quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O escultor José Maria de Sá Lemos (1892-1971) e a revitalização da produção do barro figurado de Estremoz (Património Material da Humanidade, 7 Dezembro de 2017)

Escultor José Maria Sá Lemos

Oleiro de Estremoz (fotografia de Artur Pastor)

Presépio da oleira Maria Luísa

Presépio irmãs Flores

Presépio oleiro Jorge da Conceição

Presépio oleiro Afonso Ginja

Presépio oleira Maria Luísa

Cante alentejano – Jorge da Conceição
“Que Estremoz pague um dia a José Sá Lemos pois voltaram os bonecos de barro à luz do dia!”   
                                                                               Azinhal Abelho, 1964

O artista gaiense José Maria de Sá Lemos, nascido no lugar da Bandeira, freguesia de Mafamude, em 11 de abril de 1892, era filho de Adelino Sá Lemos, ferroviário e fundidor artístico e de D. Emília Teixeira Lopes. Era neto do conceituado escultor José Joaquim Teixeira Lopes. Matriculou-se na Academia Portuense de Belas Artes onde foi aluno de seu tio, o escultor António Teixeira Lopes.

Na década de 30 rumou ao Alentejo e fixou-se na cidade de Estremoz, onde foi professor e director da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, durante treze anos. Naquela cidade alentejana, com tradição secular na arte do figurado da olaria, esta encontrava-se praticamente extinta. Na sua qualidade de diretor escolar, em 1935, incentivou o mestre de olaria Mariano Augusto da Conceição a aprender esta arte com uma velha oleira, conhecida por Ti Ana das Peles, no sentido de dar nova vida à arte do figurado. Recorde-se que esta oleira só sabia modelar assobios e, nesta data, já só existiam duas famílias de barristas.

O projecto de Sá Lemos foi um sucesso e, mercê da sua amizade e influência junto de António Ferro, o figurado de Estremoz esteve presente na Exposição do Mundo Português, em 1940.

O contributo do escultor gaiense Sá Lemos para a revitalização desta arte tem sido devidamente apreciado por homens de cultura e estudiosos da arte do artesanato estremocense.

Registe-se, entre outros, Hernâni Matos que, no seu blogue designado “Do Tempo da Outra Senhora”, escreveu:
“Segundo D. Sebastião Pessanha, os últimos presépios feitos em Estremoz, terão sido uma encomenda que fez para si e para o Museu Etnológico de Belém, em 1916. Por outras palavras, os bonecos de Estremoz foram dados como extintos. Como ressurgiram então?
Graças à acção de José Maria de Sá Lemos, escultor, natural de Vila Nova de Gaia, discípulo de Mestre Teixeira Lopes e director nos anos 30 da Escola Industrial de António Augusto Gonçalves. Quando ele chegou a Estremoz, o artesanato em barro, estava na mais completa decadência, apenas se confeccionando peças de olaria para uso doméstico. Alimentou então o sonho do ressurgimento dos bonecos de Estremoz e conseguiu concretizar esse sonho. Como director da Escola deu forte incentivo aos Cursos de Olaria e Cantaria e com o apoio de Ti Ana das Peles primeiro e de Mariano da Conceição depois, estimulou a recuperação dos bonecos dados como extintos. Espírito humanista, de rara sensibilidade artística, a ele se deve o facto de os bonecos serem ainda hoje um dos nossos ex-libris, conhecidos aquém e além-fronteiras.
     Sá Lemos ao impulsionar o renascimento dos bonecos de Estremoz, pô-los na ordem do dia. Não é assim de admirar que a artista Laura Costa tenha escolhido os bonecos de Estremoz, como motivo de ilustração de bilhetes-postais de Boas Festas dos Correios, da emissão de 1942.
    No seu livro “Barros de Estremoz”, dado à estampa em 1964, diz-nos Azinhal Abelho “Que Estremoz pague um dia a José Sá Lemos pois voltaram os bonecos de barro à luz do dia”. Parafraseando Azinhal Abelho é caso para dizer que há muito tinha chegado a altura de Estremoz pagar a Sá Lemos os serviços relevantes prestados ao Município”.

