo, durante o movimento revolucionário de Fevereiro, os edifícios para a instalação dos quartéis generais e concederam facilidades que concorreram para o bom desempenho da missão das tropas”.

03.02.2010


Bibliografia:
. Matoso, José, Dir., (1994) – História de Portugal, Vol. 7, Lisboa, Editorial Estampa. 
. Bandeira, Filomena, (1987) - A oposição externa à ditadura: a revolta de Fevereiro de 1927 em Lisboa, in O Estado Novo, Das origens ao fim da autarcia. 1926-1959, Vol. II, Lisboa, Editorial Fragmentos.
. Jornal “A Terra de Gaia” – Ano I, n.º 12, 14/07/1927, p.1