terça-feira, 27 de abril de 2010

29 de Março de 1809 - Evocação do desastre da Ponte das Barcas


O dia 29 de Março é recordado, particularmente pelas populações ribeirinhas do Porto e Vila Nova de Gaia, com um dia de luto. Com efeito foi nesse dia do ano de 1809 que se deu o tristemente célebre desastre da “Ponte das Barcas” que culminou com a morte de cerca de 4.000 pessoas.
Naquela era estava ainda presente nas gentes do Porto e arredores a memória recente da passagem dos franceses pela cidade. Em 13 de Dezembro de 1807 as tropas francesas haviam entrado, pela primeira vez, no Porto e aí permaneceram até 18 de Julho de 1808, data em que foram expulsos. Ao Porto voltaram ainda fugazmente as tropas do General Junot.
Em 12 de Março de 1809 o general Soult entrou em Portugal, por Chaves, e dirigiu-se ao Porto onde entrou em 27 de Março. A cidade foi conquistada e saqueada pelas tropas francesas, havendo focos de resistência por parte das populações. A cavalaria francesa entrou na cidade, depois de romper as trincheiras do Monte Pedral, a norte, e perseguiu o povo em fúria até à Ribeira.
Da Serra do Pilar as tropas portuguesas ripostaram como puderam. O povo em fuga dirigiu-se em grande número para a “Ponte das Barcas” tentando passar para o lado de Gaia. Perante a fragilidade da ponte e a imensidade de gente que a atravessava aquela cedeu e alguns milhares de pessoas caíram e pereceram nas águas do Douro.
Após esta tragédia Soult, instalado no Palácio das Carrancas e querendo ganhar a simpatia dos portuenses, proibiu novos saques, mandou patrulhar as lojas, mercados e igrejas para evitar novas pilhagens, isentou os povos do direito de portagem e mandou distribuir sopa às pessoas carenciadas.
No dia 12 de Maio Soult foi batido no Porto pelas tropas anglo-lusas, comandadas pelo Duque de Wellington e foi obrigado a retirar para Espanha, atravessando em 18 de Maio a fronteira em Montalegre, acabando assim a segunda invasão francesa.

Memória da tragédia da Ponte das Barcas
Para perpetuar a memória do desastre da Ponte dos Barcas todos os anos, no dia 29 de Março, saía em procissão a Irmandade de S. José das Taipas, que se dirigia para a Ribeira, para sufragar as almas da ponte.
No mesmo local existe um pequeno monumento evocativo, da autoria do escultor gaiense Teixeira Lopes (Pai), datado de 1897, onde o povo simples da Ribeira, no dia a dia, acende velas em evocação.
No ano passado, por ocasião do bicentenário da tragédia da “Ponte das Barcas” foi inaugurado, pelo Presidente da República, um monumento evocativo, da autoria do arquitecto Souto Moura. A peça, feita em aço patinável, encontra-se no local onde se situava a amarra norte da “Ponte das Barcas”, bem perto da Ponte D. Luís. No local da amarração sul da “Ponte das Barcas” existe uma peça simétrica. As peças em ferro, de oito metros de comprimento, estão cravadas à terra e projectam-se em direcção ao rio.
De acordo com o autor “É um monumento evocativo da Ponte das Barcas e, como uma ponte, tem duas margens e duas intervenções simétricas dos lados do Porto e de Gaia. É uma chapa aplicada no cais que foi dobrada para receber, eventualmente, os cabos de uma ponte".

A Ponte das Barcas
Ao longo dos séculos a comunicação de pessoas e mercadorias entre as margens do Douro era feita através de barcos. Apesar de vários projectos para a construção de uma ponte sobre o rio Douro que servisse as populações do Porto e de Vila Nova de Gaia, nomeadamente o da construção de uma ponte em pedra, da autoria de Carlos Amarante, a primeira passagem seria lançada somente no ano de 1806, tendo sido aberta ao público a 15 de Agosto de 1806, dia de Nossa Senhora do Pilar. Era constituída por 33 barcas, com cerca de mil palmos de extensão e abria e fechava para dar passagem às grandes embarcações que subiam e desciam o rio. Em tempo de cheias a ponte era desmantelada para evitar a sua destruição.

Havia muita concorrência na sua passagem, sobretudo às terças e sábados. Os preços de passagem praticados eram os seguintes:

Cada pessoa a pé ……………………………... 5 réis
Cada pessoa a cavalo ………………………..20 réis
Carro de uma junta de bois …………….. 40 réis
Cadeirinhas de mãos ……………………….. 60 réis
Liteira …………………………………………….. 120 réis
Sege ………………………………………………….160 réis

À noite, passados 45 minutos do sol-posto, os preços duplicavam, taxa que se mantinha até 45 minutos antes do nascer do sol, em momento que era anunciado pelo toque de um sino.
A “Ponte das Barcas” revestiu-se de uma enorme importância para o desenvolvimento das comunicações entre as zonas ribeirinhas, mas também no contexto inter-regional, na ligação entre as margens norte e sul do rio Douro.
No entanto, dadas as suas naturais limitações, a crescente necessidade do desenvolvimento das comunicações e a melhoria dos meios técnicos a nível da engenharia de pontes, nos anos 40 de Oitocentos foi projectada nova ponte, a nascente da velha “Ponte das Barcas”. A “Ponte Pênsil”, “Ponte de Ferro”, ou “Ponte D. Maria II”, como foi chamada, sob projecto e execução do Engenheiro Claranges Lucotte, demorou 1 ano, 9 meses e 15 dias a ser construída e abriu subitamente ao público no dia 18 de Fevereiro de 1843, em virtude de uma grande cheia que obrigou ao apressado desmantelamento da velha ponte móvel.

2010.03.29.



Bibliografia:
Descrição Topográfica de Vila Nova de Gaia por João António Monteiro de Azevedo, acrescentada por Manuel Rodrigues dos Santos, 2º edição, Porto, Imprensa Real, 1881.
Jornal de Notícias, de 2009.03.14.
LIMA, Durval Pires de; Os Franceses no Porto – 1807-1808, Porto, Câmara Municipal do Porto/Gabinete de História da Cidade.
Os Franceses no Porto em 1809 (Testemunho de António Mateus Freire de Andrade). Apontamentos coligidos pelo Conde de Campo Belo, Porto, Câmara Municipal do Porto/Gabinete de História da Cidade, 1945.

RAMOS, Luís A. de Oliveira (dir.); História do Porto, Porto, Porto Editora, 1994.