Na mesma linha, o papel de Sá Lemos, é reconhecido no texto que respigámos no sítio da internet da Direcção-Geral do Património Cultural, que citamos:
Tendo a produção entrado em decadência em finais de séc. XIX, quando então apenas duas famílias de barristas se encontravam ainda em actividade, a tradição é recuperada em 1935 graças ao trabalho do escultor José Maria Sá Lemos (1892–1971), então diretor da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, em Estremoz. Este momento documenta o início do ciclo que se mantém até o momento na produção do Figurado em Barro de Estremoz, caracterizado, pelo papel desempenhado por várias entidades na viabilidade e valorização da tradição – a nível local, regional, nacional ou mesmo internacional –, pela definição formal dos tipos de Figurado considerados como identificativos da tradição local, pela reintrepretação de anteriores tipos de Figurado e pela introdução de novos modelos inspirados em tradições externas ao centro de produção de Estremoz.
Porém, a Escola Industrial António Augusto Gonçalves, através do seu Diretor José Maria Sá Lemos consegue logo em 1935 resgatar a arte, tendo para tal “(…) conseguido por empréstimo, alguns exemplares [de bonecos], quase uma dezena, várias gravuras e desenhos” e convencido “uma mulherzinha [Ti Ana das Peles] que, na mocidade, tinha visto dar ao barro as variadissimas formas dos bonecos, e ela mesmo ainda fez os celebérrimos galos, pombos e cestinhos de ovos, cujos assobios atroavam as romarias e lhes davam ambiente”. (ABELHO 1955, pp. 8-11.) ComTi Ana das Peles vê a oportunidade de “ressurreição artística [dos bonecos, tendo que] convencer a oleira a trabalhar e a criar alguns díscipulos, aos quais legasse os segredos da sua arte tão nobre. “ (DAVID 1945, pp.4.) ”.

A “DESVALORIZAÇÃO” DO PAPEL DE SÁ LEMOS
O alvitre de Hernâni Matos não encontrou, infelizmente, o reconhecimento que se impunha. O mesmo se diga do que é defendido no texto acima transcrito da Direção-Geral do Património Cultural.
Pelo contrário o redator do Parecer Técnico nº 2/2014, da mesma Direção-Geral do Património Cultural, sobre a Produção em Barro de Estremoz omite o prestimoso contributo de José Maria Sá Lemos, sem o qual, provavelmente, não existiria já hoje este valioso elemento do património imaterial estremocense.
Refira-se que este parecer terá servido de base à classificação e inclusão do figurado de barro de Estremoz no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial e à candidatura apresentada pelo Município de Estremoz, em 22 de março de 2016, da Produção de Figurado em Barro de Estremoz a Património Imaterial da Humanidade, junto da Comissão Nacional da UNESCO.

Aqui reproduzimos o texto:
“Este último momento, quando a produção é recuperada e se procede à formação profissional de novos artífices graças à ação da Escola Industrial António Augusto Gonçalves, inaugura uma “segunda vida” nesta prática tradicional, que se prolonga até à atualidade, e que se caracteriza pelo fato de a visibilidade pública do figurado de barro de Estremoz passar a estar largamente dependente não apenas da atividade de produção propriamente dita e dos respetivos barristas mas também de várias organizações implicadas na sua valorização (de âmbito cultural, turístico e económico) quer a nível nacional e regional, quer, muito particularmente, a nível local, através de ações patrimoniais desenvolvidas pelo Museu Nacional de Estremoz, que desde a década de 1960 se têm revelado decisivas para a salvaguarda da coleção de maior relevância histórica do figurado de Estremoz e para a produção de conhecimento”.

É óbvia a contradição patente no sítio da Internet da mesma instituição, a Direcção-Geral do Património Cultural. Num lado faz-se justiça ao papel desempenhado pelo escultor gaiense na revitalização do figurado de barro de Estremoz. Noutro lado, esse papel é atribuído tão-somente à Escola Industrial António Augusto Gonçalves, esquecendo o relator o contributo do diretor.

Seja como for, deva-se o erro a acção ou omissão, Vila Nova de Gaia berço de artistas onde se inclui José Maria de Sá Lemos, está de parabéns pelo facto de o figurado de barro estremocense ter recebido este galardão internacional.
Refira-se que esta decisão foi tomada a 7 de dezembro, na 12ª Reunião do Comité Intergovernamental da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) para Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, reunida na Ilha de Jeju, na Coreia do Sul.

É também altura de felicitar o município de Estremoz por este prémio e pela valorização da vida e obra deste escultor gaiense que foi o autor do Monumento ao Mortos da Grande Guerra daquela cidade.

Webgrafia:  
https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.pt/2010_09_12_archive.html
https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.pt/2017/12/bonecos-de-estremoz-proclamados_7.html

Texto António Conde

Dezembro 2017

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Gaya d'Antigamente XV : O Sanatório Marítimo do Norte - Centenário da sua Fundação, 1917-2017

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Vila Nova de Gaia, Agosto e Setembro de 2017

Isabel Santos

Gaya d'Antigamente XIV : A Praia de Miramar no Século XX

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Vila Nova de Gaia, Junho e Julho de 2017

Isabel Santos